Ex-morador de rua conta como venceu o inverno: "Vi pessoas morrerem"

Em relato emocionante, Abel revela quais são as maiores dificuldades de não ter uma casa para morar e reforça a importância do olhar solidário

"Quando não conseguia espaço para ficar em albergues, me enrolava em papelões e jornais para tentar me aquecer". Foram com essas palavras que Abel Marques da Silva, de 55 anos, lembrou do tempo em que morou nas ruas.

Após perder a mãe, ele entrou em depressão e fugiu da casa onde morava em Naviraí, Mato Grosso do Sul. Ao chegar em São Paulo e não conseguir se sustentar, ficou sem opções de moradia. "Foram anos dormindo nas calçadas, debaixo de viadutos. Não tinha vícios, mas portava uma doença emocional, que era a depressão", detalha.

Desde junho, pelo menos 17 pessoas já morreram em decorrência das baixas temperaturas na cidade de São Paulo

Desde junho, pelo menos 17 pessoas já morreram em decorrência das baixas temperaturas na cidade de São Paulo

Estadão Conteúdo / Cris Fraga

Abel se recorda que nos dias de inverno as pessoas não tinham compaixão para com ele e outros moradores de rua. "O inverno era o período mais difícil. Teve um dia que me marcou muito porque estava muito frio e eu tentava me aquecer com um cobertor fininho que a prefeitura deu e com papelões, só que uma pessoa ficou incomodada com a minha presença e jogou água gelada em mim para eu sair dali", lamenta.

Ao comentar sobre as mortes de pessoas em situação de rua por hipotermia desde o fim de junho deste ano, Abel se emociona ao detalhar o que presenciou. "Infelizmente, vi moradores de rua morrerem ao meu lado. Muitos bebiam ou usavam drogas para tentar se aquecer, mas quando o efeito passava, eles adoeciam. É muito triste lembrar disso".

Políticas Públicas

Em São Paulo, desde que a Defesa Civil emitiu o alerta para baixas temperaturas, as pessoas em situação de rua encontradas mortas passaram a ser contabilizadas. Além disso, grupos criaram petições online pedindo para que o governador João Doria (PSDB) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB), valorizem novas políticas públicas.

Ex-morador de rua reforça a importância da solidariedade, sobretudo neste período de inverno

Ex-morador de rua reforça a importância da solidariedade, sobretudo neste período de inverno

Reprodução

Ao mesmo tempo, há quem não esperou ações do estado ou da prefeitura. Diversos cidadãos sentiram a dor daqueles que não têm como se proteger das frentes frias. Voluntários do programa social Anjos da Madrugada, por exemplo, se unem todas as semanas, em todo país, para oferecer ajuda humanitária à essa parcela da população. "Um cobertor, roupa limpa e comida fazem mais do que ajudar a suportar o frio: salvam vidas. Muitas localidades estão enfrentando até 6°C nas madrugadas. O programa social tem levado aos sem-teto alimento e agasalhos, além de palavras de força e esperança que aquecem o coração de cada um deles", afirma Leandro Zangarini, responsável pelo programa social no Brasil.

Uma ajuda que faz a diferença

Zangarini lembra que toda ajuda é bem-vinda. "Se você quer fazer a noite de uma pessoa mais quente e pode colaborar com esse trabalho, procure uma Universal mais próxima e faça sua doação. Cada uma das igrejas espalhadas pelo País se tornou ponto de arrecadação de roupas, meias, cobertores e colchões".

A assistência oferecida para as pessoas em situação de rua é essencial e pode salvar vidas

A assistência oferecida para as pessoas em situação de rua é essencial e pode salvar vidas

Reprodução

É importante lembrar que a população em situação de rua cresceu 140% a partir de 2012, chegando a quase 222 mil brasileiros em março deste ano, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Mas, especialistas acreditam que esse número pode ser muito maior.

Assim, quem vive dessa forma, ou melhor, sobrevive, acaba sofrendo com o inverno intenso que permanece atingindo o Brasil, principalmente nas regiões do Sul e Sudeste. "Olhar para essas vidas com indiferença e julgamentos só piora a situação. Por isso, cada um, em seu universo individual, pode fazer um pouco, ainda mais nesse período de frio intenso. Hoje consegui recomeçar, trabalho, tenho a minha casa e também sou voluntário, ajudo pessoas que estão nas ruas, assim como estive um dia. Por isso, afirmo com todas as letras que precisamos olhar para essas pessoas com solidariedade e não com desprezo", conclui Abel.

Últimas