Refletindo Sobre a Notícia por Ana Carolina Cury  “Geração do Quarto” preocupa especialistas, sobretudo na pandemia

 “Geração do Quarto” preocupa especialistas, sobretudo na pandemia

Isolamento é mais do que uma fase, é um pedido de socorro

Na minha pré-adolescência gostava muito de ficar no meu quarto escrevendo poemas, ouvindo música. Naquela época quase não usava computador, mas quando minha mãe percebia que estava há muito tempo trancada, logo me chamava para fazer algo.

O isolamento não é bom, segundo especialistas em saúde mental. Muitos pais pensam que “é só uma fase” quando se deparam com os filhos trancados no quarto. Mas, pode não ser só um período da vida deles.

Um estudo realizado pelo neuropsicólogo Hugo Monteiro Ferreira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, revelou que 75% dos 3.115 adolescentes entrevistados estavam com adoecimento emocional. O neuropsicólogo constatou sintomas como depressão em diferentes graus, bulimia, anorexia, síndrome do pânico, crise de ansiedade, uso abusivo de álcool e automutilação. Ele chamou esse grupo de “geração do quarto” porque a maioria tinha uma relação intensa com a internet, era solitária e, ao mesmo tempo, enfrentava dificuldades na relação familiar.
 

"Geração do Quarto": É importante perceber quando o isolamento dos jovens não é sadio

"Geração do Quarto": É importante perceber quando o isolamento dos jovens não é sadio

Getty Images

E, na pandemia, os especialistas reforçam que adolescentes e pré-adolescentes são um dos grupos mais afetados quando se fala em saúde mental. Segundo uma pesquisa publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry "crianças e adolescentes têm mais chances de ter altas taxas de depressão e ansiedade durante e depois do período de isolamento”. 

Dificuldades na relação familiar

Muitas vezes, há atritos ou falta comunicação entre pais e filhos – esses, por conta do medo da rejeição, de não ser amado, de ser culpado pelos estresses, entre outros fatores, são atraídos para o quarto e dispositivos eletrônicos.

Os jogos, vídeos e estímulos chamam mais atenção do que o contato humano, inclusive por causa das dificuldades de lidar com as diferenças nas relações. Dessa forma, os jovens se isolam do que julgam que seja mais difícil.

Além disso, uma atitude muito comum que os adolescentes adotam nesse contexto de isolamento é a automutilação (ato de cortar a própria pele para tentar esquecer os problemas).

Diversos psiquiatras alertam que há pais que nem sequer percebem que os filhos se cortam com canivetes, lâminas de barbear, estiletes e até com apontadores de lápis.

Vencendo o distanciamento familiar

Está comprovado que alguns conteúdos podem influenciar negativamente crianças e adolescentes e se tornar um grande problema, principalmente quando lhes faltam orientação familiar e limites.

O neuropsicólogo Hugo Monteiro Ferreira afirmou também em seu estudo que a violência é uma das consequências do comportamento dos integrantes da “geração do quarto”. Contudo a maioria é reclusa, calada e, se nada for feito para ajudá-los, em vez de entrar em escolas atirando, se deprimem, se suicidam ou entram para a criminalidade.

Por isso, pais ou responsáveis precisam ficar atentos. Porque, quando não há atenção, o filho busca preencher o vazio com algo superficial ou mesmo nocivo. É essencial que ele saiba que é amado, respeitado e que sua presença é desejada. 

O jovem que vive trancado no quarto está pedindo socorro. Precisamos atender esse chamado.

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