Refletindo Sobre a Notícia por Ana Carolina Cury Marcius Melhem admite que é um homem tóxico, mas nega ter cometido abuso

Marcius Melhem admite que é um homem tóxico, mas nega ter cometido abuso

Caso traz reflexão importante a respeito da "cultura" do estupro

O ano era 2008. Parecia ser mais um dia comum de trabalho. Decidi ir de metrô porque aquela segunda-feira era rodízio do carro. Mas, seria melhor ter tomado uma multa naquela ocasião... Porque, o que era para ser algo corriqueiro se tornou um pesadelo. Quando estava no vagão, notei que um homem sentado alguns assentos perto do meu, me olhava constantemente. 

Finalmente a estação Santana havia chegado, era a minha parada. Quando me levantei e saí, aquele homem também se levantou e passou a andar logo atrás de mim. A primeira coisa que veio à minha mente foi que ele estaria me seguindo, então, fiz um teste: parei em um quiosque de perfumes localizado ao lado da catraca. Para o meu terror ele parou alguns metros à frente.

Comecei a tremer. Para sair da estação havia um longo corredor, escuro, repleto de corredores laterais. Minha primeira reação foi pedir ajuda a um homem que passava ao meu lado. Estava tão nervosa que, como ele estava vestindo uma farda, achei que fosse policial civil, mas, na verdade, era bombeiro. Expliquei o ocorrido e disse que não sabia o que fazer.

Coincidentemente, no mesmo momento, uma moça nos interrompeu e pediu ajuda para chegar em uma rua que era a rua onde trabalhava. Ele disse para eu ir com ela e sair pelo lado oposto de onde estávamos, que abordaria aquele homem e verificaria o que estava acontecendo.

Consegui chegar em segurança, mas nunca me esqueci desse dia. No início, não entendi o porque daquilo ter acontecido, estava vestida de forma discreta, sem maquiagem, como talvez alguns questionariam.

Essa lembrança voltou quando li sobre o ex-diretor da Globo, Marcius Melhem, acusado de assédio, sexual e moral contra diversas mulheres. A repercussão foi gigantesca após revelações da atriz Dani Calabresa, o que me fez questionar: o caso ganhou todo esse destaque porque quem o denunciou é do meio dos famosos? Porque naquela época que fui seguida por um suposto abusador não recebi apoio do movimento “mexeu com uma mexeu com todas”? Na verdade, nada aconteceu e minha vida seguiu. E isso acontece, todos os dias, com milhares de outras mulheres.

As denúncias de assédio sexual contra o ator e diretor Marcius Melhem ganharam destaque após revelações de Dani Calabresa

As denúncias de assédio sexual contra o ator e diretor Marcius Melhem ganharam destaque após revelações de Dani Calabresa

Felipe Panfili/AgNews

Melhem afirmou que se considera um homem tóxico, que cometeu excessos, mas que nunca teve uma relação que não fosse consensual. Me recordou a declaração de Robinho...

A questão nisso tudo é que, com ou sem repercussão, há muitas pessoas cometendo assédio, achando que podem justificar seus crimes e falta de respeito. Então, como idolatrar quem age assim? De que adianta ser “bom” na profissão e péssimo na moral?

Não quero entrar aqui no teor das denúncias, mas penso que lutar contra homens abusadores pedindo para que eles mudem não é o melhor caminho. A realidade, por mais que seja revoltante, é que eles sempre existiram e continuarão a existir, por mais que sejam punidos. Afinal de contas, o mundo é repleto de pessoas más e não temos o poder de mudar isso.

Para mudar é preciso vencer a "cultura" do estupro

Uma pesquisa recente feita pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com duas mil pessoas, mostrou essa realidade. 95% das mulheres disseram ter medo de ser vítimas de estupro. O estudo também revelou que 92% dos homens têm receio de que alguma mulher que conheçam (filha, mãe, esposa, namorada) seja vítima de violência sexual.

Me chamou atenção que mais da metade dos entrevistados afirmou conhecer uma mulher ou menina que foi vítima de estupro.

Por isso, o assunto é sério e exige um posicionamento daqueles que se consideram “de bem”. Porque, enquanto a sociedade está carente de pessoas posicionadas, íntegras, honestas, fieis, ela não se comporta, em sua maioria, dessa forma.

A cultura do estupro começa quando o homem acha que é normal ver todos os tipos de pornografia (inclusive escondido de sua parceira) que mostram a mulher como um objeto descartável; que pode insistir em flertar com aquela colega de trabalho mesmo ela tendo negado querer algum tipo de envolvimento; que é engraçado falar de outras mulheres de forma perjorativa (comum hoje em dia em grupinhos de Whatsapp), entre outros exemplosE o mesmo vale para as mulheres.

Por isso, o posicionamento da mulher não tem a ver apenas com pedir respeito nas redes sociais, mas sim em se respeitar em primeiro lugar e não aceitar nem cultivar esses ataques diários que as objetificam.

Outro dia ouvi um grupo de homens falando sobre mulheres de forma depreciativa. Me deu nojo. Piorou quando notei que mulheres participavam da roda de conversa e riam, como se aquilo fosse natural.

Por isso, gostaria de deixar um recado aos homens e mulheres: Por favor, parem. Parem de objetificar a mulher. Parem de propagar e incentivar o estupro nas mídias, seja por meio de propagandas de bebidas alcóolicas, filmes, novelas, seja o que for. Parem de compartilhar pornografias.

Parem de falar sobre as mulheres como se fossem objetos. Isso não é engraçado. E não, isso não faz de ninguém mais "empoderado", muito pelo contrário, cria misóginos dignos de nojo. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. O que só traz à tona a necessidade de se tomar uma atitude séria perante a banalização do estupro.

É preciso dar um basta nessa "cultura" acéfala que que trata a mulher como um pedaço de carne.

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