Mentira que mata: relembre vítimas que foram mortas após acusações inverídicas
Além de prejudicar a vida do mentiroso, mentir estimula o ódio e pode ocasionar tragédias
Refletindo Sobre a Notícia por Ana Carolina Cury|Do R7 e Ana Carolina Cury
Para agradar, por medo, por interesse, por vingança. A mentira está presente no cotidiano da sociedade e são vários os motivos para usá-la. Enquanto algumas pessoas mentem para conseguir vantagens, outras o fazem para evitar conflitos. Há ainda aqueles que gostam de mentir para se autopromover. Em muitos casos, as mentiras começam pequenas e vão aumentando. Mente-se uma, duas, três vezes, até que a pessoa se acostuma e acaba mentindo a qualquer hora. E, além de tirar qualquer crédito de confiança no mentiroso, ela pode trazer consequências irreversíveis, como levar vítimas à morte.
Um exemplo disso foi a confissão de uma aluna francesa. Ela admitiu, durante as investigações do caso, que mentiu sobre o professor Samuel Paty, decapitado por um terrorista de 18 anos em outubro do ano passado. A jovem acusou Samuel de ter praticado intolerância religiosa ao mostrar, em sala de aula, charges do jornal satírico Charlie Hebdo aos alunos.

"Eu sequer estava presente na aula no dia das charges", revelou a jovem em 25 de novembro de 2020. Ainda de acordo com o jornal francês Le Figaro, a menina teria mentido sobre o professor para não ter que contar ao pai que tinha matado aulas e recebido uma suspensão.
O problema é que essa "mentira para não ser prejudicada" gerou uma campanha de difamação que culminou na decapitação do professor por um extremista islâmico na porta do colégio.
Outro caso que marcou foi o da dona de casa, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, que, em 2014, foi espancada até a morte por conta de uma mentira sobre ela que viralizou nas redes sociais.
Divulgaram na internet uma montagem onde afirmavam que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra no Guarujá, litoral de São Paulo. A população considerou a notícia verdadeira e resolveu fazer "justiça com as próprias mãos". Justiça que não teve nada de justiça, porque próprio veículo de informação local já havia divulgado notas onde desmentia essa acusação. Mas, ninguém deu atenção.

As agressões resultaram em traumatismo craniano e, posteriormente, na morte de Fabiana.
Não para por aí. Em 1944, a morte de um jovem de 14 anos também prova o poder negativo da mentira.
Isso porque, 70 anos depois dele ser julgado culpado e ter a pena de morte executada, em 2014, a Justiça do Estado da Carolina do Sul (EUA) inocentou o adolescente, George Stinney, pelo assassinato de duas garotas.
A juíza alegou que os policiais mentiram e forçaram o jovem a confessar o crime sem a presença de um advogado, ou qualquer outra testemunha, porque os mesmos não haviam localizado o verdadeiro assassino. George foi a pessoa mais nova a ter a pena de morte executada nos Estados Unidos no século 20.

O filme "A Espera de um milagre" foi inspirado na vida dele.
Dia de quê?
O Dia da Mentira nasceu como uma manifestação política e, com o tempo, se tornou uma celebração das inverdades.
Tudo indica que começou na França, no século 16. Isso porque, no final dos anos 1500, o rei francês decidiu adotar o calendário gregoriano, o mesmo que o Brasil segue. Dessa maneira, o ano novo, que até então era celebrado em 25 de março, mudou para 1º de janeiro. Na época, a tradição era festejar por uma semana.
Algumas pessoas, entretanto, discordaram da decisão e seguiram comemorando o ano novo entre 25 de março e 1º de abril. A maioria da sociedade passou a ironizar essas pessoas, pregando peças e chamando-as de bobas. Dessa forma, o dia 1º de abril era o dia do ano novo mentiroso, o dia dos bobos. A tradição foi ganhando força e, com a influência que a França exercia sobre a Inglaterra no século 18, migrou para lá. A partir daí, o dia da mentira se espalhou pelo mundo.
Particularmente, acho ridículo ter um dia intitulado para a mentira. Qualquer omissão, por menor que seja, machuca, magoa e destrói. Não há o que ser comemorado. A mentira nunca traz nada de bom, seja para quem a fala ou para quem a ouve.
A verdade pode até machucar, mas para curar. A mentira ilude, mas para destruir.
O único caminho
Pode parecer uma alternativa boa mentir para se livrar de uma situação, mas depois, quando menos se espera, essa mesma mentira reaparece e se revela a todos.

A vida do mentiroso não é fácil. Especialistas e estudos já mostraram que as consequências ruins são tantas e vão desde ter que conviver com a insônia, com a ansiedade até ter que lidar com falta de concentração e com a depressão.
Sem falar que para sustentar uma mentira é necessário contar muitas outras inverdades. A pessoa se perde nela mesma.
Por isso, não há nada mais sensato do que fugir desse mal que dizem ser normal, porque a mentira que hoje parece inofensiva amanhã mostrará suas garras. É fato que optar por viver uma mentira, como o nome já diz, faz a pessoa passar toda a vida no engano. Não vale a pena.
Somente a verdade torna a vida leve e feliz. Encará-la e fazer o que for para viver nela é a melhor escolha que alguém pode fazer, custe o que custar.
A raiva da mentira nunca passa. A raiva da verdade não tem como durar. Nem sempre - quase nunca - a verdade é agradável, mas só ela liberta.















