‘Paguei e passei’: um retrato da corrupção no dia a dia
Compra de aprovação em exames de direção levanta discussão sobre a normalização da corrupção

Se você já dirige, provavelmente se lembra de como é o processo para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Tudo começa com o exame psicotécnico, seguido pelas aulas teóricas e por uma prova escrita sobre leis de trânsito, sinalização, primeiros socorros e direção defensiva.
Depois, vêm as aulas práticas de direção e, por fim, o exame prático — que costuma ser o momento mais tenso para a maioria dos candidatos. É um processo que exige tempo, disciplina e preparo — e que, infelizmente, nem sempre é respeitado por todos da mesma forma.
Recentemente, precisei refazer todo esse processo. E, ao longo dele, não faltaram pessoas oferecendo o que chamam de “quebra” — um termo usado para se referir à possibilidade de aprovar o candidato em alguma etapa sem que ele precise realmente cumprir todos os requisitos. Em outras palavras: pagar para burlar o sistema.
Recusei. Mas não estou escrevendo para exaltar essa escolha ou vender qualquer mérito. Não é sobre isso. O que me trouxe até aqui foi uma reflexão que surgiu hoje pela manhã, durante a prova prática.
Fui chamada para o exame. Quando me aproximei do carro, vi um candidato ser colocado à minha frente. Ok. Esperei. Cerca de 20 minutos depois, a cena se repetiu, e uma moça começou o teste no meu lugar. Questionei.
Quando a candidata deixou o carro, recebi a explicação que aquelas duas pessoas haviam pagado para “passar direto” e fariam a prova com instrutores que aceitavam essa condição. Ou seja, foram favorecidas mesmo burlando o sistema.
O preço de ser correto
Saí de lá decepcionada. Afinal, esse tipo de prática só reforça e perpetua a cultura da corrupção no país. Em 2024, o Brasil registrou sua pior nota da série histórica no Índice de Percepção da Corrupção: 34 pontos, ocupando a 107ª posição entre 180 países — um reflexo preocupante da realidade que vivemos.
Mas, ver de perto esse favorecimento ilícito, sentir na pele, é outro impacto. Dói perceber que, muitas vezes, quem tenta seguir o caminho certo parece estar em desvantagem.
E é aqui que gostaria de chegar: fazer o certo pode parecer mais difícil na maioria das vezes. E realmente é. Com quase 36 anos, enfrentei todo o processo novamente, estudei, treinei, fiz tudo desde o início.
Teria sido mais fácil pular todas as etapas, sendo que já sei dirigir? Teria. Mas é aí que mora o perigo. Nem sempre o que parece mais fácil é o certo a se fazer. E nem sempre escolher o que é correto traz retorno imediato.
Seja no trabalho, nos relacionamentos, na criação dos filhos, nas decisões pequenas ou grandes do dia a dia — às vezes, parece que quem mente, burla ou prejudica os outros se dá melhor. Mas isso é ilusão.
A verdade é que nenhum “jeitinho” vale o preço da nossa paz. Nada substitui a leveza de deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo com as próprias escolhas. Por isso, este não é um texto para julgar quem já errou, afinal todos nós erramos, mas para provocar uma reflexão para que nossas atitudes daqui pra frente não caiam na armadilha da corrupção.
Melhor ser taxado de chato por ser “certinho” do que quebrar a cara para conseguir o que se quer a qualquer custo — e, no fim, perceber que nada daquilo valeu a pena. A cultura do “jeitinho” pode até parecer inofensiva em algumas situações, mas ela corrói valores, enfraquece instituições e alimenta um ciclo de impunidade que prejudica a todos.
Quando escolhemos fazer o certo, mesmo que em silêncio e sem aplausos, estamos ajudando a construir algo maior: um ambiente mais justo, íntegro e digno — começando por dentro da gente.
A CNH é uma conquista - Não busque atalhos
A assessoria de comunicação do Detran-SP entrou em contato com a coluna e informou que busca atuar com rigor para combater práticas ilícitas e repudia todo tipo de irregularidade. De janeiro a junho de 2025, o número de ações de fiscalização em autoescolas triplicou em comparação ao mesmo período do ano anterior, saltando de 662 para 1.974. Como resultado, 108 estabelecimentos e 320 profissionais foram cassados por condutas irregulares. Desde 2023, mais de 513 autoescolas foram punidas em São Paulo.
A obtenção da CNH deve ser feita de forma legítima e dentro da lei. O processo de formação do condutor, adequado às exigências do Código Brasileiro de Trânsito, é essencial para garantir a segurança nas vias públicas. A cultura de integridade é prioridade na autarquia. Desde janeiro, o Detran-SP conta com a nova Diretoria de Controle de Integridade (DCI), que atua na prevenção, correição e promoção de boas práticas, reforçando a ética e a responsabilidade no serviço público.
Com essas iniciativas, o Detran-SP busca engajar a sociedade e compartilhar a responsabilidade na identificação de possíveis irregularidades, estimulando o cidadão que observar alguma infração relacionada aos estabelecimentos credenciados ou agentes a procurar o FalaSP (fala.sp.gov.br), canal de comunicação do Governo do Estado, e o Disque Denúncia 181, com garantia de sigilo absoluto.
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