Logo R7.com
RecordPlus
Refletindo Sobre a Notícia

Venezuela e a hipocrisia escancarada da política internacional

Prisão de Maduro provoca reações globais e expõe contradições no discurso de soberania e direito internacional

  • Google News
Maduro vai para a primeira audiência em Nova York Adam Gray/Reuters – 05.01.2025

2026 começou com fortes emoções. O mundo entrou em ebulição após a notícia da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em meio a uma operação conduzida pelos Estados Unidos.

A ação provocou reações imediatas de governos, organismos multilaterais e líderes políticos, com uma enxurrada de notas oficiais — algumas apoiando, outras condenando —, classificando o episódio como “violação da soberania venezuelana” e “ameaça à ordem internacional”.


A repercussão continua e as incertezas quanto ao futuro do país e aos impactos para a região, incluindo o Brasil, só aumentam. Diante desse cenário, chamam atenção alguns posicionamentos diplomáticos. Um roteiro conhecido, mas que traz uma reflexão importante.

A Rússia, por exemplo, foi uma das vozes que criticaram duramente qualquer tipo de intervenção externa na Venezuela, reforçando a importância do princípio da soberania nacional e do respeito às fronteiras.


Chega a ser irônico, uma vez que é justamente a Rússia que, desde 24 de fevereiro de 2022, mantém uma invasão em larga escala contra a Ucrânia, numa guerra que já dura quase quatro anos, com ocupação de territórios, bombardeios e uma das maiores crises humanitárias da Europa. Ou seja, faz exatamente — e em escala ainda maior — aquilo que hoje condena.

A contradição não se limita à Rússia. Outros países que agora se dizem alarmados já participaram, direta ou indiretamente, de intervenções militares, muitas vezes sem autorização de organismos multilaterais.


Quando convém, a invasão é chamada de “operação de segurança” ou “missão humanitária”. Quando não convém, vira “crime internacional”.

A China também se insere nesse debate. Pequim defende com veemência o princípio da soberania e da não intervenção, quando o tema é Venezuela, mas mantém uma postura cada vez mais dura em relação a Taiwan, território que considera parte inseparável de seu domínio.


Exercícios militares frequentes, ameaças veladas e pressões diplomáticas mostram que, na prática, o respeito à autodeterminação vale apenas quando serve aos próprios interesses estratégicos.

Não é hipocrisia?

Se isso não é um exemplo claro de hipocrisia, fica difícil encontrar outro. Afinal, como sustentar a defesa da soberania alheia enquanto se viola, de forma sistemática, a soberania de um país vizinho? Como exigir respeito às normas internacionais quando essas mesmas normas são ignoradas na prática?

A política internacional parece funcionar sob uma lógica conhecida: dois pesos, duas medidas. Enquanto a Rússia fala em soberania tentando controlar a Ucrânia, enquanto outras potências condenam intervenções após décadas de ações semelhantes, o discurso perde credibilidade.

Não se trata de defender ou condenar Maduro, mas de exigir coerência.

Essa lógica, aliás, não se limita ao campo geopolítico. Ela aparece com frequência também no âmbito pessoal.

Quantas vezes pessoas criticam comportamentos que elas mesmas praticam? Reclamam da corrupção na política, por exemplo, mas dão um “jeitinho” em diversas situações do dia a dia.

Condenam a mentira, mas mentem quando lhes convém. Apontam o dedo para a traição, mas repetem o mesmo padrão de comportamento.

Que esses acontecimentos sirvam, ao menos, como reflexão para os novos dias que virão em 2026. Ou se escolhe reproduzir a hipocrisia que tanto se critica, ou se escolhe agir com coerência, responsabilidade e verdade, mesmo quando isso aparentemente “custa mais”.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.