Eleição em Belo Horizonte: a campanha vai decidir
Números mostram que 74% dos eleitores ou não têm ainda um candidato ou pretendem anular o voto
Três Poderes|Rodrigo Mendes*

A pesquisa realizada pelo instituto Real Time Big Data divulgada pelo blog Três Poderes sobre a corrida eleitoral à Prefeitura de Belo Horizonte mostra um quadro ainda completamente impreciso e um eleitor totalmente distante do processo eleitoral. Não é fácil vislumbrar favoritos, mesmo que já despontem alguns nomes mais fortes. É possível, contudo, afirmar: o jogo será decidido na campanha eleitoral. O desempenho na campanha vai importar, e muito.
Durante um certo tempo nos estudos mais acadêmicos sobre eleições e comportamento eleitoral se acreditava que os resultados das urnas eram fruto muito mais de fatores previamente dados na conjuntura, como a posição e alinhamento de lideranças, partidos e grupos políticos, a avaliação dos governantes, a condição da economia, dentre outros fatores, enquanto o desempenho dos candidatos e suas respectivas campanhas e comunicação importavam muito pouco no desfecho do jogo eleitoral. Um livro bastante importante que descontruiu esses argumentos foi As Campanhas Importam, de Thomas Holdrook.
Nesta obra o autor diz que um número significativo de eleitores retardam a sua decisão e deixam para escolher seus candidatos na campanhas e uma parte considerável nos últimos 15 dias (esse fenômeno cada vez mais é constatado no Brasil); a identificação com partidos é muito pouco expressiva (no Brasil ainda mais); há uma grande flutuação das intenções de voto durante a campanha, especialmente em cenários onde os candidatos são ainda desconhecidos na pré-campanha; e por fim, como a mídia é cada vez mais importante e gera uma oferta muito grande de informações durante a campanha, elas acabam por influenciar na construção das imagens dos candidatos e na decisão de voto. Nos dias de hoje, com a força das redes sociais e o WhatsApp, esse fenômeno é turbinado. Pois bem, tudo isso pode ser aplicado à realidade da eleição de BH.
A análise dos números mostra que 74% dos eleitores ou não têm ainda um candidato ou pretendem anular o voto. Ou seja, a eleição está fora da pauta de preocupação para a grande maioria. Há muitos candidatos com alguma densidade eleitoral fazendo com que o jogo na capital mineira fique tão embolado. É preciso acompanhar a evolução do quadro para ver quem vai se descolar dos demais.
A pesquisa Real Time Big Data mostra que boa parte dos candidatos já apresenta um razoável grau de conhecimento por parte dos eleitores: Carlos Viana (Podemos, com 84% de conhecimento), Rogério Correia (PT, 82%), Fuad Noman (PSD, 78%), Duda Salabert (PDT, 75%), Bruno Engler (PL, 75%), Gabriel Azevedo (MDB, 73%), para ficar nos mais conhecidos. Importa lembrar que até pouco tempo atrás o que se comentava é que o desconhecimento era o principal problema do atual prefeito, Fuad Noman. Parece que ele está conseguindo superar essa barreira.
Quando se observa o potencial de cada candidato, em especial cruzando com as respectivas rejeições, o quadro passa a ganhar alguma clareza. Nessa avaliação, destacam-se dois pretendentes: Carlos Viana (Podemos) e Fuad Noman (PSD). Carlos Viana tem 42% de potencial (51% de potencial total – “vota com certeza” mais “poderia votar”), se destacando dos demais nesse quesito e uma rejeição de 38%. Considerando a relação potencial menos rejeição, ele tem um saldo de mais 13%. Já Fuad Noman, que tem o segundo maior potencial com 38% (potencial total de 43%) e uma rejeição de 35%, obtendo, portanto, mais 8% na relação potencial menos rejeição. Os demais candidatos, todos eles, ficam no negativo quando se subtrai a rejeição do potencial. Em tese, os números mostram que Viana e Noman teriam maior espaço para crescer.
Contudo, como já se afirmou, boa parte dos candidatos mais expressivos têm seu conhecimento, potencial e rejeição muito emparelhados. Isso fica claro quando se estimula os cenários de segundo turno, onde uma grande parcela de eleitores está indecisa ou anulando o voto. Entre os atuais líderes há praticamente um empate em todos os cenários e um grande contingente de indecisos. Predominando este embaralhamento da disputa, vai pesar ainda mais a força dos líderes políticos, como a do presidente Lula, do ex-presidente Bolsonaro, do governador Romeu Zema, do ex-prefeito Alexandre Kalil, do deputado federal Nikolas Ferreira ou do senador Rodrigo Pacheco.
Pesa ainda a favor de Fuad Noman o fato de ele estar exercendo o mandato de prefeito, ter uma gestão razoavelmente bem avaliada (46% de aprovação) e ser ainda desconhecido por uma parte dos eleitores. Na medida que consiga se tornar mais conhecido, agregar valor à sua imagem como prefeito, ou seja associar a gestão com seu nome, terá uma boa probabilidade de crescer em intenção de voto. Esse fenômeno está razoavelmente demostrado no cruzamento entre a avaliação do governo Fuad versus a intenção de voto. Ainda mais em um cenário tão embolado, onde alguns poucos pontos percentuais já poderão provocar esse descolamento de que falamos anteriormente.
Por fim, a melhora do desempenho do prefeito terá importância para se vislumbrar qual será o desenho do cenário eleitoral de BH. O atual prefeito pode trazer o jogo mais para os campos municipal e administrativo. Pelo perfil dos candidatos colocados, existe uma clara tendência de polarização na eleição de BH. Ela interessa a Bruno Engler, que precisa do voto dos bolsonaristas, da mesma forma que interessa a Rogério Correia, Duda Salabert e Bella Gonçalves (PSOL), que precisam do voto lulista. O grau de polarização que a disputa vai alcançar vai depender exatamente da capacidade do prefeito de afirmar uma agenda mais local.
Conclusão, como se diz lá em Minas Gerais: tem muita água para rolar debaixo da ponte e, parece que, mais uma vez, uma máxima trazida pelo ex-governador mineiro Hélio Garcia vai seguir valendo, de que o jogo mesmo só começa depois da parada de 7 de Setembro. A se ver!
* RODRIGO MENDES é sociólogo, especialista em marketing, mestre em ciência política (UFMG) e autor do livro Marketing Político – o poder da estratégia nas campanhas eleitorais (Ed. C/Arte).










