Canais digitais já respondem por 36% das negociações de dívidas e reconfiguram recuperação de crédito no país
Dados são de relatório elaborado por plataforma
Record Paulista|Do R7
A recuperação de crédito, um dos segmentos mais tradicionais do mercado de serviços financeiros, começa a passar por uma transformação mais estrutural no Brasil.
O relatório elaborado pela plataforma Pagou Fácil, da Paschoalotto, referente ao mês de fevereiro, indica que 36% das negociações de dívidas já são realizadas por canais digitais, movimento que sugere uma mudança relevante na forma como consumidores e empresas vêm tratando a inadimplência.
Mais do que um dado operacional, o avanço dos canais digitais revela uma inflexão no relacionamento entre credores e devedores. Em um ambiente marcado por pressão sobre a renda, maior familiaridade da população com meios digitais e busca crescente por eficiência, a renegociação de dívidas passa a depender menos de estruturas tradicionais de contato e mais de jornadas rápidas, acessíveis e escaláveis.

“A digitalização vem mudando a dinâmica da recuperação de crédito. O consumidor quer resolver suas pendências de forma rápida e com autonomia, e os canais digitais permitem justamente isso: negociações mais simples, menos burocráticas e disponíveis a qualquer momento”, afirma Diego Martins Mosquim, diretor de planejamento e qualidade da Paschoalotto.
A leitura é particularmente relevante em um contexto em que a inadimplência segue ligada, sobretudo, à fragilidade da renda das famílias. Segundo os indicadores analisados pela companhia, 42,03% dos casos de atraso estão associados a atraso de salário ou rendimentos, enquanto 20,55% decorrem de endividamento e 20,07% de desemprego.
O dado ajuda a qualificar o debate sobre inadimplência ao mostrar que, em grande medida, ela continua menos associada ao consumo irresponsável e mais à deterioração da capacidade de pagamento.
Nesse cenário, a digitalização deixa de ser apenas uma frente de eficiência operacional e passa a cumprir um papel mais estratégico. Para as empresas, ela reduz custo de contato, amplia capilaridade e permite maior personalização das ofertas de negociação. Para o consumidor, representa conveniência, discrição e rapidez, atributos que tendem a ganhar ainda mais importância em contextos de restrição orçamentária.
“Além de reduzir custos operacionais, a negociação digital aumenta as chances de recuperação porque oferece ao consumidor mais conveniência e flexibilidade para encontrar soluções viáveis para suas dívidas”, diz Mosquim.
Os dados da Paschoalotto também mostram que o perfil da inadimplência permanece concentrado em despesas bastante disseminadas no cotidiano financeiro. As dívidas ligadas a bancos e cartões de crédito respondem por 26,3% do total, seguidas por contas básicas, como água, luz e gás, com 22%, além de financeiras, com 19,8%, e serviços, com 11,8%.
Trata-se, portanto, de uma inadimplência ancorada em compromissos recorrentes e instrumentos amplamente utilizados, o que ajuda a explicar por que o tema segue no centro da agenda de crédito e consumo.
Embora não se trate, em média, de um ticket elevado na dívida dos brasileiros, o volume de consumidores nessa situação mantém a recuperação de crédito como um tema central para bancos, varejistas, utilities e empresas de serviços que dependem de recorrência e previsibilidade de recebimento.
A composição demográfica também chama atenção por mostrar relativa estabilidade. O levantamento aponta equilíbrio entre os gêneros, com 50,5% de mulheres e 49,5% de homens entre os inadimplentes.
A maior concentração está nas faixas de 26 a 40 anos e 41 a 60 anos, precisamente os grupos de maior atividade econômica e maior exposição simultânea a consumo, crédito e despesas familiares.
No pano de fundo, o que emerge é uma mudança de natureza mais ampla. A recuperação de crédito tende a deixar de ser vista apenas como etapa final de um ciclo de inadimplência para se tornar um campo de inteligência aplicada sobre comportamento financeiro. Quem conseguir combinar dados, segmentação, conveniência digital e capacidade de negociação terá mais chance de recuperar ativos sem ampliar fricção com o consumidor.
“O avanço da cobrança digital não parece ser apenas uma resposta conjuntural. Ele sinaliza uma reorganização mais profunda de um mercado que, por muitos anos, operou sob lógica predominantemente analógica, intensiva em contato humano e baixa personalização. Agora, a escala digital começa a alterar o próprio modelo de relacionamento”, finaliza Mosquim.















