Ator que foi preso por engano diz que vai processar o Estado
Vinicius Romão também quer processar delegado e policial responsáveis pela prisão
Rio de Janeiro|Do R7

O ator Vinicius Romão, que ficou preso por 16 dias após ser reconhecido por engano como um assaltante, disse que vai processar o Estado pela prisão. O delegado que registrou a ocorrência e o policial que fez a prisão também serão processados, segundo confirmou Vinicius ao R7.
Jair Romão, pai do jovem, disse que o delegado William Lourenço Bezerra, da delegacia do Engenho Novo (25ªDP), não teria agido corretamente no momento da prisão, já que ele não tentou confirmar as informações passadas por Vinicius no depoimento.
— O delegado não procurou ligar para a empresa que ele trabalhava, não procurou saber da vida pessoal dele. Ele se formou em psicologia em dezembro e fez estágio na delegacia do Méier (23ªDP). O delegado disse que ele só iria provar a inocência diante do juiz.
Ainda sem voltar ao trabalho, Vinicius diz que ainda está respondendo ao processo.
— Por enquanto eu vou ter que ir a audiências ainda. Parece que essa semana meu processo possa ser extinto. Eu vou entrar com processo contra o Estado, o delegado e o policial.
Vinicius diz que não voltou para a loja que trabalha porque ela fica em um shopping, e por ser um lugar público, ele ficaria muito exposto. Após ganhar liberdade, o ator disse que se sentiu lesado.
— Me senti lesado, desonrado. Desmoralizou meu pai e eu fui exposto como criminoso.
Apesar do sentimento ruim, Vinicius disse que conseguiu ganhar aprendizado dentro do presídio.
— Vi uma realidade que me enriqueceu muito. Foram dias difíceis, mas amadureci bastante. Uma experiência que não vou esquecer.
Sobre a mulher que o reconheceu como o assaltante, mas que depois prestou depoimento e disse que havia se enganado, Vinicius diz que não vai processá-la.
— Só não vou processar a Dalva porque eu acho que o peso que ela sente de ter acusado um inocente deve ser muito grande.
Entenda o caso
Romão foi detido na rua no último dia 10 ao voltar do Norte Shopping, onde trabalha como vendedor. De acordo com os amigos e com o pai do jovem, ele foi confundido com um assaltante por ter características físicas (negro e com cabelo black power) semelhantes ao do suspeito. A vítima, uma funcionária do Hospital Pasteur, teria reconhecido o ator como o criminoso, apesar de a bolsa dela não ter sido encontrada com Romão.
O pai dele, o tenente-coronel da reserva do Exército Jair Romão, de 64 anos, criticou a atuação da polícia. Ele tentava há dias visitar o filho na prisão.
— Meu filho foi completamente injustiçado, principalmente pelos policiais, que não apuraram nada. Só chegaram para a moça assaltada e disseram: 'Foi ele, não foi?' Ela acabou confirmando. Era apenas a palavra dela.
Campanha no Facebook
Jair contou que, depois da novela Lado a Lado, da Rede Globo, o filho passou a trabalhar como vendedor no Norte Shopping. Ele saiu da loja Toulon depois das 22h, na segunda-feira, dia 10, e caminhava para casa, a cerca de 20 minutos dali. Quando estava sobre o viaduto de Todos os Santos, foi abordado por PMs, que ordenaram que ele deitasse no chão.
Nas redes sociais, amigos trocaram suas fotos de perfil pela de Vinícius. "Em pleno País da Copa do Mundo, preconceito racial é inaceitável. Meu amigo está preso por possuir a cor da pele semelhante à de um assaltante. Vinícius Romão, estamos todos com você", escreveu Monique Pereira.
Vinicius disse que após ver a mobilização dos amigos, passou a acreditar mais no país.
— Deu para acreditar mais no país, acreditar que dá para se mobilizar por uma coisa e mudar o que está errado.
O advogado Rubens Nogueira de Abreu, que defende Vinícius, requisitou que as imagens de prédios vizinhos ao hospital sejam analisadas.
— Testemunhas disseram que o assaltante era um cracudo [viciado em crack], sem camisa, que carregava um saco. O que aconteceu foi uma barbaridade, um reconhecimento absolutamente inoportuno, com a vítima sob forte emoção. Com certeza, a prisão do Vinícius foi motivada por preconceito.















