Membrana retirada após o parto ajuda vítimas de queimaduras a se recuperar no RS
Em um ano, Santa Casa de Porto Alegre recebeu 183 doações e realizou 102 procedimentos com o tecido
Rio Grande Record|Do R7
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Uma membrana que, normalmente, seria descartada após o nascimento de um bebê está ajudando a aliviar a dor e acelerar a recuperação de vítimas de queimaduras. O tratamento realizado pela Santa Casa de Porto Alegre completou um ano e já beneficia pacientes do Rio Grande do Sul e de outras regiões do Brasil. A reportagem de Marceli Dutra foi exibida no Rio Grande Record.
Uma das pessoas atendidas é a consultora de vendas Tanise Portanova, de 39 anos. Em julho, ela sofreu queimaduras em aproximadamente 30% do corpo após uma explosão provocada por uma lareira ecológica dentro do apartamento. Era uma noite fria, e Tanise tentava reabastecer o equipamento com álcool quando as chamas se espalharam.
"Eu simplesmente me olhei e estava com muito fogo", recorda.
Tanise permaneceu internada por 29 dias. Durante o tratamento, passou por um procedimento de reconstrução da pele com a utilização de membrana amniótica, um tecido que envolve e protege o bebê durante a gestação.
A recuperação trouxe uma surpresa para a paciente, que temia voltar a sentir dores intensas. "A primeira vez que eu levantei, eu levantei sem dor. É uma coisa incrível. Realmente passa a dor", conta.
Do nascimento à recuperação de outras vidas
A membrana amniótica é uma camada fina que integra as estruturas que envolvem o bebê durante a gravidez. Após o parto, esse tecido pode ser coletado, processado e utilizado no tratamento de queimaduras e outras lesões, favorecendo a cicatrização.
Na Santa Casa de Porto Alegre, a captação ocorre durante partos cesáreos, mediante autorização da gestante e cumprimento de critérios médicos.
A agricultora Alana Cardoso Bresolin conheceu essa possibilidade pouco antes do nascimento da filha, Lize. Ao receber informações sobre a doação, decidiu contribuir. "É uma coisa que literalmente iria fora e pode ajudar outras pessoas", afirma.
Depois da coleta, o material passa por exames, processamento e controle de qualidade no Banco de Multitecidos da instituição, antes de ser liberado para utilização.
Tratamento reduz dor e favorece cicatrização
Segundo o cirurgião plástico Eduardo Chem, da Santa Casa, a membrana amniótica pode trazer benefícios importantes para pacientes com queimaduras, especialmente em determinadas lesões de segundo grau e, em alguns casos, de terceiro grau.
Entre os resultados observados estão a redução da dor, a aceleração da regeneração dos tecidos, a diminuição do tempo de internação e a redução dos gastos com curativos.
O médico explica que o tratamento também pode contribuir para diminuir infecções e a formação de cicatrizes hipertróficas, que ficam elevadas em relação à pele. Os resultados dependem da gravidade e das características de cada lesão.
Projeto completa um ano com 183 doadoras
A primeira captação de membrana amniótica com as autorizações legais necessárias ocorreu em 7 de outubro de 2025, na maternidade do Hospital Nora Teixeira, integrante da Santa Casa de Porto Alegre.
Desde então, o projeto contabilizou 183 doadoras e 102 utilizações do tecido em procedimentos cirúrgicos.A maior parte do material foi destinada a pacientes do Rio Grande do Sul, mas também houve envios para outras regiões do país, incluindo Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A distribuição ocorre pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Central Nacional de Transplantes, conforme a disponibilidade do tecido e a demanda dos serviços de atendimento a queimados.
Quem pode doar a membrana amniótica
Para participar do programa, a gestante deve ter entre 18 e 35 anos, estar entre a 34ª e a 40ª semana de gestação, ter realizado o pré-natal e atender aos critérios de saúde estabelecidos pela equipe médica.
A doação exige avaliação clínica, exames e ausência de doenças infectocontagiosas. A coleta é realizada após o nascimento do bebê, sem oferecer risco adicional à mãe ou à criança, segundo a Santa Casa.
O Banco de Multitecidos da instituição, que atua há 21 anos, é responsável por todas as etapas, desde a captação até o processamento, armazenamento e distribuição.
Uma iniciativa impulsionada pela tragédia da Boate Kiss
O cirurgião Eduardo Chem explica que a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, em janeiro de 2013, contribuiu para ampliar as discussões sobre a utilização da membrana amniótica no tratamento de queimados.
Na época, o Brasil recebeu tecidos de outros países para auxiliar no atendimento às vítimas. A experiência incentivou bancos de tecidos e entidades médicas brasileiras a trabalhar pela regulamentação da coleta e utilização do material no país.
Para Tanise, que conheceu os benefícios do tratamento durante a própria recuperação, a doação representa uma oportunidade de ajudar pessoas que enfrentam situações semelhantes.
"Se eu soubesse que eu pudesse doar a minha placenta, com certeza eu doaria, porque a diferença que faz para uma recuperação é fora do comum", afirma.















