Análise: Carnaval de SP se tornou fenômeno cultural e pesadelo para quem fica de fora dos blocos
Moradores estão sujeitos ao barulho, à sujeira e à incivilidade dos foliões de rua, que não conseguem separar o público do privado
São Paulo|Do R7

São Paulo, de túmulo do samba, tornou-se o esgoto do Carnaval. Acha a comparação exagerada, vinda de alguém ranzinza e que detesta a alegria popular? Então pergunte o que acham dos blocos carnavalescos aqueles que moram ou trabalham perto de um dos 170 pontos de aglomeração autorizados pela prefeitura da cidade.
De fato, para surpresa da nação, a metrópole paulistana se tornou destino turístico no reinado de Momo. Sem planejamento, de forma espontânea, os bloquinhos foram se espalhando pela cidade — que ficava quase deserta durante o feriado prolongado —, até que, de repente, se tornaram um fenômeno popular incontestável e com características bem particulares, muitas desagradáveis.
Não é preciso entrar no mérito da discutível qualidade musical e sonora dos blocos (alguns muito próximos de desafinadas bandinhas de coreto ou de estridentes bailes funk). Tem quem goste, ponto. Mas, considerando que São Paulo ainda não desenvolveu a tradição dos Carnavais de rua de Salvador e Olinda, por exemplo, o fato é que boa parte da população se vê refém da incapacidade dos órgãos públicos de darem conta da baderna que assola a cidade.
O caos se instaura, primeiro, no trânsito. A capacidade de locomoção dos vizinhos desses blocos é, sem exagero, zero. Moradores chegam a estocar comida para evitar deslocamentos a mercados, alugar grades de segurança para proteger suas propriedades, deslocar banheiros químicos instalados em muros residenciais e se preparar para uma espécie de estado de sítio, numa guerra barulhenta em que a liberdade de alguns invade, literalmente, o direito de ir e vir de outros.
Nada, porém, se compara ao rastro de destruição, fedor e sujeira que os blocos carnavalescos deixam por onde passam. Patrimônio imaterial brasileiro, é notória nossa falta de civilidade e educação mínimas para lidar com espaços públicos. São Paulo, com seu Carnaval, adquiriu lugar de destaque no quesito pandemônio. E, claro, tem sempre alguém lucrando com isso.














