São Paulo Apenas 75% das crianças até 15 anos têm anticorpos contra o sarampo em São José do Rio Preto

Apenas 75% das crianças até 15 anos têm anticorpos contra o sarampo em São José do Rio Preto

Percentual está abaixo do considerado normal para prevenir surtos da doença, que precisa estar em torno de 95%, segundo estudo

  • São Paulo | Da Agência Fapesp

Taxas de imunização infantil em todo o país vêm caindo desde 2015, segundo estudo

Taxas de imunização infantil em todo o país vêm caindo desde 2015, segundo estudo

Divulgação

Um estudo publicado neste mês na revista Vaccines mostra que, na região de São José do Rio Preto, no interior paulista, apenas 75,8% das crianças entre 0 e 15 anos têm anticorpos contra o sarampo. O percentual está abaixo do considerado ideal para prevenir surtos da doença — em torno de 94%. Os achados vão ao encontro de outros levantamentos recentes, que têm apontado queda nas taxas de imunização infantil do país desde 2015.

“Este é mais um grito de alerta de que as crianças brasileiras não estão atingindo a imunidade de rebanho, ficando suscetíveis à infecção. E estamos vendo isso na prática: o sarampo, que já havia sido erradicado, retornou ao país”, comenta Maurício Lacerda Nogueira, professor da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto) e um dos autores do trabalho, financiado pela Fapesp por meio de dois projetos (13/21719-3 e 19/06572-2).

Os pesquisadores analisaram a presença de anticorpos específicos para sarampo — do tipo imunoglobulina (IgG) — em amostras de sangue coletadas entre dezembro de 2018 e novembro de 2019 de 252 crianças. Os participantes do estudo deram entrada no Hospital de Base da Famerp com suspeita de dengue. Os cientistas aproveitaram o material recolhido durante o atendimento clínico para fazer as análises de soroprevalência.

As amostras foram estratificadas em cinco faixas etárias: de 0 a 1 ano (crianças ainda não imunizadas); de 1 a 2 anos (quando devem ser tomadas a primeira e a segunda doses da vacina tríplice viral); de 2 a 5 anos (quando a criança já deveria estar totalmente imunizada contra o sarampo); de 5 a 10 anos; e de 10 a 15 anos. Em todos os grupos, a taxa de imunização ficou abaixo de 80%.

“Todas as faixas etárias estão abaixo do ideal, mas o que mais preocupa é a de 2 a 5 anos, que está em 70%. Essas crianças deveriam ter sido vacinadas nos últimos dois ou três anos. É possível que a pandemia de Covid-19 tenha contribuído para esse resultado. Mas a queda na cobertura vacinal do país é um problema que começou antes, entre 2015 e 2016”, afirma Nogueira.

Em um estudo anterior, divulgado na revista Scientific Reports, a equipe liderada por Nogueira havia mostrado que quase um terço dos rio-pretenses com idade entre 10 e 40 anos não apresenta anticorpos contra o sarampo. A partir desses resultados, o grupo decidiu investigar como estava a situação entre os mais novos.

“Sabemos que a cobertura vacinal para várias doenças vem caindo nos últimos anos. Entre as causas estão falta de investimento em campanhas de conscientização e dificuldade de organização dos municípios. Além disso, há o fato de a população ter perdido o medo da doença, já que os casos não são tão frequentes”, afirma Nogueira.

O pesquisador cita ainda a influência do movimento antivacina, que até 2020 estava restrito às parcelas mais privilegiadas da população, mas ganhou impulso no país durante a pandemia.

“A Secretaria de Saúde de São José do Rio Preto é muito ativa, mas, sem um movimento nacional em prol da vacinação, fica muito difícil atingir as metas de imunização. E imagino que em locais menos privilegiados do país o índice de cobertura vacinal deve estar ainda mais baixo”, avalia.

Estatísticas

O sarampo é uma doença altamente contagiosa e para a qual não há tratamentos específicos. Estima-se que nove entre dez pessoas não protegidas (por vacina ou infecção prévia) se infectem depois da exposição ao vírus. A transmissão ocorre por gotículas respiratórias expelidas pelo doente ao tossir ou espirrar. Os sintomas aparecem de 10 a 14 dias após a exposição e incluem tosse, coriza, conjuntivite, dor de garganta, febre e irritação na pele, com manchas vermelhas.

As complicações — como otites, infecções respiratórias e doenças neurológicas — podem provocar sequelas como surdez, cegueira, retardo do crescimento e redução da capacidade mental.

Em 2019, 9 milhões de casos de sarampo foram registrados no mundo, e resultaram em 207,5 mil mortes, segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, foram confirmados 8.448 casos em 2020 e 676 casos em 2021.

A única forma de prevenir a doença é com a vacina tríplice viral, que imuniza também contra a caxumba e a rubéola e faz parte do PNI (Programa Nacional de Imunização). Mas, de acordo com o Ministério da Saúde, apenas 47% das crianças que fazem parte do público-alvo receberam o imunizante em 2022, e a meta de cobertura é de 95%. Em 2021, somente 50% do público-alvo recebeu a segunda dose da vacina, que deve ser administrada em torno de 15 meses de idade.

Embora os índices de imunização não sejam suficientes para barrar a circulação do vírus no país, ao menos conseguem diminuir a taxa de transmissão, como mostrou o estudo da Famerp. Estima-se que, em uma população totalmente desprotegida, um indivíduo infectado possa contaminar entre 12 e 18 pessoas. Já na população de 0 a 15 anos estudada em São José do Rio Preto, o número de casos secundários variou entre três e quatro — o que ainda é considerado preocupante.

“A mensagem do artigo é que o problema não foi resolvido com as campanhas de vacinação feitas até o momento. É preciso um esforço maior. A pesquisa, por meio da universidade e da Fapesp, está dando uma informação relevante ao gestor de saúde, e cabe a ele tomar uma atitude”, afirma Nogueira.

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