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Após 5 meses, Nunes ainda não se acostumou com cadeira de Covas

Prefeito ainda despacha no gabinete do vice, no 6º andar do Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura; "choro até hoje", diz emedebista

São Paulo|Do R7

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Ricardo Nunes e Bruno Covas durante a campanha nas eleições municipais de 2020
Ricardo Nunes e Bruno Covas durante a campanha nas eleições municipais de 2020

Quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) se licenciou do cargo por 30 dias para se tratar do câncer no Hospital Sírio-Libanês, em 5 de maio, seus auxiliares eram unânimes em dizer que ele voltaria ao gabinete e terminaria o mandato.

Amigos, aliados e auxiliares admitiam reservadamente que o neto de Mário Covas teria a vida abreviada por causa da doença, mas ninguém esperava que fosse em tão pouco tempo, no dia 16 daquele mês, aos 41 anos.

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Cinco meses após a morte do tucano, o prefeito Ricardo Nunes (MDB), de 53 anos, ainda despacha no gabinete do vice, no 6.º andar do Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura. Somente agora, e aos poucos, Nunes iniciou a mudança para o escritório que estava sendo ocupado por Covas, no 5.º andar do prédio.

"Eu choro até hoje. Quando entrei na sala (dele), me veio a imagem legal das gargalhadas, mas também as vezes que ele não estava tão alegre. Estou usando mais o espaço da sala de reuniões para despachar", disse o emedebista ao Estadão.

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A conversa com a reportagem começou nesta sala de reuniões - anexa ao gabinete -, que era usada por João Doria (PSDB), em sua breve passagem pelo cargo, para exibir fotos de sua carreira, comendas, homenagens e outras obras, como um quadro do pintor Romero Brito alusivo à cidade.

Quando assumiu a Prefeitura, Covas transformou o espaço e decorou o local com fotografias da cidade, além de algumas lembranças da carreira, como uma homenagem do Rotary Clube, que segue até hoje na estante. No gabinete do prefeito, a cama que Covas pediu para instalar ali durante a pandemia, quando se trancou na Prefeitura, não existe mais. Apenas as fotos de família foram retiradas e entregues a Tomaz Covas, seu filho.

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Uma foto de Covas sorrindo ainda barbudo foi deixada na parede atrás da mesa, como uma espécie de homenagem. Também foi deixada na estante atrás da mesa a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que era um amuleto de Covas.

A ocupação do espaço físico da Prefeitura pelo chefe do Executivo é uma metáfora involuntária de um político em fase de transição. Apesar de ter sido alçado ao posto de destaque na política nacional e se tornado nome de peso do MDB paulista quando passou a comandar a maior cidade do País, Nunes ainda conserva rotina modesta de vereador.

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Segundo amigos, a ficha "ainda não caiu totalmente". O emedebista vive uma contradição entre o político paroquial e conservador da zona sul ligado à Igreja Católica e o gestor da metrópole de 12,3 milhões de habitantes e seus múltiplos e complexos problemas.

Assessores relatam que ficam aflitos nos compromissos porque Nunes faz questão de falar com todos os presentes em todas as solenidades antes de ir para o próximo compromisso.

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Nesse breve período no poder, o prefeito se orgulha da boa relação com o Parlamento municipal, que o ajudou a aprovar projetos do Executivo, entre eles a polêmica reforma da Previdência, que prevê mudanças na contribuição do funcionalismo municipal.

Ao mesmo tempo, Nunes convive com uma nuvem que insiste em não se dissipar: as denúncias de que uma empresa da sua família recebeu dinheiro de creches conveniadas com a Prefeitura para prestação de serviços sem licitação, e suas empresas fizeram negócios com entidades investigadas.

"Não teve conflito de interesse. Existem momentos eleitorais e adversários inescrupulosos ocultos. Enfrentei muitos interesses como vereador. Ninguém que presta um serviço fica levantando se a empresa é investigada. Tenho conta em banco que é investigado. Não vou ter conta nesse banco? Essa ilação é tão louca...", disse o prefeito de São Paulo.

Picadinho

Nunes recebeu a reportagem há duas semanas. Estava disposto a mostrar um pouco do seu dia a dia. Almoçava picadinho com ovo frito e batatas quando a entrevista foi interrompida por um barulho vindo de uma caixa de som na calçada em frente à Prefeitura. Sindicalistas haviam se reunido no Viaduto do Chá para protestar contra a reforma da Previdência municipal. O prefeito sorriu e contabilizou o ato como parte de sua rotina.

"Em comparação ao Covas, o fato dele (Nunes) ter sido vereador ajuda na articulação de projetos do Executivo, mas vejo os vereadores da base mais tímidos na defesa do prefeito devido a esses casos mal explicados das creches", disse o vereador Fernando Holiday (Novo). Desde que assumiu, o emedebista aprovou 119 leis de interesse do Executivo na Câmara.

O PT critica Nunes, alegando que ele tentou barrar menções a termos de gênero do Plano Municipal de Educação quando era vereador.

"Ricardo Nunes dá sinais de proximidade com o Bolsonaro. Ele não faz críticas ao governo federal. Não se contrapõe", afirmou o presidente do PT paulistano, Laércio Ribeiro.

"A Rede Municipal de Educação atende crianças de 0 a 14 anos. O Plano Municipal de Educação tinha que focar na qualidade do ensino, no aumento de investimentos, na valorização dos professores e não em questões ideológicas, como queria o PSOL. Esse tema foi tão desvirtuado, que para mostrar a incoerência de algumas falas o próprio PT votou a favor do meu relatório", rebateu Nunes.

O emedebista mantém na Prefeitura o grupo de tucanos que formava o núcleo duro de Bruno Covas e ainda hoje é uma corrente política forte no PSDB.

Desde que assumiu, Nunes só promoveu três mudanças na gestão, todas com o apoio dos tucanos. Carlos Bezerra, do PSDB, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Social, Aline Torres, do MDB, a Secretaria de Cultura no lugar de Alê Youssef e o vereador Ricardo Teixeira (DEM) foi nomeado secretário de Mobilidade Urbana e Transporte.

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