Após prejuízo de R$ 250 mil e síndrome do pânico, empresária vítima de enchente turbina negócios em SP
Endereço da tragédia, a rua Gaivota, em Moema, já levou comerciantes à falência após chuvas
São Paulo|Fernando Mellis, do R7

Era fim de tarde do dia 8 de março de 2013. O salão de beleza Studio Felix, em Moema, zona sul de São Paulo, estava movimentado quando começou uma forte chuva. Não demorou muito até a água atingir 2 m de altura, deixando os carros estacionados submersos. Clientes e funcionários tiveram que subir às pressas para o segundo andar. Quando a enxurrada passou, Vania Felix Novais, dona do negócio, teve muito mais do que perdas financeiras. Passados dois anos, ela ainda luta para esquecer o trauma daquele dia.
Com prejuízo de aproximadamente R$ 250 mil, a empresária se viu obrigada a demitir 12 funcionários. Ela teve que ficar sem carro por três meses. O tempo passava e as contas não paravam de chegar e, para piorar, a saúde dela não ia bem. Após reabrir o salão no mesmo endereço, a rua Gaivota, ela revivia aquela cena a cada temporal que se formava.
— Eu ainda tentei ficar lá naquele lugar por mais um ano. Mas cada chuva era terrível e minha saúde só piorava, a visão ficava embaçada, mãos e pés dormentes, dor de cabeça. O médico chegou a suspeitar de um tumor. Acabei diagnosticada com síndrome do pânico. Tenho que tomar antidepressivo e, em dia de chuva, calmante.
Ela decidiu, na metade de 2014, que era hora de mudar. Aconselhada pelo médico, a empresária percebeu que não poderia ficar em um endereço onde sempre estaria sujeita a passar pela mesma situação. Afinal, aquele era o terceiro ano seguido em que a água invadia o estabelecimento, apesar de a última ter sido a pior enxurrada de todas.
— Fiz mais dívidas, montei um salão, em Moema mesmo, que é três vezes maior do que aquele. Antes, eu tinha 24 funcionários, hoje estou com 38. Consegui chamar de volta aqueles que eu tinha demitido. Tenho uma estrutura bem maior do que aquela, uma casa maravilhosa e totalmente fora de enchentes.
Vania abriu um processo contra a Prefeitura de São Paulo para ser indenizada pelo prejuízo. Quando ela saiu do outro salão, teve isenção do IPTU, inclusive de anos anteriores, devido aos alagamentos.
A rua Gaivota mudou depois daquela tarde. A maioria dos comerciantes e moradores saiu de lá, mas nem todos com histórias como a de Vania. Nair Nunes era dona de uma loja de enxovais, mas não conseguiu se recuperar do prejuízo.
— Foi horrível. Eu até tinha seguro de tudo, mas não para enchente, porque como é lugar que sempre enche, a seguradora se recusava a incluir isso na cobertura. Acho que perdi em mercadorias e tudo mais uns R$ 100 mil. O imóvel era alugado, aí acabei entregando. Hoje, faço alguns bazares em casa, mas não consegui mais montar a loja. Todos os comerciantes saíram daquela rua. Sem contar que o nosso psicológico fica abalado depois de passar por uma coisa dessas.
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Alívio
No fim da tarde de quinta-feira da última semana, dia 19, Vania percebeu que saiu na hora certa da rua Gaivota. Dois anos depois do temporal que mudou a vida dela e de outras dezenas de pessoas, outra enxurrada causou estragos na região.
A força da água em Moema foi tanta que quebrou o muro de uma concessionária de carros na avenida Ibirapuera. Os carros que estavam no estacionamento ficaram submersos.
A explicação para as frequentes enxurradas que tomam algumas ruas de Moema está embaixo do bairro. Escondido há muitas décadas, está o córrego Uberabinha. Esse e outros cursos d’água foram canalizados para dar espaço aos prédios. Porém, basta uma chuva forte para que eles transbordem e causem transtornos.
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