Avenida Paulista tem 15 ocorrências de furto e roubo de celular por dia

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo R7 mostram que assaltos ocorrem também em estações do Metrô e em vias no entorno 

Avenida Paulista registra 15 celulares roubados e furtados por dia

Avenida Paulista registra 15 celulares roubados e furtados por dia

Reprodução Fotos Públicas

“Eu nasci em São Paulo, então sou acostumada a me cuidar em dobro. Mas foi uma bobeira e eles levaram meu celular”, disse a estudante de publicidade Paola Sirotsky de Medeiros, de 21 anos. Ela foi furtada no mês de fevereiro deste ano ao sair da faculdade na avenida Paulista, no centro de São Paulo.

O telefone de Paola é um dos 2.473 aparelhos que foram furtados e roubados somente na avenida Paulista, centro da maior cidade da América Latina, nos seis primeiros meses deste ano — o que resulta, em média, 15 celulares roubados ou furtados por dia.

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Em fevereiro, Paola havia saído da faculdade por volta de 21h e, na espera de seu namorado, um suspeito em uma bicicleta passou e tomou o celular de sua mão, em frente a um ponto de ônibus “lotado de gente.” O prejuízo foi de um pouco mais de R$ 3 mil e Sirotsky havia comprado o aparelho telefônico há poucos meses.

“O governo devia colocar mais policiais na rua para melhorar um pouco a situação, mas é preciso reformular o sistema, principalmente a abordagem”, diz a estudante. “Se nem os policiais conseguem nos ajudar, quem vai nos garantir segurança?", lamenta.

Números 

O furto da estudante de publicidade foi registrado logo em seguida e entra nos dados obtidos pela reportagem do R7 via Lei de Acesso à Informação, os quais apontam que as duas delegacias da área, o 4°DP (Consolação) e o 78° DP (Jardins), registraram 12.410 incidentes relacionados a furto e roubo em janeiro a junho. Destes, 6.682 são do 78° e 5.728, do 4°.

O ranking de qualificação do crime em ambas delegacias é liderado por furto, com 8.673 incidentes, seguido de roubo, com 2.481. O documento mostra que telefone celular é o item mais declarado como roubado e/ou furtado, com 7.653 registros. Em segundo lugar, vem a carteira de identidade com 1.806 ocorrências, seguida de Carteira Nacional de Habilitação (CNH), com 1180.

Se catalogado por endereço, a avenida Paulista é a campeã com 3.626 boletins de ocorrências — destas, 68% está relacionado ao furto e roubo de celulares. A segunda via mais “perigosa” é a da rua da Consolação, com 2.084 ocorrências. Em terceiro lugar, a rua Augusta, com 1.831 incidentes.

Para Alexis Couto de Brito, professor de direito penal da Universidade Presbiteriana Mackenzie, um dos fatores que favorece o número de roubo e furto é justamente a intensa aglomeração de pessoas na região da avenida Paulista. “Pessoas andam para lá e para cá e, na maioria das vezes, não percebe quando se é furtado. O empurra-empurra faz com que você perca essa percepção”, argumenta.

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“Você se sente impotente. Você não consegue e não pode fazer nada”. Essa foi a reação do gerente de qualidade Thiago Romantini Collis, de 29 anos, quando foi assaltado em janeiro deste ano, na rua da Consolação. O gerente de qualidade estava dentro do carro com duas amigas, no semáforo da via, em direção à avenida Doutor Arnaldo, por volta de 21h. Ele estava sentado no banco de trás, com o vidro aberto, quando, de repente, um suspeito o aborda e ordena que lhe passe o celular, dinheiro e “tudo mais que tiver”. “Ele estava com a mão debaixo da blusa segurando uma arma”, relata. Apesar de não ter certeza se, de fato, era uma arma, Collis informou que “não tinha nada”.

Em seguida, o assaltante gritou “passa tudo, se não vou matar todo mundo”. Em resposta, Collis imediatamente entregou o celular. “Eu ia fazer o que?”, questiona. Não fosse o suficiente, o suspeito ordenou que as duas jovens, sentadas no banco da frente, também passassem os pertences. Na ocasião, o trio perdeu cerca de R$ 9 mil.

“Eu não consigo me sentir seguro, mesmo com policiais nas ruas. A polícia atual não dá a sensação de segurança”, disse o gerente de qualidade. Segundo ele, o trio encontrou uma viatura policial após serem roubados e, durante a conversa, o PM teria tido que estava sem rádio e, portanto, “para procurar outro carro que eles não podiam ajudar”.

Neste ano, 4° e 78° DP registraram 12.410 B.O. de furto e roubo em seis meses

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Reprodução Fotos Públicas

Orientação

Administradora de dois edifícios na avenida Paulista os quais comportam cerca de 1.964 pessoas, Raphaella Galletti diz que os roubos são “comuns” na região. “Eu mesma já presenciei vários assaltos aqui na avenida”, conta. “Isso pela janela da minha casa ou próxima ao assalto mesmo”.

Para driblar o alto número de furto e roubo, a administradora orienta os condôminos com ações já conhecidas do público: “não exibir o celular, prestar atenção no entorno e caso precise usar o celular que seja dentro dos lugares, e não na via pública”.

Galletti acrescenta que é preciso reforço da Polícia Militar na área. “Colocaram uma base dias atrás na praça Oswaldo Cruz, mas é preciso ronda periódica”, disse. “Tem que ter policial andando pela rua e não parado”, avalia. “Por que a sensação de insegurança continua. Tivemos algumas melhoras, mas não é o suficiente”, finaliza.

O professor do Mackenzie aponta que a análise e possível mudança do comportamento seja uma boa resposta para diminuir os índices de criminalidade. “Bolsa na frente e prestar atenção no entorno quando usar o aparelho celular são soluções rápidas. No entanto, o governo precisa trabalhar com política pública que diminua a desigualdade social. Dessa forma, o número de furto e roubo irá diminuir”, argumentou. “Muitas vezes a pessoa não tem oportunidade e acaba optando pelo crime, mas não por que ela quer aquilo, mas por ser o único modo de sobreviver”.

Rua Augusta entra na lista de vias onde se mais teve furto e roubo

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Reprodução Fotos Públicas - Marcos Santos / USP Imagens

Boletim de Ocorrência

Boletim de ocorrência é o documento para se registrar algum crime e, posteriormente, utilizado pela Polícia Civil durante a investigação. No entanto, não são todas as pessoas que registram o incidente.

“É importante fazer o B.O. porque direciona a atividade investigava, feita pela Polícia Civil e Judiciária. Por exemplo, se tem um furto em determinado lugar, pode calhar de ser o modo operandos de outro furto e, assim ligados, pode ajudar no trabalho da polícia”, argumenta o professor do Mackenzie.

A SSP (Secretaria de Segurança de São Paulo) também destacou a importância das vítimas resgistrarem o B.O.

De acordo com a secretaria, o 4º DP esclareceu quatro casos neste mês, onde as vítimas reconheceram os autores, após terem seus aparelhos celulares subtraídos. Recentemente o 78º DP durante trabalho investigativo, prendeu suspeitos procurados da Justiça, que realizam roubos no entorno. Juntos, os dois distritos prenderam, nos seis meses de 2018, 496 pessoas em flagrante. Também foram recuperados 330 celulares de origem ilícita na região.