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Comandante da Voepass comparou avião a um Fusca minutos antes da queda, diz PF

Sequência faz parte da investigação que reconstrói, segundo a segundo, os últimos momentos do ATR-72 que caiu em 2024

São Paulo|Márcio Neves, da RECORD*

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Investigação foi concluída nesta quarta-feira (5) pela Polícia Federal Secretaria de Segurança de São Paulo/Divulgação

Cinco minutos antes de o voo 2283 da Voepass perder o controle e cair em Vinhedo (SP), o comandante fez uma brincadeira ao ouvir mais um alerta de formação de gelo na cabine. “Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie”, disse ele. Naquele momento, porém, o sistema responsável por remover o gelo das asas já havia apresentado falha.

A sequência faz parte da investigação da Polícia Federal que reconstrói, segundo a segundo, os últimos momentos do ATR-72 que caiu em 9 de agosto de 2024, matando os 62 ocupantes, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes.


A investigação que foi concluída nesta quarta-feira (5) já tem uma coletiva marcada para anunciar mais detalhes da conclusão. O inquérito deve incluir o indiciamento de pessoas ligadas à liberação da aeronave, sua manutenção e à “cultura” da empresa de ignorar procedimentos para manter a operação.

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Segundo a perícia, antes dessa fala feita pelo comandante, o avião já havia registrado um alerta de falha no sistema pneumático de degelo. Esse sistema infla as câmaras instaladas nos bordos de ataque das asas e do estabilizador para quebrar o gelo acumulado durante o voo.


Ao identificar o problema, o próprio comandante afirmou: “É o Airframe que deu fault… pelo menos a gente já sabe que tá… [fudido].”

O manual da aeronave determina que, diante desse tipo de falha, a tripulação abandone imediatamente a região de formação de gelo e mantenha uma velocidade mínima acrescida. Segundo a Polícia Federal, esses procedimentos não foram executados.


Pouco depois do alerta, o copiloto chegou a sugerir a alternativa prevista para escapar das condições de gelo.

“Pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”


O pedido para descer ao nível de voo FL110, porém, nunca foi feito ao controle de tráfego aéreo.

Falha já havia aparecido horas antes

A investigação conclui que a tripulação já conhecia o comportamento intermitente do sistema de degelo antes mesmo da decolagem de Cascavel.

Na etapa anterior, entre Guarulhos e Cascavel, os pilotos enfrentaram condições de formação de gelo. Durante a aproximação, o comandante chegou a comentar que ouviu o gelo se desprendendo da estrutura da aeronave.

Após o pouso, disse: “Chegamos vivos.”

Quatro minutos depois, repetiu: “Ufa, chegamos vivos.”

Para os peritos, esses diálogos demonstram que a tripulação tinha consciência das condições severas enfrentadas durante o voo anterior.

Livro técnico estava sem registros

O laudo também aponta uma falha considerada decisiva pela investigação. Toda aeronave comercial possui um livro de bordo, em que os pilotos registram problemas técnicos encontrados durante os voos. Esses registros servem de base para a manutenção e podem impedir que uma aeronave volte a operar até que o defeito seja corrigido.

A Polícia Federal analisou 136 voos realizados pelo mesmo ATR-72 desde junho de 2024 e encontrou diversos episódios em que as tripulações tentaram restabelecer o funcionamento do sistema de degelo por meio de sucessivos desligamentos e religamentos — procedimento que o fabricante limita a um único reset.

Apesar disso, a perícia não encontrou registros dessas falhas no livro técnico durante o período analisado.

Segundo o laudo, se os alertas registrados nos voos realizados na manhã do acidente tivessem sido formalmente anotados, a aeronave não poderia ter sido novamente despachada para operar em condições de formação de gelo.

O que a PF concluiu

A Polícia Federal afirma que os dois pilotos estavam habilitados para operar a aeronave e haviam sido aprovados nos treinamentos periódicos que incluíam justamente procedimentos para voo em gelo severo e recuperação de estol.

O laudo, entretanto, afirma que não foi possível determinar por que esses procedimentos não foram executados durante a emergência.

Os peritos também não concluem que o funcionamento normal do sistema de degelo, por si só, impediria o acidente. O que o documento afirma é que uma aeronave com esse sistema indisponível não deveria operar em condições conhecidas de formação de gelo — e que o registro formal da falha no livro técnico poderia ter impedido que o voo decolasse.

Esta investigação feita pela PF tem o objetivo de buscar as responsabilidades cíveis e criminais em relação ao acidente, diferente da investigação feita pelo CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) da Força Aérea Brasileira, que tem como foco uma apuração detalhada e rigorosa dos fatores que contribuíram para o acidente, para fins de prevenir que as falhas humanas, operacionais e técnicas se repitam no futuro.

* Repórter do Núcleo de Investigação Jornalística

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