Em cada 10 atos infracionais em SP, 7 envolvem adolescentes de 16 a 18 anos
Crimes hediondos cometidos por adolescentes representam menos de 3% do total
São Paulo|Do R7

Sete a cada dez atos infracionais cometidos por adolescentes na cidade de São Paulo tiveram como autor um menor entre 16 e 18 anos. A proporção foi apontada em levantamento do MPE (Ministério Público Estadual) de São Paulo com 4.400 casos de execução de medidas socioeducativas, de um total de 22 mil processos na capital.
Os crimes hediondos cometidos por adolescentes representam menos de 3% do total de atos infracionais — quando não se leva em consideração o tráfico de drogas. Mas, novamente, foram os jovens na faixa de 16 a 18 anos que cometeram mais desses tipos de crimes, como homicídio qualificado, estupro e latrocínio: 64,8%.
Hoje, há consenso no Congresso sobre a necessidade de ampliar as penalidades aos adolescentes infratores, principalmente para os autores de crimes hediondos. A mudança deve ocorrer por meio de PEC (Proposta de Emenda à Constituição) — para que os menores passem a responder criminalmente a partir dos 16 anos — ou por meio de alteração no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a fim de aumentar o prazo de internação de quem comete crime hediondo.
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O levantamento dos promotores foi feito a partir de processos movimentados entre agosto de 2014 e o fim de maio deste ano. No intervalo de dez meses, o ato infracional mais frequente foi o roubo circunstanciado, quando ocorre assalto mediante ameaça com arma de fogo ou participação de duas ou mais pessoas. Esse ato infracional, que não é classificado como hediondo, representou 52,8% dos casos totais. Tráfico de drogas (22,8%) e furto (5,9%) aparecem na sequência da lista dos delitos mais comuns.
A compilação dos dados foi feita por iniciativa dos promotores, depois de eles sentirem a ausência de informações concretas para debater a atuação dos adolescentes. Desde agosto, cinco analistas preenchem manualmente planilhas em que detalham informações como tipos de atos cometidos, idade e eventual reincidência do menor, modelo de sentença condenatória e período de internação, entre outras especificações.
Perfil
O relatório do MPE destaca ainda que pelo menos 3 em cada 10 menores voltam a ser flagrados em atos infracionais após uma sentença de condenação e metade dos que passaram algum tempo como internos em unidade da Fundação Casa volta a ser pego pela polícia por algum outro delito.
Um dos projetos em análise no Congresso, o do senador José Serra (PSDB-SP), agora apoiado pelo governo, prevê ampliar o tempo de internação de 3 para 10 anos de autores de crime hediondos e para os reincidentes.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Adolescentes infratores falam sobre entrada no crime e o medo que sentem de ir para cadeia
Quando a juventude é interrompida pela criminalidade, as consequências podem ser fatais. Mas E., de 16 anos, V., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido), W., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido) e E., de 17 anos, estão tendo uma segunda chan...
Quando a juventude é interrompida pela criminalidade, as consequências podem ser fatais. Mas E., de 16 anos, V., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido), W., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido) e E., de 17 anos, estão tendo uma segunda chance. Ao pagar pelos seus erros, eles contam como foi fácil entrar para o mundo do roubo e do tráfico. A justificativa é sempre a mesma, aquela mais boba possível, a de que “queria ter”. O que? Roupas e pratas. O desejo não vai muito além disso. Esses meninos não sonham com “intercâmbios”, “fazer uma faculdade” ou “comprar um carro”. As referências de desejos deles são simples e diferentes de outros tantos jovens da sua idade. Acostumados com a rua, eles perderam a liberdade e foram parar dentro da unidade da Fundação Casa de Atibaia, onde no máximo podem ficar três anos. Sentindo na pele a sensação do “cárcere”, eles temem a prisão e falam que esta foi a “primeira e última vez” que passam por essa situação


![E., de 16 anos, diz que
entrou para a “vida do corre” — como ele costuma se referir à rotina do crime —
há quatro anos.
— Comecei a usar drogas com 11 anos, baforava lança e usava
maconha. Daí eu comecei a traficar com 12.
E. diz que trabalhava das 19h às 2h para o tráfico. Ganhava de R$
1.000 a R$ 1.500 por noite, em Joanópolis, no interior de São Paulo. Mas acabou
sendo preso por roubo qualificado.
Foi apreendido quando assaltava uma
residência na mesma região.
A apreensão aconteceu em flagrante. A própria dona da casa denunciou
que três pessoas estavam tentando roubá-la.
— Combinei com os amigos e entrei na casa. Só eu segurei. A mulher
[dona da casa] falou que tinha três e eu nunca abri a boca.
Quando questionado se essa tinha sido a primeira residência que
ele assaltou, a resposta assusta e até impressiona.
E. balança a cabeça em um
sinal de negação e responde que foram nove residências. Apesar de não ter
carteira de motorista, ele tinha uma moto e estava prestes a comprar um carro
quando foi apreendido.
O menino de pele clara e com cara de criança confirma que até já
apontou uma arma contra uma pessoa e garante que nunca machucou ninguém.
— Dava medo só](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/OYGR4BBX2NK7BBOUM6TAIKWG4Y.jpg?auth=1196520796e9d918c1b03ae2863621f6895e311ca2684fb1d1913b2e525551a5&width=780&height=520)


![Sobre o que o motivou
a entrar para o crime, ele diz que o estímulo veio do desejo de “independência”
e acabou escolhendo meios errados para conseguir.
— Eu não queria depender da minha mãe.
Queria chegar e comprar. Além da experiência de vida que parece
muito maior do que a idade que ele tem, E. é um adolescente que possui agora
responsabilidades de um adulto. Isso porque o seu filho acabou de nascer. A
namorada, de 26 anos, não é do mundo do crime.
O garoto soube da notícia quando já estava
dentro da Fundação Casa e diz que ficou feliz.
— Nós não tínhamos planejado isso. Fico
feliz e me ajudou bastante nesta caminhada.
Além da namorada, o garoto recebe a
visita da mãe. O bebê, por enquanto, ele só consegue ver por meio de foto.
— Ela [mãe de E.] falou que é
‘igualzinho a eu’.
Quando questionado sobre o que ele faria se o
filho repetisse os erros do pai, E. disse que não aguenta nem pensar.
— Vira a boca para lá!
“Eu me arrependo de
tudo”
Com o nascimento do filho, o menino imagina
o seu futuro bem diferente do seu atual presente e já faz planos.
— Eu me arrependo de tudo. Penso em
sair daqui, terminar os estudos e fazer a faculdade, ser advogado. Tem que ler
bastante](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/DZ3RTYEX7FMNLNRQQG66LCNCXI.jpg?auth=b8026c1f7dbc520e8a123f8c92743789411141588e078a8a3a31c5a39827fb34&width=780&height=520)



![W. é o típico garoto
que foi seduzido pelas conquistas materiais que o tráfico possibilitou. O
menino, que ganhava roupa usada da avó e da tia e comia arroz e feijão
diariamente, diz que queria dinheiro para comprar camisas novas e poder comer
numa lanchonete fast-food. Sim, foi por esses privilégios que ele entrou para o
mundo do crime.
Os amigos diziam que o negócio “tava
estralando”. De acordo com W, isso significa que está movimentando muito
dinheiro.
— Os moleques [diziam] ‘vamos vê se
você consegue ganhar dinheiro’.
O garoto diz que vendia
cocaína, maconha e pedras de crack. De R$ 500 por dia que lucrava, ficava com R$ 250.
— Quando estava devendo, ia trabalhar com meu pai de pedreiro para pagar](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/ZR7OAI7VBNOVZJCM5UKOZ4I7AQ.jpg?auth=0ec049c0b2eef54b84bc3c6e6bb8f4cbfba45c922244780c1b00e8ab386a5b2c&width=780&height=520)

![O adolescente foi
apreendido três meses antes de completar 18 anos. W. poderia estar dividindo uma
cela agora. Quando pensa na possibilidade de ir a um presídio, tem medo da violência.
— Eu não iria aguentar. Lá eles agridem.
Foi Deus mesmo que me fez cair aqui para não cair em um lugar pior.
Recaída
O garoto diz que saiu da vida do crime uma vez a pedido da mãe.
— Minha mãe descobriu. Eu chegava em casa com o olho vermelho.
Passou três meses fora e tinha acabado de voltar quando foi apreendido.
Agora diz que irá se distanciar de vez.
— Se os moleques voltarem a me influenciar, não vou querer mais. Construir
minha vida com a pessoa que eu amo. [Quero] ter a minha própria casa, carro
*Foto mostra internos da Fundação Casa de Atibaia](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/ODDVUG2COVOZHA6YZANXDWNBII.jpg?auth=fcc3d89486e509278914c9d1a01253b0401fe9f3da952e312d3f8331113d116f&width=780&height=520)
















