Logo R7.com
RecordPlus

Feminicídio na pandemia: 'a casa é o lugar mais perigoso para mulheres'

Pesquisa aponta que feminicídio cresceu 22,2% entre meses de março e abril em comparação ao ano passado. Boletins de ocorrência diminuíram

São Paulo|Fabíola Perez, do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Violência de gênero aumenta no isolamento social
Violência de gênero aumenta no isolamento social

A pandemia intensifica a violência de gênero e demonstra que a casa é o lugar mais perigoso para mulheres e meninas. Essa é a análise da coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Martins. A entidade divulgou nesta segunda-feira (1º) uma pesquisa que apontou um crescimento de 22,2% em casos de feminicídio nos meses de março e abrildesse ano em comparação ao mesmo período de 2019. 

"A violência de gênero vem aumentando desde antes da pandemia. Tanto essa edição da pesquisa, quanto a anterior demonstram que o número de registros que dependem da presença da mulher nas delegacias caíram", afirma a especialista. 


Segundo a pesquisadora, a casa é um dos lugares mais perigosos para mulheres e meninas. "Isso torna a situação de violência algo muito complexo, a mulher tem muitas dúvidas sobre denunciar ou não." Em relação ao caso de meninas, Juliana lembra que outro levantamento do Fórum apontou que mais de 50% das vítimas de violência sexual têm 13 anos e que a maioria dos agressores é conhecida dos familiares. 

Leia mais: Violência contra vulneráveis cresce durante a pandemia da covid-19


Ao olhar para o momento da pandemia, Juliana afirma que é importante lembrar que a mulher está confinada com o agressor, o que impõe uma série dificuldades. "Além dos riscos do confinamento, há uma precariedade financeira, o fato de que muitas têm filhos com o agressor. Assim, é uma mistura de sentimentos que as fazem denunciar ou querer voltar atrás."

A pesquisadora ressalta que os boletins de ocorrência indicam casos em investigação, ou seja, quando a autoridade policial já registrou oficialmente como feminicídio. Segundo ela, após o encerramento dos inquéritos, o número de mulheres mortas por serem mulheres pode ser ainda maior. "Há casos de homicídios que podem terminar como feminicídio. Trata-se de um crime cultural."


Leia mais: Sem lugar seguro: quarentena expõe crise de violência doméstica no país

Além da vulnerabilidade financeira e de uma possível perda de renda por parte das mulheres neste contexto pandêmico, não raro, elas perdem parte da rede de apoio. "Elas não estão saindo ou tendo contato com amigos e familiares, pessoas que poderiam enxergar os problemas e conflitos que estão enfrentando."


Para frear ou diminuir esses índices, uma medida importante seria o fortalecimento dessa rede de proteção. "Dependendo da situação, elas não confiam nessas autoridades policiais", afirma a coordenadora.

Assim, uma segunda medida seria a melhora do trabalho das polícias. Pesquisas apontam que a violência doméstica, brigas entre casal, estão entre os motivos que mais demandam a presença de policiais. "Mas, em alguns casos, eles se sentem frustrados quando a mulher desiste da denúncia", diz a especialista. "Os próprios policiais têm que compreender a importância de se fazer o registro e deste trabalho."

Leia mais: Relatos de brigas de casal crescem 431% na pandemia, diz pesquisa

Em relação à ferramenta eletrônica, implementada por alguns estados para fazer o boltim de ocorrência, a pesquisadora afirmou que ainda não é possível saber o impacto desse canal. "Muitas mulheres não tem acesso ou facilidade com a internet. Não é uma possibilidade em muitos casos."

"A pandemia joga luz num problema muito grande e que não registrou queda. Quem estava na ponta da linha, antes da pandemia, está empenhado em buscar soluções. Mas é importante ir além e falar sobre igualdade de gênero nas escolas, nas relações."

O femínicídio, diz a pesquisadora, é a expressão mais cruel dessa violência, que expõe relações de poder em jogo. "É preciso buscar meios de registrar essas ocorrências."

A pesquisa destacou estados que registraram aumento nos registros de violência contra a mulher, como Acre, Maranhão e Mato Grosso e outros que tiveram dimunição nos números, como Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo a pesquisadora, ainda não é possível saber quais motivos estão puxando os números nesses estados. Porém, ela afirma que alguns têm adotado uma visão de gênero no momento de conduzir as investigações. 

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.