São Paulo Gil Rugai teme deixar a prisão após 15 anos da morte de pai e madrasta

Gil Rugai teme deixar a prisão após 15 anos da morte de pai e madrasta

Revelação é da criminóloga Ilana Casoy, integrante da defesa do condenado a 33 anos e 9 meses pelos crimes cometidos em 2004, em São Paulo

Caso Rugai

Gil Rugai, hoje com 35 anos, cumpre pena em penitenciária no interior de SP

Gil Rugai, hoje com 35 anos, cumpre pena em penitenciária no interior de SP

Clayton de Souza/Estadão Conteúdo

Na noite de 28 de março de 2004, a Polícia Militar foi acionada para averiguar denúncias de tiros disparados em uma mansão localizada na Rua Atibaia, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Ao chegarem no local, as equipes da PM se depararam com os corpos do casal de publicitários Luiz Carlos Rugai, de 40 anos, e Alessandra de Fátima Troitino, de 33. Ambos haviam sido mortos com sinais de execução.

A mulher tinha sido atingida por cinco disparos — conforme a perícia determinou depois — e morreu na porta da cozinha, cujo acesso era pelos fundos da casa, na Rua Traipu.

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Já Luiz Carlos , que mantinha o escritório de trabalho e residia no local, ainda tentou se proteger do atirador.

A vítima — que correu para a sala de TV, mas foi perseguida pelo assassino, que arrombou a porta — foi baleada seis vezes, sendo que um dos disparos a atingiu nas costas e outro na nuca. O corpo apresentava "zona de esfumaçamento", detalhe que confirmava disparos feitos à queima-roupa.

Naquele fim de noite de domingo, surgiu na casa da família o jovem estudante Gil Greco Rugai, de 20 anos, filho mais velho de Luiz Carlos. O rapaz, acompanhado da mãe, buscava informações sobre o que havia ocorrido. Mais tarde, ele seria preso pela Polícia Civil, apontado como o executor do duplo assassinato do pai e da madrasta.

Motivação do crime

O delegado Rodolpho Chiarelli Junior, que chefiava a equipe I-Sul do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), responsável pela investigação do crime, tem convicção sobre a culpa do então estudante.

Ao relembrar detalhes do inquérito, o policial disse que, dias antes do crime, Gil havia brigado com o pai e vários funcionários da empresa, ouvidos durante a investigação, confirmaram a discussão.

Teria medo de encontrar o Gil. Não viraria as coisas para ele
Rodolpho Chiarelli Junior, delegado de polícia

Segundo o delegado, o empresário confidenciou os problemas que enfrentava com o filho mais velho ao instrutor de voo, após o piloto notar a desatenção de Luiz Carlos durante uma aula. Ele contou que o filho roubava a empresa e que Gil teria confirmado o crime. 

No dia seguinte à revelação, Luiz Carlos trocou as fechaduras da casa, instalou câmeras de segurança e expulsou o filho da residência. "Quando ele brigava com o pai, era agressivo. Houve uma fraude na empresa, Gil seria o responsável pelos desfalques e Luiz Carlos Rugai descobriu", revelou Rodolpho Chiarelli Junior.

Luiz Carlos e Alessandra foram executados a tiros

Luiz Carlos e Alessandra foram executados a tiros

Reprodução/Record TV

Ainda de acordo com as provas colhidas pela Polícia Civil, uma vizinha viu uma luz acesa nos fundos da casa e somente Gil sabia da existência de um interruptor naquele ponto. Alessandra o reconheceu pela porta de vidro e, por isso, abriu a porta. "Ela morreu na porta da casa com tiros de execução", lembrou o delegado.

Depois, houve discussão entre Gil e Luiz Carlos, Em seguida, uma sequência de tiros foi ouvida. O estudante fez o pai se ajoelhar e o executou. "Havia marcas de sapatos na porta que dava acesso ao quarto. A polícia encontrou cápsulas antigas atrás da cama do acusado. Foi feita uma comparação e o resultado confirmou que eram da arma que matou o casal Rugai", completou.

Para Rodolpho Chiarelli Junior, o estudante tinha conduta psicótica, pois não demonstrava emoção, além de ser uma pessoa perigosa, apesar de manter uma postura serena. O delegado afirmou que não se sentiria seguro na companhia de Gil Rugai.

"Tinha comportamento complicado. Um problema enorme com o pai. Queria ser concorrente. Era frio, não alterava a voz, não esboçava reação alguma. É uma pessoa que provoca receio. Trabalho com criminosos há muitos anos, mas teria medo de encontrar o Gil. Não viraria as coisas para ele. Tem um problema psiquiátrico grave", enfatizou o delegado.

O promotor Rogério Zagallo, responsável por conduzir a acusação na fase processual, também é enfático ao determinar Gil como assassino do pai e da madrasta. 

"Não tenho dúvida nenhuma que foi ele. Aliás, uma das duas pessoas responsáveis por aquelas mortes. Mas não se identificou quem seria a segunda pessoa que estaria em cumplicidade. Mas uma delas é o Gil Rugai. Há provas aos borbotões no caso dizendo que foi ele. Não tenho dúvida nenhuma que a Justiça manterá a condenação".

Zagallo reafirmou que todos os motivos da execução de Luiz Carlos e Alessandra apontam para o condenado e, mesmo passada uma década e meia do crime, mantém a impressão da personalidade calculista de Gil Rugai. "Nos meus 26 anos de júri, [foi] com certeza o réu mais inteligente de todos", decretou.

Casa da família Rugai, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, local do crime

Casa da família Rugai, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, local do crime

Foto: Rogério Cassimiro/Folhapress

Arma localizada e roupas descartadas

Com base em depoimentos e materiais obtidos em diligências e perícias, a polícia concluiu que o estudante Gil Rugai tinha motivos e havia planejado a ação

Dias antes do crime, amigos viram o estudante com uma pistola. Entre eles, o ex-sócio do acusado em uma empresa de publicidade, Rudi Otto Kretschmar, que confirmou a versão em depoimento à polícia.

Partes da arma foram encontradas na galeria pluvial do prédio onde Gil mantinha o escritório em parceria com Rudi. O zelador do prédio notou que havia uma peça metálica ao esvaziar o coletor de água, percebeu que se tratava de uma arma de fogo e acionou a PM.

Gil também pediu que uma funcionária da limpeza do prédio levasse as roupas que usava no dia do crime para uma lavanderia. No entanto, os exames não comprovaram que se tratava das roupas utilizadas pelo assassino.

Por fim, um vigia viu Gil Rugai a atravessar a rua com outra pessoa [o segundo suspeito nunca foi localizado]. Pelo ângulo de visão, o vigilante conseguia ver a saída da residência pela Rua Traipu.

Depoimentos e cronologia contestadas

Os advogados que representaram Gil Rugai na fase do inquérito policial e, posteriormente, no processo criminal, contestaram veementemente as provas apresentadas pela polícia e o Ministério Público.

A criminóloga e escritora Ilana Casoy, que integrou a equipe da defesa do acusado, questionou especialmente a validade dos depoimentos de um dos vigilantes da rua, a falta de definição do horário exato do crime e a exploração da personalidade do estudante.

"A acusação trabalhou com reconhecimento, que é causa de 75% inocentes dos condenados injustamente [no Brasil]. Não tinha mais nenhuma prova. Tinha um discurso, que hoje é muito palatável, da suposta psicopatia, coisa que jamais foi não foi examinada, nem comprovada. O Gil é um moço diferente, o que ainda não é crime", frisou.

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Ilana Casoy afirmou que, no momento em que a casa era invadida, o jovem estava em seu escritório, no bairro dos Jardins, a alguns quilômetros do local, versão confirmada por uma testemunha — uma faxineira, mulher do zelador. A criminóloga critica a decisão da Justiça, que condenou o réu mesmo tendo em mãos elementos que comprovariam a inocência.

Ele sabe que é inocente, mas não consegue ter uma vida
Ilana Casoy, criminóloga e escritora

"A defesa trabalhou com argumentos populares, tendo uma prova que seria cabal: Gil estava em outro lugar na hora do crime e em um telefone fixo, prova que condenou o Nardoni [casal condenado por matar a menina Isabella, em 2008]. Estar em um telefone fixo no local do crime condenou o [caso] Nardoni. Estar num telefone fixo não no local do crime não absolveu o Gil. A mesma prova. Dois pesos, duas medidas", ponderou.

Ilana Casoy, criminóloga e escritora

Ilana Casoy, criminóloga e escritora

Arquivo Pessoal/Ilana Casoy

Gil não sabe quem matou o pai

Ilana Casoy disse que, em conversas com Gil Rugai, ele diz não saber quem poderia ter matado brutalmente o pai e a mulher dele. "Nos primeiros anos de prisão, ele nem dormia de tanto pensar [no real assassino]. Ou parava de pensar nisso ou iria enlouquecer. Ele não faz a menor ideia de quem matou o pai e a 'boadastra' dele", frisou a criminóloga.

Atualmente, Gil Rugai cumpre a pena na Penitenciária II de Tremembé, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Desde que foi incluído no sistema prisional, no fim de abril de 2004, ele já esteve recolhido nos CDPs (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros II e da Vila Independência, além de permanecer provisoriamente na carceragem do 77º DP (Santa Cecília).

De acordo com Ilana Casoy, o rapaz disse à defesa que não pretende sair da cadeia antes da conclusão da pena, pois ja sofreu perseguição e até linchamento verbal em uma livraria". "Ele sabe que é inocente, mas não consegue ter uma vida. Está muito assustado. Dentro da cadeia, consegue ter uma vida", contou.

Família de vítima quer anonimato

Os familiares da publicitária Alessandra de Fátima Troitino sempre procuraram se manter afastados dos holofotes em razão da repercussão do caso. Os pais da publicitária já faleceram.

Procurado pelo R7, o advogado Ubirajara Mangini, que representou a família da vítima no julgamento de Gil Rugai, em 2006, ressaltou que, após conversar com a irmã da vítima, foi orientado sobre o desejo de anonimato.

"Eles querem colocar uma pedra nisso", definiu o advogado sobre o sentimento dos parentes de Alessandra.

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Relembre o caso Gil Rugai em fotos: