Italiano suspeito de aplicar golpes em brasileiros se apresentava como empresário rico, dizem vítimas
Brancato foi indiciado por estelionato e teve o passaporte apreendido; ele nega as acusações
São Paulo|Ana Cláudia Barros, do R7

Sedutor, simpático, educado e sofisticado. Era com esse arsenal de predicados que o italiano Franco Brancato, 48 anos, indiciado pela polícia brasileira por estelionato, fisgava suas vítimas, conforme denúncia de pessoas que afirmaram ter sido prejudicadas pelo estrangeiro.
Em entrevista ao R7, elas contaram que Brancato se apresentava como um rico empresário do ramo de energia solar e que sua retórica era tão convincente que, em pouco tempo, ganhava a confiança daqueles que se envolviam com ele. A partir daí, conseguia empréstimos que jamais teria pagado, fundamentais para sustentar a imagem de homem bem-sucedido, acima de qualquer suspeita.
Em janeiro deste ano, duas vítimas registraram boletim de ocorrência no 2º Distrito Policial de Barueri, em Alphaville, reduto de mansões na Grande São Paulo — região onde o suspeito estaria vivendo.
Zélia*, 42 anos, moradora de um Estado no Norte do País, afirmou ter sido enganada por Brancato. Ela contou que conheceu o italiano em 2013, por meio de um amigo em comum. Os dois tiveram, segundo a mulher, um envolvimento afetivo e o saldo não foi nada positivo: um prejuízo no valor de R$ 170 mil, acompanhado de uma ainda não curada decepção amorosa.
— Ele foi apresentado como um investidor europeu na área de energia. Como trabalho com isso também, identifiquei as empresas na minha região que tinham interesse em implantar o tipo de sistema que ele oferece. Então, comecei a fazer contato com ele, e terminou acontecendo um envolvimento amoroso. Ele era muito romântico, muito envolvente. Diariamente, eu amanhecia com mensagens amorosas no celular. Ele me ligava várias vezes ao dia. Era extremamente atencioso.
De acordo com ela, o relacionamento durou cerca de oito meses, e ambos chegaram a planejar o casamento.
— Ele me propôs, de início, um termo de união estável. Depois, nós iríamos nos casar. Cheguei a levantar os documentos necessários para fazer o termo de união estável. Ele me colocou em contato com uma advogada, e ela enviou toda a documentação. Comecei a preparar isso. Foi quando descobri que se tratava de um golpe.
De acordo com o delegado Alexandre Palermo, responsável pela investigação do caso, “há indícios suficientes de autoria e de materialidade”. A reportagem conseguiu localizar Brancato, que rebateu as acusações apresentadas e alegou estar sendo alvo de um complô.
Brasileiros denunciam prejuízo de mais de R$ 200 mil com italiano charlatão
Zélia relatou que o futuro noivo sempre pegava dinheiro emprestado sob o argumento de que ainda não tinha RNE (Registro Nacional Estrangeiro) e não poderia fazer movimentações financeiras no País. Argumentava que precisava de uma união estável para se regularizar. Com o tempo, as histórias contadas por ele soavam menos críveis para a mulher.
— A gente morava em Estados diferentes, e ele sempre fazia referência aos amigos dele. Ele contava que as pessoas passavam a perna nele. No dia em que eu estava preparando a documentação [para a união civil], ele me ligou e falou que havia rompido com um desses amigos, que considerava irmão. Contou que o amigo tinha dado um golpe nele. Pensei: “Como pode? Todo mundo com quem ele se relaciona dá golpe nesse cara. É muito estranho”.
Segundo ela, os empréstimos se tornaram cada vez mais frequentes e as quantias nunca eram pagas.
— O dinheiro dele sempre estava bloqueado. Ou o dinheiro estava para chegar ou havia ocorrido um problema na Alemanha [Brancato tem dupla nacionalidade: italiano e alemão], ou o Banco Central tinha bloqueado. E ele ia me pedindo. Ao todo, ficou na faixa de R$ 170 mil.
Mesmo apaixonada, Zélia contou que foi capaz de perceber que algo estava errado.
— Ele inventou uma história de que estava colocando sistema de energia sustentável em uma igreja evangélica e que já tinha firmado contrato. Disse que as placas [para captação de energia solar] tinham chegado, mas ele precisava de dinheiro para a alfândega. E que dez técnicos alemães estavam chegando e ele tinha que pagar a hospedagem desse pessoal. Havia também taxas no Inmetro para regularizar [...] Ele me mandou um e-mail de uma empresa alemã da qual se dizia sócio para me mostrar que receberia 50 mil euros. Isso foi uma garantia que ele me deu para eu emprestar o dinheiro. Ele dizia: “Amor, veja, o dinheiro está chegando”. E me mandou a cópia deste e-mail.
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Desconfiada, ela procurou o remetente da mensagem eletrônica e descobriu que o conteúdo do e-mail teria sido adulterado.
— O remetente é um gerente de exportação da empresa. Esse gerente me respondeu, lamentando muito a minha situação. Disse que Franco foi um simples representante da firma, um vendedor de casas e que, inclusive, tinha uma dívida de 187 euros. Essa comunicação dele com a empresa era justamente sobre a dívida. O gerente me mandou o e-mail original da conversa que tiveram [...] Aí, foi quando a casa caiu para mim. Caí na real e descobri que tinha sido vítima de um golpe. Abri o jogo e comecei a fazer as cobranças. Descobri que ele vivia com outra mulher em São Paulo e também a enganava. Ela também foi vítima dele.
Emocionada, Zélia revelou que ficou desestruturada financeira e emocionalmente.
— Fiz empréstimos, contraí dívidas. Sempre que eu falava alguma coisa, ele dizia: “Não se preocupe. Eu pago os juros”. Sempre deixei bem claro que não sou rica e que eu estava fazendo empréstimos. Nunca passei por essa situação. Sou uma pessoa que sabe viver com o que tem, com o que ganha. Então, quando descobri tudo, foi algo que me desestruturou tanto emocionalmente quanto financeiramente. Quase entrei em depressão.
A mulher, que além de procurar a polícia, entrou com processo civil para tentar reaver o dinheiro, disse acreditar na Justiça.
— É péssimo ser enganada. Foi uma dupla decepção. Emocionalmente é que destrói a gente. Foi muito difícil [...] Acredito na Justiça e acredito que ele tem que ser desmascarado. Ele é muito envolvente, ele te dá “garantias” de que está falando a verdade. Deixava documentos dele. Ele envolve a gente de tal forma que não dá para desconfiar no início. O golpe dele é diferente. Eu o conheci. Minha família o conheceu. Não é uma pessoa virtual. É real.
Alta sociedade
Nem sempre a sedução de Brancato se dava pela via afetiva, segundo afirmou o consultor Pepe*, 50 anos, morador da Grande São Paulo. Ele contou ter caído na conversa do estrangeiro, que o propôs sociedade.
— Como sou consultor de negócios, ele foi me envolvendo. Disse que iria trazer a empresa para cá e me convidou para ser sócio. Fez o contrato social, me colocando com 1% da empresa. Ele me mostrou extratos na Itália para provar que tinha 50 milhões de euros para trazer e montar a empresa aqui.
Influente, o consultor afirmou que abriu portas para Brancato na alta sociedade.
— Ele foi usando, usando. Ele me contratou para uma consultoria, falando que pagaria R$ 5.000 por mês, mas até hoje, não me pagou nada. Eu ainda dei dinheiro para ele para pagar as coisas. E ele sempre dizia: “Amanhã chega o dinheiro”.
O primeiro contato entre Pepe e o suspeito foi por meio de um amigo que, mais tarde, também seria vítima, conforme o consultor.
— Ele esteve em uma empresa da região de Barueri para fazer importação. O dono da empresa é meu amigo. Ele me ligou e falou: “Estou com um alemão querendo alugar um apartamento mobiliado na região. Você tem alguma coisa?” Peguei a chave de outro amigo meu. A caução era de R$ 12 mil. Brancato nunca pagou. A desculpa era que o dinheiro estava no banco e que ele estava esperando o RNE ficar pronto. Tive que assumir a dívida e perdi a amizade com o dono do imóvel.
Pepe relatou ter conhecido o italiano em 2014 e destacou a capacidade de manipulação de Brancato.
— Fui usado durante nove meses. Trabalhava todo dia com ele. Deixei de trabalhar para atendê-lo. Eu conheço muita gente. Trabalho muito. E um cara te pega para usar seus conhecimentos. Estou ficando com a culpa pelas dívidas que ele acabou adquirindo [...] Ele é estelionatário profissional. Vai usando as pessoas e vai tirando vantagens. Quando não consegue mais, já armou para outro lado.
O consultor calculou que teve prejuízo de mais de R$ 50 mil. Indignado, iniciou uma busca na internet para descobrir outras possíveis vítimas do italiano. Foi quando conheceu Zélia.
— Ele faz um joguinho. Quando envolve uma pessoa, ele faz a caveira da outra para não ter contato. Eu não tinha contato com os amigos dele, porque ele falava mal deles para mim e vice-versa. Ele me isolava. Fazia isso com todo mundo [...] Com o dinheiro que as mulheres emprestavam, ele chegava em restaurantes e pedia o vinho mais caro. Usava dinheiro de uma para pagar a conta da outra.
Na avaliação de Pepe, a ousadia do suspeito é a prova de que ele debocha da Justiça brasileira.
— Ele goza com a Justiça brasileira. Ele assinou comigo um contrato de locação e eu fui ao cartório para reconhecer a firma dele. A gente apresentou o passaporte e a menina do cartório falou que ele não poderia assinar porque não estava legal no Brasil, que o visto já tinha vencido. Ele falou: “É que entrei com esse passaporte, mas já está na Polícia Federal, já está saindo meu RNE, está tudo certo”. Ele acha que os brasileiros são tontos.
Após a experiência, o consultou disse ter aprendido a lição.
— Acho que as pessoas têm que abrir os olhos e pedir garantias. Fui na boa-fé e as garantia eram documentos, extratos falsos.
Violência doméstica
Além responder por estelionato, Franco Brancato foi indiciado em outro caso de violência doméstica, com base na Lei Maria da Penha. O estrangeiro teve o passaporte apreendido junto à Polícia Federal, segundo o delegado Alexandre Palermo, porque havia informações, ainda não confirmadas, de que ele estaria com visto de permanência falso. A situação também está sendo apurada.
À polícia, o italiano negou as acusações de estelionato, conforme Palermo.
— Ele nega. Realmente veio com uma argumentação para explicar a situação toda, mas tenho comigo que é autor de estelionato mesmo. Ele se apresentava como representante de uma empresa alemã no Brasil. Disse que estava aguardando uma remessa de valores e, por isso, pedia esse auxílio financeiro. Em um primeiro momento, não comprovamos nenhuma ligação dele com a empresa. Posteriormente, surgiu uma informação que está sendo checada de que ele realmente teria contato, mas não tenho nada de positivo ainda. Isso está sendo levantado. Mas ele não apresentou qualquer documento que o ligasse à empresa. Estou aguardando algumas respostas para ter certeza absoluta. Aí, finalizaremos definitivamente o caso.
“Eles destruíram minha vida”
Em entrevista ao R7, Franco Brancato negou as denúncias apresentadas por Zélia e Pepe e disse estar sendo vítima de “uma quadrilha”.
— Já estou com advogado, já falei com o consulado. É uma quadrilha que está contra mim, porque eu não quis fazer negócio com eles. Eles destruíram minha vida [...] Não fiz nada de errado. Eu tenho uma empresa, eu quero trabalhar e ficar tranquilo.
Disse que era representante da empresa europeia, mas por interferência de Zélia, o vínculo foi rompido. Afirmou ainda ter apresentado documentos que o ligariam à firma no dia em que esteve na delegacia. O material, segundo ele, teria sido entregue a uma escrivã, que prometeu anexá-lo no boletim de ocorrência.
Afirmou ainda que só teve contato pessoalmente com Zélia durante uma semana e que ela sabia sobre a namorada dele em São Paulo. Negou a versão de que planejava se casar com ela.
Sobre a história apresentada por Pepe, disse que “era tudo mentira” e que o denunciante queria trabalhar na empresa dele, o que não foi possível porque tinha “papel maquiado”.
— Acho que é inveja. Ele queria trabalhar na minha empresa. Falei para ele: “Ela está nascendo agora eu não preciso de você, já que não entende nada de energia”.
Brancato destacou que denúncia feita por Pepe junto à polícia é falsa.
— Ele não fez nada por mim. Paguei conta de energia para ele, porque ele não tinha dinheiro [...] Ele queria entrar na minha empresa para ficar rico. Depois, soube que ele falou para todo mundo: “Vou lutar para Franco não ficar rico no meu País”
O italiano adiantou que pretende processar Zélia e Pepe por calúnia e difamação.
— Eles destruíram minha vida. Estão me prejudicando. Não fiz nada de errado.
*Para preservar a identidade dos denunciantes, os nomes e dados deles foram alterados.













