A indústria brasileira e a urgência de um ambiente mais competitivo
Alexandra Gioso, diretora do CIESP-SJC e vice-presidente do Conselho da FIESP, analisa os desafios do Custo Brasil e o futuro da indústria no Momento Conexão
Momento Conexão|R7 Conteúdo e Marca

Por Alexandra Gioso
Participei do programa Momento Conexão, com Miller Augusto, e saí dessa conversa com um sentimento muito claro: a indústria brasileira não pode mais perder tempo.
Precisamos olhar para o nosso setor com estratégia e com os pés no chão. O momento exige de nós plano, método e, acima de tudo, coragem para tomar decisões, enfrentar os desafios e construir os caminhos que a indústria precisa para avançar.
Afinal, a indústria brasileira não peca em inovação e muito menos em qualidade. Temos empresas que dão aula e disputam de igual para igual no cenário global. O nosso verdadeiro desafio é outro. A batalha mais dura, que enfrentamos todos os dias, é a da competitividade.
Competitividade se sente no dia a dia
Quando falo em competitividade, não estou falando de um conceito distante, restrito a relatórios ou seminários. Estou falando do que o gestor enfrenta no dia a dia, desde o momento em que abre a empresa pela manhã.
É o empresário que vê horas da equipe serem consumidas apenas para entender e cumprir obrigações acessórias. É o diretor industrial que precisa lidar com o impacto do frete no preço final porque a carga percorre estradas precárias ou depende de um único modal. É o empreendedor que planeja expandir o negócio, mas esbarra em licenças que podem levar meses ou até anos para serem liberadas.
Na prática, competitividade também passa por tudo aquilo que torna mais simples, ágil e previsível fazer negócios.
Nenhuma empresa, por mais eficiente que seja da porta para dentro, consegue compensar sozinha o que encontra da porta para fora. E o que encontramos hoje é um emaranhado regulatório, deficiências crônicas de infraestrutura, custo elevado do capital, insegurança jurídica e regras imprevisíveis.
Tudo isso desestimula decisões de longo prazo em um setor que trabalha com horizontes longos: uma linha de produção, um novo equipamento ou um centro de pesquisa se planejam em anos, não em trimestres.
Esse conjunto de entraves é o que o setor produtivo chama de Custo Brasil. Não é um problema de gestão desta ou daquela empresa. É um problema sistêmico, que pesa igualmente sobre a pequena metalúrgica e a grande montadora, a indústria centenária e a startup de base tecnológica.
O mundo não espera
Enquanto isso, o cenário internacional muda rápido. As cadeias globais de suprimento estão sendo redesenhadas, grandes economias adotam políticas industriais ativas para atrair e proteger suas fábricas, e a transição energética e a digitalização redefinem o que é ser competitivo. Outros países oferecem previsibilidade, financiam inovação e constroem infraestrutura com velocidade.
Sem condições para competir de igual para igual, o resultado é previsível: além de não conquistarmos o mundo, estamos perdendo o nosso próprio mercado. Mês após mês, cedemos espaço a produtos importados que nasceram em ambientes mais favoráveis. Nem sempre o produto estrangeiro é melhor. Muitas vezes, o que pesa é o ambiente em que ele foi produzido.
As consequências vão além do balanço das empresas. Cada fatia de mercado perdida significa empregos qualificados que deixam de existir, arrecadação que deixa de financiar serviços públicos, conhecimento técnico que se dispersa e cadeias de fornecedores que se desarticulam.
Um país que abre mão de produzir abre mão, aos poucos, de sua autonomia e de sua capacidade de gerar riqueza para as próximas gerações. Por isso, sem exagero, competitividade industrial é questão de sobrevivência nacional.
Da resiliência individual à força coletiva
O industrial brasileiro é resiliente por natureza. Aprendeu a atravessar crises, a se adaptar a mudanças bruscas de regra e a encontrar saída onde parecia não haver. Mas reverter esse quadro exige mais do que resiliência individual. Exige união e voz ativa. Nenhum empresário, sozinho, muda uma lei, destrava uma obra de infraestrutura ou corrige uma distorção tributária. Juntos, conseguimos.
É aí que a representação institucional faz diferença. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), com 42 regionais e cerca de 8 mil associados, atua como escudo e alto-falante do setor produtivo.
Escudo, porque protege a indústria de medidas que ameaçam sua viabilidade. Alto-falante, porque amplifica demandas que, de outra forma, se perderiam no ruído do debate público. Em conjunto com a FIESP, essa rede tem capilaridade para ouvir o interior e peso institucional para ser ouvida onde as decisões são tomadas.
Só a regional de São José dos Campos representa 340 indústrias de diferentes portes e vocações, em oito municípios: além da sede, Caçapava, Caraguatatuba, Ilhabela, Jambeiro, Monteiro Lobato, Paraibuna e São Sebastião.
O Vale do Paraíba é reconhecido nacionalmente por sua vocação tecnológica, com destaque para os setores aeroespacial, de defesa, automotivo e químico, e por um ecossistema que reúne empresas, centros de pesquisa e instituições de ensino de excelência.
Essa força também está nas pequenas e médias indústrias, que formam a espinha dorsal das cadeias produtivas e são as que mais sentem o peso de um ambiente hostil, porque têm menos estrutura para absorvê-lo.
Escutar para transformar
O problema real nasce e se agrava na rotina da operação. É no dia a dia da fábrica que a norma mal desenhada vira custo, que o gargalo logístico vira atraso e que a burocracia vira oportunidade perdida.
Por isso, nossa atuação parte da escuta: visitamos empresas, promovemos encontros, ouvimos empresários e técnicos e organizamos essas informações para que ganhem forma e consistência.
Quando o empresário traz sua dificuldade ao CIESP, ela deixa de ser um obstáculo isolado e se torna um pleito coletivo, levado com embasamento técnico a quem tem poder de decisão. Uma reclamação individual pode ser ignorada.
Um diagnóstico coletivo, sustentado por dados e apresentado por uma instituição com credibilidade, entra na agenda. É assim que dialogamos com prefeituras, governo estadual, órgãos reguladores, parlamentares e governo federal, sempre de forma propositiva: não só apontando problemas, mas apresentando caminhos.
Esse trabalho é ainda mais importante em momentos de transformação estrutural, como a implementação da reforma tributária, cujos efeitos sobre o setor produtivo precisam ser acompanhados de perto, com atenção às regras de transição e às particularidades de cada cadeia.
Qualificação de mão de obra, acesso a crédito, segurança jurídica, inovação e logística também seguem no centro da nossa agenda.
O que já construímos ouvindo a indústria
Esse jeito de trabalhar já gera resultados. Na primeira gestão, reformamos a sede, hoje um ponto de encontro de portas abertas ao empresário, e batemos recordes de público em eventos como a Rodada de Negócios, o Almoço & Negócios e o Networking Café.
Lançamos o Podcast CIESP e criamos comitês setoriais de Relações Trabalhistas, Desenvolvimento Sustentável, Gestão de Pessoas, Saúde e Comércio Exterior, que levam ao debate a experiência de quem vive a indústria na prática.
Com parceiros, impulsionamos a Nova Escola SENAI, que leva ao Vale do Paraíba investimento superior a R$ 100 milhões, além do Acelera Startup e da Jornada de Transformação Digital.
Na capacitação de mão de obra, as atividades de formação profissional cresceram 250% em cinco anos. E ampliamos a presença feminina no setor com o Confem Vale e o programa Elas na Indústria Vale.
Nossa diretoria, reeleita para o mandato 2026–2029, segue com a convicção de que a regional, que vai completar 55 anos em novembro de 2026, cresce na medida em que escuta, representa e entrega.
O futuro não chega por inércia
O desenvolvimento do nosso estado e do nosso país está diretamente ligado à força de nossas fábricas. A indústria é o setor que mais agrega valor, que mais investe em pesquisa e desenvolvimento, que gera empregos de maior qualificação e que dinamiza o comércio e os serviços ao redor. Uma região industrialmente forte tem mais oportunidades, mais renda e mais perspectivas para os jovens.
Convido você a olhar para o futuro da nossa região e reconhecer que a mudança não virá por inércia, nem como concessão ou obra do acaso. Ela exige que estejamos nas mesas de decisão, participando dos comitês setoriais, contribuindo com informações, propondo soluções e cobrando resultados. Exige também que o empresário deixe de ver a entidade de classe como algo distante e passe a enxergá-la como extensão da sua própria estratégia.
O despertar da indústria depende de cada um de nós. Juntos, podemos construir o ambiente de negócios que a nossa indústria precisa e merece para voltar a liderar, não só no Vale do Paraíba ou em São Paulo, mas no Brasil e no mundo.

