Moradores de rua recorrem à doações, caminhadas noturnas e bebida para lidar com recordes de frio
Alguns deles montam barracas de camping pelas ruas do centro de São Paulo
São Paulo|Giorgia Cavicchioli, do R7

Durante a semana em que a cidade de São Paulo registrou índices recordes de frio, moradores de rua procuraram alternativas para tentar superar e lidar com as baixas temperaturas, principalmente durante a noite e a madrugada. Na praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, algumas pessoas em situação de rua ergueram barracas de camping e ficavam nas calçadas envoltos em cobertores e edredons que receberam de doações.
Quatro amigos que estavam na região falaram à reportagem do R7, nesta quinta-feira (20), das táticas que usam para sobrevier nas ruas. Entre as estratégias, além dos cobertores doados pela população, o grupo recorre a caminhadas pelas ruas durante a madrugada para se manter aquecido e bebidas e drogas também são usadas no momento de fugir do frio.
De acordo com o morador Fernando*, “é a maior dificuldade” estar em situação de rua e, segundo ele, o que mais incomoda é a falta de alimentação e de um banheiro. Ele conta que é de Bauru, interior de São Paulo, e que ficou preso durante 12 anos e seis meses. Depois de cumprir a pena, ele diz que a família não o quis mais e que, desde então, fica nas ruas.
— Tô há sete meses em São Paulo e dois anos na rua.
Mostrando o RG para a reportagem, ele diz que tem “o nome limpo” e que sua parte ele “já pagou”. O homem diz que consegue sobreviver, mas com “sofrimentos”.
— Tem que encostar num canto aí [para fazer as necessidades]. Às vezes as pessoas fazem piada da gente.

Paulo* é outro morador de rua que diz estar em uma “situação difícil”. Segundo ele, se existissem mais albergues em São Paulo seria de grande ajuda para que eles passassem pelo período.
Nesta quarta-feira (19), a Prefeitura de São Paulo inaugurou o primeiro albergue de emergência de invernopara atender pessoas em situação de rua. Além disso, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social ampliou de 79 pessoas para 717 o número de assistentes sociais que atuam na abordagem de moradores em situação de rua, no período noturno, na intenção de direcioná-los a um dos abrigos que fazem parte da rede de atendimento.
Para os moradores, mesmo com os abrigos, nem sempre ir para um local assim é a melhor solução. Ricardo*, que também está em situação de rua, conta que os centros de acolhida, muitas vezes, são palco de grandes disputas por território entre os frequentadores.
— É um atropelando o outro... a gente não tem paz.
Ele conta que perdeu o pai e a mãe aos sete anos em um acidente e que, “de lá pra cá, só calçada”. Recentemente, ele diz que “foge do frio” andando pra esquentar ou “tomando um negócio”. As doações também ajudam bastante.
— Esse edredom, sabe como eu consegui? Gritando “eu tô com frio”. Apareceu uma mulher na janela do prédio e falou “espera um pouquinho”.
Marta*, a única mulher do grupo, diz que além de ter que pensar em como fugir do frio durante as madrugadas, também tem que se preocupar com a proteção para não ser vítima de abuso sexual. Para isso, ela fica sempre ao lado dos colegas homens.
Para o frio ela diz que “depende da esmola de alguém” e que “uma noite no albergue não resolve sua vida”. Em determinado momento, ela pega sua garrafa de cachaça e oferece para a reportagem: “quer um pouquinho”? Mas também diz que isso "nada vai mudar" em sua realidade.
* Os nomes verdadeiros dos entrevistados foram preservados a pedido das fontes por motivos de segurança.















