Morte do entregador expõe nossa miséria: cadê o Samu?
As burocráticas notas de lamento da Rappi e do Samu não consolam os que sabem que "o descaso e violência a que somos submetidos" vão continuar
São Paulo|Marco Antonio Araujo, do R7

A morte do entregador Thiago de Jesus Dias não é só o atestado de óbito do Estado brasileiro. É uma carta de despejo para todos que insistem em viver com alguma dignidade neste país. Quem é pobre e precisa trabalhar, caia fora: o Brasil não está interessado em você.
Thiago deixou uma filha pequena e a todos nós desassistidos. Impossível não se imaginar ou a alguém querido e próximo na mesma situação inaceitável de esperar uma simples ambulância durante duas horas.
Ou ignorar que milhões de cidadãos honestos estão nas ruas buscando o sustento de suas famílias sabendo que é mais do que precária a situação desses trabalhadores sem patrão, sem emprego, sem a quem recorrer.
As burocráticas notas de lamento da empresa de entrega Rappi e do Samu não consolam ninguém. Sabemos que isso não vai mudar, “o descaso e violência a que somos submetidos pelo poder público e pelas relações precarizadas de trabalho", como bem resumiu a advogada Ana Luísa Pinto, que acompanhou o calvário de Thiago.
Entre todos os responsáveis pela tragédia, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (é esse o nome explicativo do Samu) causa a maior indignação. Não ofereceu serviço nem atendimento, muito menos a urgência que merecia o jovem trabalhador. É muito descaso com a vida humana.
Colocar comida na mesa tem sido a cada dia a mais difícil tarefa de muitos de nós. Estamos vendo. A “uberização” veio, trouxe benefícios e gerou oportunidades, mas entrega junto com seus serviços, na porta de nossas casas, um boleto que ainda não sabemos quem vai pagar.
Ou melhor: sabemos que são os mais pobres. E todos nós que assistimos a essa história devastadora. Mais uma? Pois é. Não tem fim. Nem para quem ligar.














