São Paulo 'Pai, te amo tanto': aos 9 anos, filha de MC morto a tiros lança 1ª música

'Pai, te amo tanto': aos 9 anos, filha de MC morto a tiros lança 1ª música

Pai de cantora mirim, Duda do Marapé foi assassinado há oito anos, em caso que terminou em impunidade. Manu do Marapé dá sequência a história dele

  • São Paulo | Kaique Dalapola e Márcio Neves, do R7

"Você se foi e eu fiquei, pequena chorei. Oh, pai, te amo tanto. Tento levar a vida, mas não superei. O funk pede paz, por isso eu canto."

Com este refrão, a cantora mirim Emanuella Moroni, nove anos, faz homenagem ao pai, o MC Duda do Marapé, e canta a falta que ele faz.

Manu, como é conhecida, sequer tem lembranças do pai. Em 12 de abril de 2011, Eduardo Antônio Lara, 26 anos, foi assassinado a tiros no centro de Santos, no litoral paulista.

Duda do Marapé deixou duas filhas. A mais velha, Maria Eduarda, tinha na época três anos, enquanto a pequena Manu estava com um ano e oito meses.

"Eu não lembro nada dele, mas já vi todos os vídeos, conheço todas as músicas. Tenho muito orgulho do meu pai, quero muito ser igual a ele. Me inspiro muito e quero ser tudo o que ele foi um dia", diz a MC.

Para o cantor e compositor Luiz Felipe Amaral, Duda do Marapé "foi o melhor de todos os tempos". MC Amaral era amigo de Duda e afirma que o artista tinha grande destaque no cenário, principalmente por causa de seu carisma.

"O Duda era um cara que vinha largado, todo desarrumado, com cabelo sem cortar. Chegava ele e o DJ, quando não vinha só ele e um pen drive, mesmo assim ele engolia todo mundo que vinha com a maior estrutura. Pelo poder que ele tinha na voz, pela presença de palco, pelo carisma", conta Amaral.

O MC teve uma carreira meteórica, sendo um dos principais nomes do início do funk paulista. Na segunda metade dos anos 2000, a música "Lágrimas" era um dos maiores sucessos nos bailes da Baixada Santista, berço do gênero no Estado, até ser vítimas de tiros de uma pistola ponto 40.

Quatro anos depois do assassinato, a caçula do MC começava a demonstrar a veia artística do pai integrando o elenco da série infantil "Turma da Goiaba" — transmitida em uma canal do YouTube.

Manu atuando na série 'Turma da Goiaba'

Manu atuando na série 'Turma da Goiaba'

Reprodução/YouTube/Lado Beco

"Na turma eu sou uma menina muito simples, tipo a líder da turma", explica Manu sobre seu papel. A menina foi convidada para fazer parte do elenco depois que vizinhos, produtores da série, viram ela brincando na praia próximo ao quiosque onde a mãe trabalhava, em São Vicente.

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Na mesma época que Manu começava as apresentações artísticas, a Polícia Civil enviou para Justiça o inquérito que apurou a morte de seu pai. Nenhum suspeito e o caso foi arquivado.

Manu atuou por cerca de quatro anos como atriz, até precisar sair por causa da idade. Mas, neste ano de 2019, começou a cumprir o que teria sido uma profecia de Duda do Marapé. Segundo a comerciante Karen Moroni, mãe da menina, o MC "decretou" que Manu seria cantora.

"Ele tinha o hábito de levar elas [as filhas] no colo. E um dia ele olhou para mim, colocou ela [a Manu] de frente para ele, olhou fixamente para ela e falou: 'filha, você vai ser cantora'", recorda Karen.

A mãe diz que, desde então, a menina sempre demonstrou interesse em se dedicar aos dons artísticos. Mas o tempo fez com que ela se afastasse dos amigos de Duda, que poderiam ajudar a menina a seguir os caminhos do pai.

Quando atingiu a idade e o tamanho que não daria mais para continuar seu papel na série infantil, Manu fez um pedido para mãe: "Agora quero focar na música, quero ser cantora, ser MC, e a senhora me leva em algum lugar para eu cantar e fazer o que gosto".

Depois que manifestou esse interesse, algumas coincidências começaram a soprar favoráveis às vontades de Manu. Primeiro, a mãe reencontrou com Amaral, que atualmente tem uma produtora de funk na Baixada Santista.

Fazia anos que Karen e Amaral não se encontravam, até conversarem novamente na saída de um show do cantor no município de São Vicente. "Ela falou que eu precisava ver a Manu, que estava a cara do Duda, mas o celular dela estava meio sem bateria, e não deu para eu ver direito", lembra o MC.

Mesmo depois desse encontro, a rotina de Karen e Amaral não contribuiu para que a menina fosse apresentada ao amigo do pai e atual produtor. Mas uma nova coincidência finalmente colocou Manu dentro de um estúdio para dar continuação à carreira do pai.

Manu do Marapé gravou sua primeira música

Manu do Marapé gravou sua primeira música

Márcio Neves/R7

O cunhado de Manu, que também é cantor de funk, a ouviu cantando e também foi falar para o MC Amaral. "O MC Melo chegou dizendo que a filha do Duda estava na casa dele e eu precisava ver como ela era parecida com o pai", diz Amaral.

Melo levou a menina para a produtora. Chegando lá, ela cantou "Lágrimas" — o maior sucesso do pai. "Quando ouvi, já fiquei arrepiado na hora", afirma Amaral.

"A voz é muito bonita, claro que ainda faltam os ensinamentos vocais, um aperfeiçoamento, mas já dá para ver que ela tem a facilidade do canto, ela consegue se expressar bem, e é carismática igual o pai", disse o produtor.

Para o dançarino Nery Pavan, Duda do Marapé foi "um dos melhores que já visto nos palcos", e acredita que Manu tem potencial para seguir os passos do pai.

Nery também estava no dia que Manu cantou pela primeira vez para os amigos dos pais veem, e afirma que as semelhanças físicas, o sorriso fácil e a veia artística fazem com que o futuro da menina seja promissor.

No mesmo dia que a menina cantou na produtora, um dos artistas do grupo, o MC Heisen, compôs uma música para ser cantada por Manu. Amaral leu, disse que estava faltando algo. O compositor passou a madrugada escrevendo e, no dia seguinte, todos curtiram.

"Eu me identifiquei muito, fala tudo que eu quero", afirma Manu. Sob os cuidados da 300 Produtora, a menina passou cerca de um mês produzindo a música, que foi lançada na noite desta sexta-feira (30).

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