Percussão com sucata, balé e folk: Paulista tem de tudo aos domingos
Reportagem do R7 faz um roteiro com algumas das atrações que marcam presença aos domingos na mais importante via de São Paulo
São Paulo|Karla Dunder, do R7

Artistas de rua transformam a avenida Paulista em um imenso palco aberto aos domingos, quando os carros não podem circular por ali. No meio de tantas atrações, sons e cores, o R7 percorreu os 2,7 km de extensão em busca dos artistas e histórias que marcam a principal avenida da capital paulista.
Ao longo da via, o público pode escolher o tipo de música que quer ouvir — do samba aos mais variados estilos de rock, passando por covers de grandes artistas e até percussão.
Quem chega na avenida pela estação Brigadeiro do Metrô pode conferir o trabalho do grupo Embatucadores, que costuma se apresentar sempre na altura do número 407. Ali na calçada, latas, baldes, garrafas vazias e tubos de PVC e o próprio corpo se transformam em instrumentos musicais.
Influenciados por grupos internacionais como o Stomp e Blue Man Group e pelos brasileiros do Barbatuques e do Uakti, os jovens do Embatucadores apresentam 15 minutos de percussão corporal, percussão com sucatas e sapateado todos os domingos das 10h às 17h.
O grupo começou quando o professor Rafael Rip decidiu ensinar música para crianças e adolescentes na Brasilândia, zona norte da capital. “Percebi que as escolas públicas não ofereciam aulas de música e também não tinham dinheiro para comprar instrumentos, nada. Então, aproveitei os materiais que tínhamos em mãos para começar a trabalhar os ritmos”, diz Rip.
A ideia é relativamente simples: criar uma música e tocar em qualquer lugar, com a maior diversidade de matéria-prima possível, em qualquer momento com o que tiver em mãos. E se não tiver nada disponível, o corpo passa a ser um instrumento musical.
O projeto social atende 35 crianças que participam de um curso livre com aulas de música e teatro, além de teoria musical. “Só temos uma regra: precisa levar a sério e ter compromisso.” A turma dos Embatucadores fará uma apresentação completa, com uma hora de duração, na Virada Cultural, no próximo dia 19, às 22h, como artistas convidados da Casa das Rosas (av. Paulista, 37).
Renda Extra

Mais adiante, na altura do 1.374, de uma maneira mais improvisada, Bruno Bertassoli transforma a sucata em bateria. “Eu chamo de ‘tecnobalde’, pego tudo que pode ser reciclável e uso como instrumento. Vi que é comum na gringa e adaptei para a nossa realidade, um jeito de garantir uma grana a mais”, diz.
O jovem de 22 anos estuda música na Emesp (Escola de Música do Estado de São Paulo). Há seis meses sai todos os domingos de Santo André para se apresentar na avenida.
Bertassoli não é o único que usa a arte como forma de garantir um dinheiro extra. As meninas Eliane Gomes, Mariana Santana e Rosana Silva dançam na sapatilha de ponta sobre um linóleo improvisado na calçada. Elas apresentam trechos curtos de coreografias clássicas tradicionais.
O dinheiro coletado com as apresentações ajuda a financiar uma viagem para Barcelona. “Costumamos dançar perto do prédio da Fundação Cásper Líbero, mas não é fixo. Muitas vezes o espaço está ocupado, mas ficamos por aqui”.
Muitos artistas não têm ponto fixo. Chegam, ajeitam suas coisas e se apresentam. Se o ponto não está bom, se tem muito barulho, só ir um pouco mais pra frente ou para trás.
Os meninos Kelvin Bertoni, de 13 anos, e Paulo Gomes, de 12 anos, transformam a esquina da Paulista com alameda Casa Branca em uma roda de hip hop. Os meninos têm como meta juntar dinheiro para participar de uma audição em Los Angeles, nos Estados Unidos.
“A ideia foi do Kelvin, ele resolveu dançar para conseguir dinheiro para a viagem. Estamos aqui há seis domingos e até julho estaremos por aqui, abro mão até do dia das mães para ver meu filho realizar o seu sonho”, diz Maísa Bertoni, que acompanha o filho em todas as suas apresentações.
Exatamente ao lado dos meninos, é possível aprender passos de dança com a turma do projeto Som do Bom. De uma tenda montada na calçada, os DJs tocam todas as vertentes da black music. “Montamos nosso equipamento sempre nos primeiros e terceiros domingos do mês. Dançamos com quem aparecer das 11h às 18h. No início as pessoas ficam tímidas, depois se envolvem nos ritmos e se soltam. Também vamos participar da Virada,” conta a produtora Patrícia Souza.
Música
Andar pela Paulista é ouvir diferentes sons e ritmos que muitas vezes se misturam. Outros músicos aproveitam essa miscelânea de estilos para fazer um som único. O grupo Le Prechaun é um exemplo. Eles apresentam, todos os domingos na altura do número 1.111, rock, folk com um toque celta. O som inconfundível do violino chama a atenção de quem passa por ali. Na outra ponta, em frente ao Conjunto Nacional, a apresentação enérgica da banda Vibehouse já conquistou um público fiel com músicas brasileiras e rock.
Clássicos do blues como as canções de B.B. King e o som de Jimmy Hendrix são apresentados pelo Fillippe Dias Trio. “Tocamos músicas autorais também, mas é um trabalho independente, sem produtores ou empresários.”
Para quem gosta de uma boa roda de samba, vale parar em frente ao número 1011 e conferir o grupo Samba que é massa. Para os fãs de voz e violão, vale dar uma passadinha até o número 1811 e conferir a interpretação de Kaká Novais.
Cover
Pela avenida é possível ver diversas bandas tocando covers de grandes bandas de rock — do metal pesado aos clássicos dos anos 1970.
Covers de artistas famosos atraem a atenção de quem passa por lá. Elvis está vivo em frente ao Conjunto Nacional até às 15h. E para quem gosta de Michael Jackson, um sósia apresenta os passos e danças do astro pop em frente ao Parque Trianon.
Um pouco de tudo
As atrações são variadas. É possível comprar artesanato nas calçadas ou antiguidades na tradicional feira no vão livre do Masp. Palhaços circulam de uma ponta a outra brincando ou, em alguns momentos, assustando as crianças.
Tem grupo que oferece carinho. Eles seguram cartazes com os dizeres: “um abraço muda o seu dia”. Em outro espaço é possível ver crianças e adultos brincando com bambolês. Tudo junto e misturado, um belo retrato de São Paulo.













