São Paulo Perueiros exibem faixa com iniciais do PCC em protesto na Grande SP

Perueiros exibem faixa com iniciais do PCC em protesto na Grande SP

Diretor de associação dos profissionais afirma que foi erro da gráfica

Perueiros exibem faixa do PCC durante manifestação em Suzano (SP)

Perueiros seguram faixa com iniciais do PCC em protesto em Suzano

Perueiros seguram faixa com iniciais do PCC em protesto em Suzano

Reprodução

Um grupo de perueiros irregulares de Suzano, na Grande São Paulo, exibiu uma faixa com as iniciais da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) durante uma manifestação realizada no último dia 8 de novembro.

O ato tinha como objetivo pressionar o prefeito Rodrigo Ashiuchi (PR) a atuar na regularização do transporte irregular entre o bairro de Miguel Badra, na cidade, e o Jardim Marengo, em Itaquaquecetuba. Os dois bairros fazem divisa.

A região é tida pelas autoridades com um reduto do PCC.

“Apoiamos a candidatura porque ele fez uma promessa de aprovar a nossa categoria”, afirma Junior Bernardino Barbosa, diretor da J.J. Transporte Turismo e Locação LTDA., empresa criada para dar caráter oficial aos perueiros clandestinos da região. “Nós colocamos esperança nisso.”

O líder perueiro negou que a faixa tenha relação com a facção. “Aqui é uma cidade pequena. Não tem uma gráfica poderosa. Pedimos que todas as iniciais fossem em letra grande. Deveria ter saído assim: ‘Prefeito Cumpra O Combinado’, o que daria PCOC”, afirma.

“Acabou virando um destaque negativo”, prossegue. “Jogaram uma cortina de fumaça em cima da placa e não deram atenção para a manifestação, que foi pacífica, com mais de 1.200 pessoas na rua.”

150 motoristas

O diretor diz que cerca de 150 motoristas trabalham sob regime de cooperativa, usando carros de passeio para o transporte complementar de passageiros em áreas de Suzano onde o transporte coletivo regular não chega.

“Não convém para eles chegar até lá, com rua esburacada, mal iluminada, só quem leva é a gente”, afirma.

O diretor da J.J. reclama do volume de apreensões de veículos da associação. Desde setembro, a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), com apoio da Polícia Militar, apreendeu 64 carros, que foram levados ao pátio da empresa em São Bernardo do Campo, também na Grande SP.

O tenente-coronel Wagner Matiota, comandante do policiamento na região, confirma que todas as apreensões ocorreram no bairro de Miguel Badra. “Só lá é feito este transporte clandestino”, diz.

Facção

A relação entre o bairros periféricos de Suzano e Itaquaquecetuba e a facção é antiga. Um dos estopins dos ataques realizados pelo PCC no Estado há mais de dez anos, em 2006, foi a prisão de um suspeito apontado como chefe do grupo criminoso na região. Na ocasião, policiais receberam propina para liberá-lo, mas o suspeito já havia sido transferido e permaneceu preso.

A reportagem do R7 apurou que o braço-direito do suspeito detido na época — o homem com quem os policiais teriam negociado o pagamento — atuava até pouco tempo na associação de perueiros. Ele cumpre hoje pena no regime aberto.

Questionado sobre o integrante, Barbosa admitiu conhece-lo há anos e confirmou a presença dele na associação. “Não é um criminoso como tentaram transparecer, tanto que foi inocentado de diversos processos que lhe foram imputados”, afirmou. “Ele trabalhou conosco na área de logística, mas saiu há poucos meses.”

O presidente da associação afirmou que, por se tratar de um organização formada na periferia, é natural que haja contato com pessoas de todos os tipos.

“Somos uma associação que nasceu na periferia”, disse. “Então é natural que conheçamos pessoas de todos os tipos. Aqui mesmo na nossa cooperativa temos um serviço que procura amparar pessoas que já passaram pela prisão.”

‘Triste coincidência’

Procurado pelo R7, o prefeito Ashiuchi afirmou não ter-se sentido ameaçado e disse acreditar que a iniciais PCC na faixa seja “uma triste coincidência”.

O prefeito afirmou que elabora um plano de mobilidade, previsto para abril de 2018. Segundo ele, no entanto, a regularização total do serviço depende da EMTU, pois os perueiros costumam cruzar a divisa entre Suzano e Itaquaquecetuba.

Antes, por meio de nota, o prefeito já havia relativizado o episódio. “Desde o começo das conversas que tivemos no nosso mandato com os transportadores, acreditamos estar dialogando com pessoas de bem, que acordam às 4h da manhã e que continuam trabalhando até as 22h, todos os dias, na busca do sustento familiar”, afirma a nota.

Na nota, a Prefeitura de Suzano reconheceu que automóveis clandestinos complementam os serviços de ônibus e vans regulamentadas no sistema de transporte da cidade. A Prefeitura diz mediar reuniões mensais entre a empresa de ônibus da cidade e a cooperativa de vans regulamentadas desde o começo do mandato.

Depois da passeata do dia 8, os manifestantes foram recebidos na Câmara dos Vereadores de Suzano a convite do vereador José Carlos de Souza Nascimento (PTB), o Zé Perueiro. Segundo Barbosa, participaram da reunião, além do Zé Perueiro, outros seis vereadores e representantes da Prefeitura. 

Investigação

Questionado sobre se foi aberta investigação sobre o caso, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público) em São Paulo afirmou que “os expedientes tramitam em segredo”. “Infelizmente, não podemos fornecer detalhes”, afirmou o órgão em nota.

O R7 procurou também integrantes do MP (Ministério Público) em Suzano e Guarulhos (onde está o grupo que investiga o crime organizado na região leste da Grande São Paulo), mas as autoridades não se manifestaram até o fechamento desta reportagem.

Assistente da delegacia seccional de Mogi das Cruzes, responsável também por Suzano, o delegado Eduardo José de Mello afirmou à reportagem não há inquérito aberto para investigar o caso. Segundo ele, o pedido de investigação deveria partir da Câmara dos Vereadores ou da Prefeitura, caso se sentissem importunados, o que não foi feito.

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