Quase metade das perseguições da PM de SP termina em morte

Número diz respeito apenas aos casos registrados em boletins de ocorrência da corporação. Números ainda apontam que 14,6% conseguiram escapar

Em sete meses, PM registra 742 casos de perseguição

Em sete meses, PM registra 742 casos de perseguição

Kaique Dalapola/R7

Entre janeiro e julho deste ano, a policiais militares de São Paulo mataram 351 pessoas em perseguições. O número, obtido pelo R7 via Lei de Acesso à Informação, representa 47,3% dos 742 casos chamados de acompanhamento policial que foram registrados em BOPM (Boletins de Ocorrência da Polícia Militar).

Os números oficiais ainda apontam que 38,1% dos suspeitos que tentaram fugir da PM em casos com acompanhamento registrado terminaram preso — 167 com algum tipo de lesão e 116 detidos ilesos. Outros 14,6% conseguiram escapar.

Por meio de contato telefônico, a assessoria de comunicação da Polícia Militar informou que faz centenas de acompanhamentos diariamente, no entanto, a maioria não é registrada oficialmente, por isso não entra nos dados fornecidos à reportagem.

Entre os últimos que entraram para essas estatísticas estão Nicolas Canda, 19 anos, Leonardo Carvalho, 23 anos, Roney Oliveira, 20 anos, e Vitor Barbosa, 21 anos. Os quatro foram mortos por PMs da Rota em 17 de julho, na rodovia Presidente Dutra, na região de Guarulhos. 

No início das investigações, os PMs chegaram a dizer que os jovens estavam em um carro suspeito, não obedeceram às ordens de parada dos agentes e fugiram por 21 km.

No último posicionamento sobre o caso, em 18 de setembro, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) disse que apura, por meio de inquérito policial militar, "todas as circunstâncias acerca dos fatos", acompanhado pela Corregedoria da PM.

Fuga e prisão

Em um dos casos que terminou em prisão, os suspeitos que fugiram dos policiais militares afirmam que o pior momento foi o período que eles estavam nas mãos dos PMs.

O ajudante geral Guilherme (nome fictício), 21 anos, dirigia um carro em fuga por cerca de 30 minutos. Acompanhado de outras duas meninas, o jovem tentava escapar da abordagem de quatro policiais da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas).

O rapaz afirma que conseguiu escapar até dos disparos efetuados pelos PMs. No entanto, a tentativa foi interrompida quando outras viaturas chegaram para o apoio e o cercaram, juntamente com outros três amigos que estavam de motocicleta fugindo também.

"Quando pegaram, me deram umas bicudas (chutes) e apreenderam o carro e as motos", diz Guilherme. Todos que participaram da fuga foram levados para uma delegacia da Polícia Civil, onde o caso foi registrado.

Durante a ida para o DP, Guilherme diz que um dos policiais ficava mandando os jovens gritarem enaltecendo o próprio PM. Já na delegacia, apenas o trâmite burocrático.

Guilherme afirma que foi registrado o boletim de ocorrência, os jovens foram multados por parte dos policiais militares e, depois de algumas horas, foram liberados.

Assista: Adolescente é morto em perseguição policial em Bauru

Mas há também os casos de prisões e apreensões de perseguidos que são contestados. Um exemplo é a apreensão de um adolescente de 16 anos, em fevereiro do ano passado, na região do Sapopemba, zona leste de São Paulo, após uma perseguição da PM.

De acordo com a mãe do jovem, ele havia saído de casa com uma moto pequena, conhecida como cinquentinha — que não precisa de habilitação — para buscar a mochila de pizzaiolo de um primo.

Chegando à pizzaria, policiais militares estavam encerrando uma perseguição e disseram que o adolescente era o responsável por participar do roubo de uma motocicleta e fugir das viaturas policiais.

De acordo com as investigações à época, a motocicleta que havia sido roubada estava parada próximo do local onde o adolescente foi buscar a mochila de pizzaiolo.

Os suspeitos do roubo — que fugiam dos policiais militares — abandonaram a motocicleta e fugiram. Em seguida, os PMs chegaram e colocaram o veículo roubado na conta do adolescente.

Veja também: Perseguição policial acaba em morte na zona leste

O rapaz ficou na Fundação Casa por um ano e seis meses, saiu em agosto deste ano, e agora teme ser identificado. Por isso, a mãe pede para que a identidade e detalhes da ocorrência que possa identificá-lo não sejam colocados na reportagem.

O caso do adolescente seria um dos que não entrariam para a estatísticas da Polícia Militar. Isso porque, conforme explicação da própria PM para reportagem, em contato telefônico, houve uma resolução imediata.

Em 2018, de acordo com os dados fornecidos pela Polícia Militar, houve 1.397 casos de perseguições registrados. Desses, 543 terminaram na morte do suspeito, 210 conseguiram fugir. Outros 644 terminaram presos — destes, 413 com algum tipo de lesão.