São Paulo ‘Quero dar um lar à minha mãe’, diz venezuelana trans refugiada em SP

‘Quero dar um lar à minha mãe’, diz venezuelana trans refugiada em SP

Projeto reúne dezenas de mulheres em situação de refúgio anualmente e oferece capacitação, integração e facilitação do acesso delas no país

  • São Paulo | Guilherme Padin, do R7

Charlin chegou há 3 anos ao Brasil e conquistou emprego formal graças ao projeto

Charlin chegou há 3 anos ao Brasil e conquistou emprego formal graças ao projeto

Guilherme Padin/R7

A venezuelana Charlin, 24, vive no Brasil desde 2016. Refugiada, a jovem poderia encontrar as mais variadas e assustadoras barreiras num país de idioma diferente de sua terra natal e onde transexuais, como ela, têm expectativa de vida de 35 anos – metade da média nacional. Mas pouco a pouco ela tem caminhado rumo à realização de seu maior sonho: voltar à Venezuela e comprar uma casa para sua mãe, que lá vive de aluguel.

Embora a situação de vulnerabilidade a coloque em risco, hoje Charlin é formalmente empregada em uma rede de supermercados graças ao “Empoderando Refugiadas”, projeto do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas, voltado para a capacitação profissional, integração cultural e facilitação do acesso a mulheres em situação de refúgio no Brasil. A iniciativa chegou em 2019 à sua quarta edição em São Paulo e primeira na cidade de Boa Vista, em Roraima.

Histórias e sonhos como os de Charlín são comuns entre tantas mulheres que vêm ao Brasil em busca de uma vida digna. Gabriela Almeida, coordenadora do projeto, explica a razão do recorte feminino:

“Quando falamos de pessoas em situação de refúgio, já é um grupo vulnerável. Dentro desse grupo, vimos que as mulheres eram ainda mais vulneráveis. A intenção é dar esse recorte de gênero e atenção específica às mulheres para que a gente consiga empoderá-las economicamente, emocionalmente, e assim se cria uma rede de apoio muito grande. Porque ela (mulher refugiada) conhece outras pessoas, outras histórias, se cria um vínculo de amizade. É muito importante pra esse grupo de mulheres.”

“Eu trabalhava numa loja de eletrodomésticos na Venezuela. E aí há três anos decidi vir aqui para o Brasil por causa da situação no meu país”, conta Charlín. O país vizinho do Brasil vive uma crise política e econômica desde 2013, e que se agrava ano a ano.

Veja também: brasileiro é mais tolerante à entrada de refugiados do que média internacional

A jovem conta que foi primeiro para Roraima, estado que pela proximidade com a Venezuela tem recebido muitos refugiados, e lá trabalhou por um ano “como babá e doméstica em casas de família, limpando e cozinhando”.

Depois do período, veio a São Paulo. “Procurava por uma vida melhor. Hoje arrumei um emprego fixo graças ao projeto, e agora está tudo bem”, comenta a venezuelana, que já demonstra afinidade com a língua portuguesa e acredita que teria mais dificuldade para conseguir um emprego formal não fosse o contato com o projeto.

Projeto se divide em etapas

Quinta etapa de workshops teve palestra e atividades sobre educação financeira

Quinta etapa de workshops teve palestra e atividades sobre educação financeira

Guilherme Padin/R7

Este ano, como explica Gabriela Almeida, o projeto se dividiu em cinco frentes. “Sempre começamos com o trabalho: como se portar em uma entrevista de trabalho, fazer um bom currículo, explicando questões culturais; a segunda [frente] foi a legislação, então tocamos na legislação trabalhista, em quais são as diferenças de um contrato intermitente, CLT, MEI, além de canais de violência contra a mulher; a terceira foi sobre empreendedorismo, porque muitas têm vontade de empreender; na quarta trabalhamos com mídias sociais, como utilizar o Facebook e o Instagram para se promover profissionalmente ou vender melhor o seu produto; e a última foi a educação financeira”, disse Almeida.

Terminadas as cinco etapas de workshops, chegam os chamados momentos de empregabilidade, nos quais, junto dos organizadores do Empoderando Refugiadas, as participantes têm currículos apresentados de acordo com suas aptidões às empresas parceiras do projeto, para assim gerar empregabilidade às mulheres em situação de refúgio.

Advogada, sócia do escritório Mattos Filho e especialista na área trabalhista do Direito, Vilma Toshie Kutomi palestrou para as refugiadas em outubro passado. Ao R7, ela disse que o interesse das mulheres participantes do projeto sobre a legislação trabalhista brasileira e sobre a forma de aplicação da lei no Brasil chamou sua atenção.

Kutomi relata que as principais dúvidas que tirou “eram em relação ao 13º salário, férias, aviso-prévio, pagamento de verbas rescisórias e indenizatórias, concessão de benefícios, faltas justificadas ou não, etc”.

Veja também: total de refugiados pelo mundo chega a 70,8 milhões, diz Acnur

Muitas refugiadas que têm contrato de trabalho, segundo ela, não tinham conhecimento de que existe um sindicato que representa os interesses de sua categoria, e também não sabiam quais eram os direitos se elas se tornassem associadas a sindicatos.

Vilma ainda faz um alerta sobre a questão das refugiadas e o conhecimento sobre leis trabalhistas. “É importante que as refugiadas tenham conhecimento das leis que protegem os seus direitos trabalhistas, especialmente porque empregadores de pequeno porte nem sempre cumprem a legislação”, afirmou ela, que prosseguiu:

“De outro lado, seria necessário que as autoridades do trabalho realmente se dedicassem um pouco mais para aferir se os empregadores de pequeno porte cumprem ou não a lei, pois em casos de denúncias, nem sempre focam sua atenção nesses empregadores, de modo que as refugiadas podem ser prejudicadas em seus direitos.”

A especialista concluiu ressaltando a necessidade de “que as refugiadas saibam que elas podem formular denúncias para as autoridades do trabalho, como também, que dependendo da categoria profissional a que pertencerem, podem ter a proteção das entidades sindicais que as representam”.

Os sonhos das refugiadas

Professora por dez anos em Angola, Chanceline pretende se formar pediatra

Professora por dez anos em Angola, Chanceline pretende se formar pediatra

Guilherme Padin/R7

Assim como Charlin, a guianense D’Natalie e a angolana Chanceline também veem no Brasil uma oportunidade de realização de sonhos. Chanceline, de 31 anos, por exemplo, quer se formar médica no país onde vive há seis anos. Como em Angola se fala português, o idioma não será um empecilho.

“Eu tenho bastantes sonhos. No primeiro momento, meu objetivo aqui foi estudar. Consegui fazer um curso técnico de análises clínicas. Gostei, mas é solitário trabalhar num laboratório. Gosto de ver pessoas. Quero fazer enfermagem agora, e depois a especialização em pediatria. Acho que vai ser legal”, se anima ela, que, finalizando o processo de naturalização, pretende fazer o Enem pela primeira vez em 2020.

Enquanto a colega angolana pretender seguir o caminho do emprego formal, D’Natalie, 49, quer empreender no país vizinho à Guiana, onde era estilista. Desde 2012 no Brasil, ela está lançando uma empresa de eventos temáticos da cultura inglesa.

Antes estilista, D'Natalie quer empreender no Brasil

Antes estilista, D'Natalie quer empreender no Brasil

Guilherme Padin/R7

“Se você estuda inglês, fez intercâmbio, gostaria de morar fora, pode ajudar. Ensino boas maneiras e etiqueta internacional para aprender o comportamento dos ingleses (até 1966, a Guiana era território do Reino Unido). E outro lado dos eventos é que neles vocês pode praticar a língua inglesa”, explica a empreendedora, que, com festas com temas específicos para cada dia da semana, pretende fazer os interessados mergulharem na cultura inglesa. “Quero compartilhar minha cultura com as pessoas daqui”, completa ela.

D’Natalie comenta que, com o projeto, aprendeu muito sobre o Brasil e como funcionam as coisas aqui. “Hoje (workshop sobre educação financeira) aprendi coisas nos primeiros dois ou três minutos que eu não sabia há sete anos morando no Brasil. Meu caminho é pra ir pro empreendedorismo, mas sabendo sobre as leis também posso abrir caminho para outras refugiadas que querem buscar um emprego comigo. Funciona dos dois lados”, diz ela.

Veja também: ONU faz apelo por ajuda para aliviar crise de refugiados venezuelanos

Já Chanceline, que apontou a palesta sobre direitos trabalhistas como sua favorita, vai além dos aprendizados obtidos nos workshops: “É bom você conhecer outras pessoas, de outras culturas, e ver que você não está só num país estranho. Me sinto satisfeita com o projeto. É algo que prepararam com muito carinho, acima de tudo. Tenho muito respeito por esse trabalho. Porque não é fácil você passar dias planejando uma coisa pra apresentar. É bem-vindo, e estou gostando bastaste.”

A venezuelana Charlin também comemora o Empoderando Refugiadas. “Me sinto muito grata pelas informações e que estou aprendendo. Vai servir de exemplo pra quando eu voltar ao meu país. Quero ajudar nossa comunidade e ajudar a comunidade LBGT para empoderá-las de uma melhor maneira”, afirma a jovem.

*Em proteção às refugiadas, seus sobrenomes não foram citados

Últimas