Logo R7.com
RecordPlus

São Paulo tem recorde de estupros nos primeiros cinco meses de 2023

De janeiro a maio, foram registrados 5.977 casos; em comparação com o mesmo período do ano passado, o aumento foi de 15%

São Paulo|Letícia Dauer, do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Por dia, foram registrados 39 estupros em média em SP
Por dia, foram registrados 39 estupros em média em SP

Nos cinco primeiros meses de 2023, o estado de São Paulo registrou o maior número de estupros desde o início da série histórica da SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), em 2001. Somente entre janeiro e maio, foram 5.977 casos, ou seja, uma média de 39 ocorrências por dia.

Os dados, disponibilizados pela pasta, são dos boletins de ocorrência registrados em todo o estado. O número, de acordo com especialistas em segurança pública, pode ser até quatro vezes maior, pois esse tipo de crime é caracterizado pela subnotificação.


Compartilhe esta notícia no WhatsApp

Compartilhe esta notícia no Telegram


No domingo (25), uma vítima, de 19 anos, entrou para a estatística e foi estuprada por um homem enquanto participava de um evento universitário na Neo Química Arena, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Um segurança da festa viu a jovem – com sinais de embriguez – sendo empurrada pelo agressor para dentro de um banheiro químico.

Os crimes sexuais vêm crescendo de forma sistemática ao longo dos anos. Nos primeiros cinco meses de 2001 – ano em que a SSP-SP começou a realizar esse tipo de levantamento – São Paulo contabilizou 1.695 casos de estupro. O recorde anterior para o mesmo período era de 2013 (5.505), seguido por 2022 (5.175) e 2019 (5.140).


Do total de casos registrados em 2023, 1.433 são de estupro e 4.544 de estupro de vulneráveis – vítimas menores de 14 anos ou pessoas com alguma condição que as impede de discernir essa violência. Isto é, a cada cinco ocorrências, em média quatro são de estupro de vulnerável, o que levanta um alerta.

O que justifica o aumento?

Para a delegada Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher, as vítimas e os responsáveis legais por elas têm procurado mais a polícia para denunciar os casos de estupro nos últimos anos. Isso acontece em razão da maior conscientização e da constante divulgação de informações sobre esses crimes sexuais e sobre como denunciá-los.


A pandemia de Covid-19, marcada pelo intenso isolamento social, também foi um período que impactou os números, pois o acesso às delegacias e aos demais serviços de denúncia e proteção foi reduzido.

Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e de outras instituições já mostraram que o lar é um ambiente mais inseguro em comparação com a rua, pois, em muitos casos, a vítima mora ou convive com o próprio agressor – que pode ser o pai, o avô, o tio, o irmão ou o vizinho.

De acordo com a delegada, a escola é a principal fonte de informação para a polícia em relação aos casos de estupro de crianças e adolescentes. Os professores têm papel fundamental na detecção de mudanças de comportamento dos alunos. No período da pandemia, com a interrupção das aulas presenciais, houve um represamento de dados de crimes sexuais.

O aumento do número de registros pode ser atribuído ainda, segundo Ferrari, a uma modificação no Código Penal pela lei n° 13.718, de setembro de 2018. Antes dessa alteração, não havia obrigatoriedade do registro de boletim de ocorrência por estupro, ou seja, a polícia só podia agir com a autorização da vítima.

Com o decreto da lei, a ação penal de crimes contra a liberdade sexual e de crimes sexuais contra vulneráveis se tornou incondicionada: a polícia tem que agir independentemente da vontade das vítimas.

O coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha, reitera que houve um crescimento no número de denúncias devido à maior discussão do tema, porém faz um alerta: "Os estupros não aumentaram na mesma velocidade na sociedade brasileira como um todo. O aumento em São Paulo foi maior do que a média nacional".

Como combater?

Em razão desse cenário, o pesquisador afirma que é essencial a análise profunda e transparente por parte do governo estadual do perfil e da faixa etária das vítimas para a criação de políticas públicas de combate e de prevenção a esse tipo de crime.

"É necessária uma força-tarefa. O secretário [Guilherme Derrite] tem colocado muito tempo e energia, por exemplo, no enfrentamento aos crimes patrimoniais. [O índice] está se reduzindo aos poucos, e é muito significativo. Isso aconteceu porque teve uma concentração de esforços. A gente não vê nada nesse sentido em relação aos crimes de estupro", aponta Rocha.

Um dos caminhos para combater os crimes sexuais, de acordo com o coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, é reunir as secretarias de Segurança Pública, de Saúde, de Educação e Desenvolvimento Social.

"Não vai ser só a SSP que vai conseguir identificar, punir e prevenir esses crimes e os autores. Por mais que esteja equipada e tenha mais policiais, ela nunca vai conseguir resolver [o problema] sozinha. Tem que existir uma ação coordenada. É o professor ou a professora na escola que vai identificar se a criança está com o comportamento diferente. Ou no atendimento de saúde com o médico da família", exemplifica o pesquisador.

Saiba como denunciar

• Ligue 190 (Polícia Militar);

• Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher);

• Acesse o aplicativo Direitos Humanos Brasil;

• Registre boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher; e

• Registre denúncia na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.