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Sobrevivente diz que ouviu da polícia: “Deus Cria, a Rota mata” e “Viva o Choque”

Testemunha ficou ferida no pé durante a invasão policial ao Carandiru em 1992

São Paulo|Vanessa Beltrão e Ana Ignácio, do R7

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Em depoimento, testemunha de acusação disse que foi baleada no pé por um policial quando estava dentro da cela no dia do massacre
Em depoimento, testemunha de acusação disse que foi baleada no pé por um policial quando estava dentro da cela no dia do massacre

A segunda testemunha da acusação a ser ouvida no julgamento do Carandiru foi também um sobrevivente do massacre. O ex-detento Marco Antônio de Moura contou que foi baleado no pé por um policial na cela durante a invasão da tropa de choque. Ele também contou que ouviu a frase “Deus cria, a Rota mata” de alguns policiais no momento da invasão.

Ainda de acordo com Moura, quando os detentos foram retirados das celas, policiais teriam pedido para os presos gritarem “Viva o Choque” durante o trajeto até o pátio, onde ficaram reunidos sem roupa.


Ali, Marco Antônio contou que ficaram até o anoitecer. Ele, que estava ferido, disse que chegou a ter medo de pedir socorro.

— No pátio, ficamos muitas horas sentados e os policiais falavam para os feridos erguerem as mãos e eles acabavam de matar. [Depois] Levavam embora e ninguém mais via [os feridos baleados].


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Marco Antônio afirmou também que nenhum preso estava armado e a briga que teria motivado a rebelião foi um acerto de contas entre líderes de quadrilha. Segundo ele, os detentos não foram baleados no enfrentamento à tropa.

— Não tem como atacar policial armado até o dente.


Helicóptero

O sobrevivente também contou que, naquele 2 de outubro de 1992, até um policial usando uma metralhadora atirava de um helicóptero. Moura disse também acreditar que muitos detentos que foram até o telhado para tentar fugir acabaram sendo baleados pelo PM que estava no helicóptero e morreram.

Marco Antônio estava preso no Complexo Penitenciário do Carandiru por roubo. Ele foi condenado a cinco anos e quatro meses. O sobrevivente foi solto em 1994 e disse que nunca mais foi processado por algum outro tipo de crime. O ex-presidiário ficou internado no pavilhão 4 após o massacre, depois chegou a retornar ao pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo e foi transferido.

— Um mês depois, ainda tinha cheiro de carnificina.

Réus

No júri desta segunda-feira são réus os PMs que estavam no 2º pavimento (primeiro andar) do pavilhão nove. São eles: Ronaldo Ribeiro dos Santos; Aércio Dornelas Santos; Wlandekis Antonio Candido Silva; Roberto Alberto da Silva; Antonio Luiz Aparecido Marangoni; Joel Cantilio Dias; Pedro Paulo de Oliveira Marques; Gervásio Pereira dos Santos Filho; Valter Ribeiro da Silva (morto); Marcos Antonio de Medeiros; Luciano Wukschitz Bonani (morto); Paulo Estevão de Melo; Haroldo Wilson de Mello; Roberto Yoshio Yoshikado; Fernando Trindade; Salvador Sarnelli; Argemiro Cândido; Elder Tarabori; Antonio Mauro Scarpa; Marcelo José de Lira; Roberto do Carmo Filho; Zaqueu Teixeira; Osvaldo Papa; Reinaldo Henrique de Oliveira; Sidnei Serafim dos Anjos; Eduardo Espósito; Maurício Marchese Rodrigues; Marcos Ricardo Poloniato.

Eles respondem por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima — de 15 detentos durante a ação policial realizada no dia 2 de outubro de 1992 para conter uma rebelião da Casa de Detenção em São Paulo. Ao todo, 111 presos foram mortos.

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