Assassino de Alphaville: especialistas explicam efeitos da morfina no organismo
Empresário que matou o casal usava medicamento para tratar síndrome de Guillain-Barré
Saúde|Do R7*

O assassinato de um casal em um condomínio de luxo em Alphaville, na Grande São Paulo, chocou o País na noite desta quinta-feira (23). O empresário Vicente Dalécio, de 60 anos, que cometeu o crime, era portador da síndrome de Guillain-Barré, que acomete o sistema nervoso periférico. O uso de medicamentos à base de morfina, que fazia parte do tratamento, pode causar, em casos específicos, alteração de comportamento, segundo o neurocirurgião Mirto Nelso Prandini, chefe do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
— A morfina, um sedativo ideal usado para o alívio de dores intensas, pode causar, em alguns pacientes, surtos de euforia e alucinações. Em doses muito altas e indevidas, a pessoa sofreria uma parada respiratória.
Para a oncologista infantil Fabiana Gomes de Campos, médica do grupo de cuidados paliativos do Hospital A.C Camargo Cancer Center, a morfina não altera o comportamento, ao contrário, "é um medicamento seguro". Segundo ela, no início do tratamento, é comum pacientes apresentarem efeitos colaterais, já que o organismo está em fase de adaptação à nova droga.
— A pessoa pode sentir sonolência, náuseas e até vomitar. Geralmente, o paciente que não respeita os horários de administração do medicamento pode sentir os efeitos colaterais por mais tempo.
A morfina é ministrada de algumas formas: em comprimidos, cujo efeito no organismo é lento e pode ser utilizado em casa, intradérmica ou intravenosa, que só deve usado com orientação médica em hospitais.
— A medicação é administrada a cada quatro horas, para que sua dose no organismo fique o mais estável possível.
A doença
A síndrome de Guillain-Barré, por si só, não provocaria comportamento agressivo, garante o neurocirurgião Prandini.
— Pode ser que o paciente tenha sofrido algum tipo de estresse agudo, após ficar quatro meses internado. No entanto, é difícil afirmar que a doença tenha modificado o seu estado emocional.
De origem autoimune, esta síndrome é caracterizada por lesões nos nervos periféricos que se originam no encéfalo ou na medula espinhal. Costuma evoluir para surtos, cujos intervalos podem ser de semanas, meses ou até anos.
Seus principais sintomas são dormência, falta de sensibilidade e fraqueza muscular nos braços e pernas. Em alguns casos, pode ocorrer dificuldades na deglutição ou até na movimentação dos olhos e rosto. Estes problemas são acompanhados de dores de difícil tratamento.
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Porém, o principal risco da doença está na respiração. Este tipo de acometimento pode afetar os nervos que controlam os movimentos pulmonares, levando a um quadro de insuficiência respiratória e morte por falta de oxigenação.
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Como tratar
O tratamento da síndrome visa controlar a autoimunidade, e quanto mais cedo se inicia, melhor. No entanto, se a doença evoluir para um quadro de insuficiência respiratória, o paciente deverá ser intubado imediatamente. Esse procedimento permite que os movimentos respiratórios retornem dentro de alguns dias.
— Dependendo da gravidade do problema, a intubação pode durar de dez dias a três meses.
*Camila Savioli, estagiária do R7















