Diabetes: nada deve ser proibido, nem mesmo o doce

Acesso a medicamentos e facilidade do monitoramento melhoraram a vida dos portadores

Há duas décadas, muita gente acreditava que ter diabetes era sinônimo de não poder mais comer doces e ser obrigado a se privar de diversos prazeres para o resto da vida. No entanto, com o avanço das pesquisas e da conscientização sobre a doença, sabe-se hoje que ter uma vida longa e saudável é não só possível como comum dentre os pacientes — desde que tomados os devidos cuidados.

O endocrinologista da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) Marcio Krakauer afirma que, hoje em dia, ter diabetes "não é mais o fim do mundo". De acordo com ele, o acesso à informação, os tipos de medicações e o entendimento da doença está melhorando a cada dia.

— Hoje se vive muito melhor, tanto pelo acesso aos bons medicamentos, quanto pela facilidade do monitoramento. Ter diabetes nunca foi o fim do mundo, e continua não sendo.

Krakauer ressalta que, ao contrário do que se pensava há alguns anos, quem tem diabetes não precisa se privar de nada — basta tomar as medicações prescritas de forma adequada e adotar um estilo de vida saudável.

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— O problema é que as pessoas que se dizem normais é que não estão normais. Existe uma inversão de conceito sobre o que é normal. Para a maioria das pessoas o normal é dormir pouco, trabalhar muito, estressar demais, comer lanche. Esse é o dito normal.

Por não apresentar sintomas, o tratamento do diabetes deve ser feito de forma intensiva. Ou seja, quem tem a doença não pode deixar de medir a glicose com frequência, para poder manter os níveis dentro da meta estabelecida pelo endocrinologista.

Outra medida importante para não ter complicações decorrentes do diabetes — que, se não tratado, pode gerar cegueira, amputações nos pés, dentre outros problemas —, é abandonar o fumo. O álcool, que muitos consideram proibido para o portador da doença, é permitido, desde que seja em quantidades moderadas.

Monitorar a glicemia constantemente é fundamental para manter a doença sob controle
Monitorar a glicemia constantemente é fundamental para manter a doença sob controle Divulgação

Para manter a glicose controlada, também é importante fazer exercícios físicos. O endocrinologista ressalta que, a partir da faixa dos 40 anos de idade, a rotina deve incluir também a musculação, “para evitar a perda de músculo”. Mas sem deixar de lado as precauções:

— Quem usa insulina e remédios que fazem o açúcar baixar deve tomar precauções. Adequar a quantidade da insulina para o dia que for fazer o exercício e ingerir carboidratos de ação rápida previamente ao exercício é importante.

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Não pode doce?

Uma das restrições ainda muito associada ao diabetes é a proibição de ingerir doces. No entanto, é um mito. A nutricionista e educadora em diabetes da ADJ (Associação de Diabetes Juvenil) Tarsila Ferraz de Campos explica que nada muda na alimentação de um portador de uma doença em relação à do resto da população — apenas a obrigatoriedade de manter bons hábitos alimentares fica ainda mais importante.

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De acordo com a especialista, ter uma alimentação rica em fibras, verduras, legumes e frutas, além de diminuir o uso de produtos industrializados ricos em gorduras, açúcares e sais, ajuda a manter o controle da glicose para quem já tem diabetes e ajudam a evitar a doença para quem não tem.

Mas e os doces? Nesse caso, a orientação é a mesma tanto para quem tem e quem não tem a doença: são permitidos, desde que em quantidades moderadas.

— O que a gente pede para tomar muito cuidado hoje é com bebidas açucaradas, como sucos artificiais e refrigerantes. A velocidade de absorção do açúcar dissolvido em líquidos é mais rápida, o que pode causar problemas.

Alimentação da criança e adolescente com diabetes

O estudante de medicina Ronaldo Wieselberg, de 25 anos, descobriu que o jovem tinha diabetes ainda durante sua infância, aos 2 anos de idade. Para controlar sua glicemia, ele utiliza uma bomba de insulina subcutânea, que injeta a quantidade de insulina diretamente em seu organismo — além de manter um estilo de vida saudável.

— O diabetes é difícil no momento do diagnóstico. Mas, depois, com o cuidado certo, você vive normalmente. Eu nunca deixei de fazer nada: comia um pedaço de bolo, um salgadinho. Sem abusar, é claro. 

Wieselberg conta que a única diferença entre ele e seus amigos que não têm diabetes é que ele costuma “perder uns 30 segundos medindo a glicemia antes das refeições”. De acordo com o estudante, os hábitos alimentares corretos e a rotina de exercícios físicos devem ser desenvolvidos desde criança, para que não haja problemas de adaptação no futuro.

— Eu gosto de falar que o diabetes é como um banquinho de três pernas: medicação correta, alimentação adequada e atividade física regular. Se tiver as três equilibradas, o banquinho não cai.

Pais são essenciais

Para desenvolver os hábitos alimentares corretos nas crianças, a nutricionista afirma que os pais devem começar mudando seu próprio estilo de vida. No entanto, ela ressalta não se tratar de um processo “do dia para a noite”. Tem de haver um trabalho em equipe dos pais com a criança.

— Temos casos interessantes de famílias que mudaram de vida depois que os filhos foram diagnosticados com diabetes. Muitas vezes isso cria a necessidade de uma alimentação saudável. Temos até relatos de pais que emagreceram e melhoraram a própria saúde depois do diagnóstico do filho.

* Por Luis Felipe Segura