Saúde Guillain-Barré causa paralisia dos membros, mas pode ser revertida

Guillain-Barré causa paralisia dos membros, mas pode ser revertida

Síndrome autoimune afeta os nervos, provocando fraqueza muscular; especialista afirma que doença não tem desencadeador determinado 

Guillain-Barré pode causar desde fraqueza até paralisia da respiração

Imagem do dia em que Danilo saiu do hospital andando, ainda com a ajuda do pai

Imagem do dia em que Danilo saiu do hospital andando, ainda com a ajuda do pai

Arquivo pessoal

Um leve formigamento nos pés e nas mãos que, em poucos dias, se transforma em dor e paralisia dos membros. Assim é a síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune do sistema nervoso ainda de causa desconhecida, que pode aparecer sem motivo aparente, mas tem tratamento e costuma ser revertida.

O vendedor Danilo Reis, 30, passou por essa experiência. Com um leve formigamento nos dedos dos pés, não mudou sua rotina. Foi trabalhar e viajar no fim de semana. No entanto, uma semana depois, o incômodo aumentou, caracterizado por fortes dores e fraqueza nas pernas. 

"Fui ao médico, que disse que os sintomas eram de ansiedade", conta ele, que é mineiro, mas mora em Valparaíso de Goiás, em Goiás. 

Mas, ele estava enganado. Dois dias depois, já não conseguindo andar, Danilo voltou ao hospital e foi diangosticado com a síndrome de Guillain-Barré. O exame para comprovar a doença é a coleta de líquido da medula realizado por punção.

"Não sei o que teria despertado a síndrome. A única manifestação que tive, fora os sintomas comuns, foi passar mal depois de comer uma pizza. A maior dificuldade foi perder o tato, a sensibilidade. Eu não podia me levantar ou me mover. A perda da sensibilidade foi tão grande que sequer sabia se, ao urinar, tinha terminado ou não. Meu filho era recém-nascido e fiquei apavorado de nem poder curti-lo”, relata.

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Na síndrome de Guillain-Barré, os anticorpos do organismo atacam as células do próprio corpo, afetando a produção de bainha de mielina, revestimento composto por gordura que protege os nervos periféricos que conectam o cérebro à medula espinhal e enviam os comandos de movimento para o corpo. Desta maneira, com o ataque dos anticorpos, o paciente apresenta grande fraqueza muscular.

De acordo com o neurologista Daniel Ciampi, da Divisão de Neurologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, embora o caráter da doença seja autoimune, o “autoataque” ocorre, possivelmente, para tentar eliminar do corpo uma infecção viral ou bacteriana que desencadeia a síndrome. Ainda não se sabe quais são esses vírus e bactérias.

“Em alguns casos, o paciente tem um quadro de infecção muito claro, mas, em outros, não apresenta nenhuma infecção”, afirma o médico, explicando sobre o desconhecimento das causas.

Ciampi ainda afirma que, nos últimos anos, a síndrome foi associada ao zika vírus, conforme a grande quantidade de casos, mas não está diretamente relacionada à doença.

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A síndrome também não apresenta caráter genético ou transmissível, segundo o neurologista. “Se a mulher grávida tiver Guillain-Barré, a doença não será transmitida para a criança, mas poderá afetá-la por conta do quadro de saúde da mãe, que pode chegar a ser entubada, por exemplo”, ressalta.

O neurologista explica que a doença se manifesta com formigamentos nos pés, que sobem as pernas e podem chegar às mãos e braços, causando a fraqueza e paralisia muscular. Em casos mais graves, a síndrome pode afetar a musculatura respiratória, fazendo com que a pessoa necessite de auxílio médico para executar a respiração mecânica. Não há fatores determinantes para agressividade da doença, variando de pessoa para pessoa.

No caso da analista administrativa Camila de Almeida, 29, a doença chegou a afetar a capacidade respiratória. "Precisei passar por traqueostomia, pois perdi a capacidade de respirar, devido à fadiga muscular", afirma. Ela não sabe a causa, mas acredita que o estresse tenha sido o gatilho.

Camila está recuperada

Camila está recuperada

Arquivo Pessoal

Por ser autolimitada, a síndrome tem os sintomas evoluídos desde semanas até dois meses e, depois, os sintomas ficam estagnados. Se houver piora nos sintomas após dois meses, Ciampi explica que a condição se torna crônica, deixando de ser a síndrome de Guillain-Barré e tornando-se polineuropatia desmielinizante inflamatória crônica (PDIC), tendo duração de meses a anos.

A reincidência da síndrome é rara. Quando há, pode se tratar da polineuropatia. Ambos os casos são tratáveis, podendo ter recuperação total, mas podem também deixar sequelas devido aos sintomas, como a fraqueza muscular e dores neuropáticas.

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Entre os tratamentos de Guillain-Barré, estão a fisioterapia, que, de acordo com Ciampi, é necessária e fundamental para todos os casos da síndrome.

São realizados também os procedimentos de plasmaferese, no qual o plasma do sangue é filtrado, retirando os anticorpos que atacam o corpo, e ainda a gamaglobulina humana. Nesse procedimento, é aplicada uma injeção de anticorpos. Essas células de defesa injetadas "enganam" os anticorpos, que passam a atacá-las, em vez de atacarem o organismo.

Esse foi o tratamento realizado por Danilo para se recuperar da síndrome. Após seis dias realizando o procedimento, começou a ter pequenos movimentos e recuperou o tato. "Em um mês voltei a andar normalmente e depois de um ano e meio tive a recuperação total", conta ele.

Já Camila, que ficou internada 29 dias, também recebeu os anticorpos. "Além disso, eu recebia medicamentos para dor, como morfina, para controlar a pressão arterial e antidepressivos", afirma.

Um ano e meio depois, ela teve alta do tratamento. "Hoje estou bem, vivendo normalmente. Não fiquei com sequelas consideráveis, apenas perdi um pouco da força na perna esquerda, mas nada que me impeça de viver normalmente", conta.

Esses dois tratamentos são indicados quando há risco de paralisia da musculatura respiratória e fraqueza tão extrema, que impossibilite a pessoa de se locomover. Tanto Camila quanto Danilo realizaram também a fisioterapia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é que, anualmente, a Síndrome de Guillain-Barré afete de 0,4 a 4 pessoas a cada 100 mil habitantes no mundo.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Gianinni