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Perda de memória do zagueiro Bellini pode ter sido causada por excesso de cabeçadas 

Cientistas estudam cérebro doado pela família para descobrir o que realmente teve o craque

Saúde|Eduardo Marini, do R7

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Bellini entrou para a história como o 1º jogador a levantar a taça
Bellini entrou para a história como o 1º jogador a levantar a taça

Hideraldo Luís Bellini, o zagueiro Bellini, consagrado no Vasco e depois atleta do São Paulo e do Atlético-PR, foi bicampeão do mundo pelo Brasil nas Copas de 1958 (Suécia) e 1962 (Chile). No título de 1958, como capitão da Seleção Brasileira, entrou para a história como o primeiro jogador a levantar a taça, um gesto eternizado e copiado até hoje por quase todo jogador que recebe um troféu em qualquer canto do mundo.

Paulista de Itapira, casado, pai de um casal de filhos, Bellini morreu no último dia 20 de março, aos 83 anos, de insuficiência respiratória. Em seus últimos 15 anos de vida, foi vítima de uma perda progressiva e importante da memória. O problema deu seus primeiros sinais em 1968, quando não conseguiu memorizar um texto simples, de apenas quatro linhas, para um anúncio publicitário. De lá para cá, a memória o traiu incontáveis vezes — e de forma cada vez mais cruel e intensa à medida que o tempo passava.


Quando saía para comprar quatro ou cinco produtos, Bellini voltava sem dois ou três deles. É verdade que todos nós já deixamos uma ou outra coisa para trás, mas, no caso do craque, isso era regra absoluta, e não exceção.

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Observadora e preocupada, sua mulher, Giselda, passou a fazer listas, o que não adiantou muito, pois logo ele passou a esquecer também elas, em casa. Ao final da vida, o problema tinha apagado a quase totalidade dos nomes, fisionomias, rostos, episódios, datas e até mesmo pessoas próximas e importantes da memória e vida de um dos maiores orgulhos esportivos da história do País. Ao morrer, Bellini tinha “esquecido” praticamente todo o seu mundo — e dele se desligado de forma inconsciente e melancólica.

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Quando os apagões mentais do zagueiro começaram a aumentar em frequência e intensidade, os médicos deram o diagnóstico de Mal de Alzheimer, a doença mais conhecida e com efeitos mais próximos dos vistos no zagueiro.

Mas, recentemente, pesquisadores importantes como os neurologistas Renato Anghinah e Ricardo Nitrini, este médico do jogador em seus últimos seis anos de vida, passaram a desconfiar de que Bellini pode ter sido vítima de um mal capaz de produzir sintomas muito semelhantes: a ETC (Encefalopatia Traumática Crônica).


Para desfazer a dúvida, Giselda e os filhos decidiram doar o cérebro de Bellini ao banco de cérebros humanos da USP (Universidade de São Paulo), para que ele seja estudado por pesquisadores do quilate de Nitrini e Anghinah. A família merece fartos elogios pela contribuição: a única forma de estabelecer a diferença entre uma e outra doença é a análise do tecido cerebral.

A Encefalopatia Traumática Crônica é uma doença teoricamente mais rara, porém com sintomas bastante semelhantes aos do Mal de Alzheimer e outros parecidos com os de Mal de Parkinson. Em entrevista ao R7, o pesquisador Anghinah, PhD em neurologia e médico do Serviço de Reabilitação Cognitiva do Hospital das Clínicas da USP, explicou como surge a ETC.

— As vítimas da Encefalopatia Traumática Crônica são pessoas que sofreram ou sofrem impactos na cabeça, as chamadas concussões, em grande frequência e quantidade por um longo período da vida. Ela afeta em grande escala boxeadores, atletas de futebol americano, de hóquei e, agora, de MMA.

O neurologista detalha como as pancadas produzem a doença.

— Os choques liberam na região cerebral uma proteína chamada TAU, que originalmente fica limitada a uma parte do neurônio, a célula cerebral. Liberada, a TAU forma fibras que promovem a atrofia e a morte de células de três áreas fundamentais do cérebro: o córtex frontal, o tálamo e a amígdala. Essas regiões respondem por atividades importantes como planejamento, comportamento, tomada de decisão, distribuição de informações para outras partes do cérebro e emoções.

E por que os médicos desconfiam que Bellini pode ter sido vítima da ETC e não do Mal de Alzheimer? Porque ele, em seu estilo de vida, usava e abusava das cabeçadas fortes. Numa partida, cortava entre sete e nove bolas com este recurso, contra uma média de cinco cabeçadas dos jogadores de seu tempo.

Tinha impulsão impressionante, o que compensava o seu nada exagerado 1,82 m de altura e fazia com que o seu cérebro se chocasse com a bola com força ainda maior do que o normal.

É preciso lembrar ainda que as redondas de seu tempo, os capotões, eram peças de couro grosso pesadas e duras. Molhadas, passavam de 0,5 kg. Some-se a isso tudo as cabeçadas nos adversários. Anghinah acrescenta detalhes curiosos.

— As concussões são golpes que interrompem por instantes a ação regular do cérebro. Um jogador de futebol americano pode ter mais de 90 delas por jogo e cerca de 1,5 mil na temporada. A ETC é estudada há muitas décadas nos esportes com muito impacto no cérebro, como o boxe.

Segundo ele, "há, inclusive, forte suspeita entre os pesquisadores de que Muhammad Ali, para muitos o maior boxeador de todos os tempos, sofra de encefalopatia traumática e não do Mal de Parkinson, como se diz e pensa. O problema é que o futebol era pouco pesquisado por não ser historicamente relacionado à doença. Mas cerca de dois meses atrás, no dia 26 de fevereiro, o jornal americano The New York Times publicou o primeiro caso comprovado de ETC em um jogador de soccer, ou seja, do nosso futebol. O rapaz era de lá mesmo dos Estados Unidos. Este caso será publicado brevemente em revistas científicas. Isso reforça a desconfiança de que muitos jogadores de bola do Brasil e do mundo, hoje mortos, que tiveram diagnóstico de Parkinson ou Alzheimer, tinham, na verdade, ETC".

As pesquisas no cérebro de Bellini irão ajudar a olhar melhor essa questão. Ele se foi — mas o cérebro, o máximo na simbologia do pensamento, ficou aí para ajudar.

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