RJ: contaminação de água vai além de substância produzida por algas

Engenheira explica que a geosmina não é o que deixou turva água fornecida pela rede de de abastecimento e aponta também poluição dos mananciais

Aspecto da água deixa fluminenses receosos

Aspecto da água deixa fluminenses receosos

Saulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo

Desde o começo deste ano, a população do Rio de Janeiro reclama do gosto e do cheiro de terra da água fornecida pela rede de abastecimento.

Essas alterações são causadas pela geosmina, substância produzida por algas, que precisam de condições específicas para se proliferar, uma delas são nutrientes encontrados no esgoto doméstico.

"A presença de luz no ambiente e de nutrientes na água, mais especificamente de nitrogênio e fósforo favorecem a proliferação dessas algas. E a grande fonte desses nutrientes é o esgoto doméstico", explica a engenheira Iene Figueiredo, especialista em saneamento ambiental e professora da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

"A geosmina não oferece risco, tanto que não tem seu nível controlado pelo Ministério da Saúde. Reclamações de diarreia e outras reações podem ter outros fatores associados", afirma.

Ela confirma que a água pode ser consumida, como já informou a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro).

"Hoje ela pode ser entendida como própria para consumo, apesar de não atender ao padrão de potabilidade", destaca. De acordo com ela, a água fornecida pela companhia não se enquadra no conceito de potável pois não atende aos requisitos de odor e sabor, que estão alterados.

"Embora não haja risco para a saúde, as pessoas não querem beber uma água com gosto e cheiro de terra", pondera.

Ainda de acordo com Iene, a geosmina não deixa a água turva. A cor de barro relatada por alguns moradores pode ser explicada por outros aspectos: o péssimo estado de conservação das instalações prediais e as manobras realizadas para aumentar a pressão da água nos canos que levam a água para as residências.

"Durante a madrugada, a pressão na rede de água aumenta muito, enquanto durante o dia ela dimunui e não chega à caixa d'água. Então são feitas manobras para empurrar a água até o usuário, e a sujeira presente na tubulação também pode ser empurrada nesse processo", explica.

A professora enfatiza, porém, que o esgoto doméstico que polui a nascente dos rios não contamina a água que chega na torneira dos consumidores.

"A ETA Guandu [estação de tratamento de água do rio] funciona desde os anos 50 e oferece água com qualidade para a população, mas o processo de diluição de resíduos está difícil, os rios estão muito contaminados".

O grande problema a ser resolvido, na opinião dela é a falta de controle do lançamento de esgotos em manaciais, que veio à tona com essa crise.

"Ou colocam saneamento nos municípios, ou a gente vai conviver com situações com essa", alerta.