Saúde Surto de meningite em São Paulo: saiba quem pode se vacinar e como se prevenir

Surto de meningite em São Paulo: saiba quem pode se vacinar e como se prevenir

Cinco casos foram registrados em dois bairros da zona leste entre 16 de julho e 15 de setembro; uma mulher morreu

Agência Estado
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ADRIANA TOFFETTI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Em razão do atual surto de meningite meningocócica localizado nos distritos de Vila Formosa e Aricanduva, bairros da zona leste da capital paulista, e da possibilidade de evolução rápida para a forma grave da doença, a prefeitura intensificou a vacinação da população nas áreas afetadas.

Especialistas, no entanto, reforçam que a vacina é indicada a todos, embora na rede pública ela só esteja disponível no calendário para a imunização de crianças, adolescentes e adultos em situações especiais, além de aplicação em casos de surto da doença.

Na terça-feira (27), a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo informou ter intensificado a imunização nas regiões em que foram registrados cinco casos de meningite meningocócica do mesmo tipo, C, entre 16 de julho e 15 de setembro deste ano: um bebê de 2 meses e adultos de 20, 21, 42 e 61 anos de idade. Um mulher, de 42 anos, morreu em 2 de agosto.

"A grande preocupação é que a meningite meningocócica pode ter evolução muito rápida para a forma grave da doença. Quando existe o aumento do número de casos, como está acontecendo agora, configurando um surto, há indicação de vacinação para pessoas da região. Mas quem puder, mesmo de outras regiões, vale a pena se vacinar e se proteger contra a doença", afirma Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Segundo ela, depois de tomada uma dose, é recomendado que a pessoa repita a aplicação dentro de quatro anos.

"Embora não faça parte do calendário adulto de vacinação, por ser uma doença que afeta mais crianças e adolescentes, é importante que a aplicação seja repetida daqui a quatro anos em adultos. No entanto, doses posteriores em adultos, se não forem feitas na rede pública de saúde, devem ser feitas na rede privada, assim como públicos de outras idades não cobertas pela rede pública", disse.

Veja mais informações sobre vacinas abaixo

Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, atualmente, a imunização está sendo feita na área de abrangência de quatro UBSs (Unidades Básicas de Saúde) locais: UBS Formosa II; Assistência Médica Ambulatorial (AMA)/UBS Integrada Guarani; UBS Jardim Iva; e UBS Comendador José Gonzalez.

Também está sendo realizada a busca ativa de pessoas entre 3 meses e 64 anos de idade, entre moradores e trabalhadores da Vila Formosa e de Aricanduva, para que recebam a vacina. Nas últimas duas semanas, já foram imunizadas 7.400 pessoas na região, de acordo com a pasta.

"Para receberem a vacina, pessoas de quaisquer idades que residem na região devem apresentar comprovante de endereço e, no caso de quem trabalha nas proximidades, basta apresentar comprovante trabalhista, como crachá, holerite, carteira de trabalho atualizada ou declaração com nome da empresa, endereço e carimbo", informou a secretaria em nota.

Logo após as notificações de casos, também foram adotadas ações de prevenção e controle pela Coordenadoria de Vigilância em Saúde, como o fornecimento de medicamentos preventivos para pessoas consideradas próximas (parentes ou quem mora na mesma casa).

Outros dois surtos registrados neste ano na capital paulista

Neste ano, outros dois surtos de meningite meningocócica foram registrados na capital paulista. O primeiro aconteceu entre os meses de janeiro e março, no Jardim São Luís, na zona leste da cidade, onde ocorreram três casos e duas pessoas morreram.

No segundo, entre os meses de maio e junho, na região do Pari, zona central, foram dois casos, com um óbito.

A secretaria esclarece que se considera surto da doença meningocócica quando há ocorrência de três ou mais casos do mesmo tipo em um período de 90 dias na mesma localidade.

Conforme a pasta, na região do Pari, embora tenham ocorrido menos de três casos, foi caracterizado um surto, em razão do tamanho da população local.

De janeiro até a última segunda-feira (26), foram notificados 56 casos de doença meningocócica em toda a capital.

Durante o mesmo período de 2019 (janeiro a setembro – ano anterior à pandemia), houve registro de 158 casos da doença, uma queda de 64,5%. Foram nove mortes, ao todo, neste ano até o momento, ante 28 registradas em 2019.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo afirma que realiza monitoramento epidemiológico contínuo junto com os 17 Departamentos Regionais de Saúde. Neste ano, foram notificados 2.841 casos de meningite em todo o Estado.

"A vacinação é fundamental para proteger a população contra diversas doenças. A atualização da caderneta e a adesão às campanhas auxiliam no aumento das coberturas vacinais e, consequentemente, aumentam a proteção", acrescentou a nota.

A meningite é uma doença que mata e pode deixar graves sequelas, principalmente a bacteriana, que tem letalidadade em torno de 20% no Brasil. A vacinação é a forma mais eficiente de se proteger contra a doença.

O que é a meningite?

A meningite meningogócica é transmitida por um grupo de bactérias chamadas meningococos e provoca inflamação na meninge, a membrana que envolve o cérebro e a medula espinhal.

As meningites podem ser causadas por infecções de vários microrganismos, como fungos, vírus e bactérias.

A transmissão se dá por meio das vias respiratórias, ou seja, pelo ar. Pode deixar sequelas neurológicas e auditivas, além de dores crônicas.

No Brasil, o mais comum é o tipo C (que representa 80% dos casos), seguido do tipo B. Os tipos A, W e Y são menos frequentes. As vacinas são consideradas a melhor forma de prevenção contra a meningite e são específicas para cada sorogrupo.

Como é transmitida?

O tipo bacteriano é transmitido de pessoa para pessoa por gotículas e secreções do nariz e da garganta, mas também há bactérias passadas pelos alimentos.

As virais dependem do tipo de vírus. Há casos de contaminação por contato com pessoas e objetos infectados e até por picada de mosquitos, de acordo com o Ministério da Saúde.

"É uma doença que pode ser grave. A transmissão acontece de pessoa para pessoa pelo contato respiratório. Então, o uso de máscara facial protege contra a transmissão. É uma doença para a qual a vacina está disponível para crianças e adolescentes, por isso é importante atualizar a carteira de vacinação", explica a infectologista da Unicamp.

Quais os sintomas da doença?

A meningite costuma começar com febre, dor no corpo, dor de cabeça, e um sinal que preocupa muito é o aparecimento de manchas na pele. Isso indica a necessidade de atendimento médico de urgência, para a coleta de exames e o início da administração de antibióticos.

Além disso, no início do quadro clínico, a meningite pode não ser de diagnóstico fácil. Os sintomas variam conforme a idade do doente. 

Sintomas e sinais mais frequentes no bebê:

• Febre, mãos e pés frios (dificuldade de circulação)

• Baixa atividade (criança "largadinha") ou irritabilidade, choro intenso e inquietação

• Rigidez de nuca (dificuldade para flexionar a cabeça)

• Recusa alimentar

• Gemidos e sonolência, com dificuldade para despertar

• Manchas vermelhas na pele

• Convulsões

• Fontanela abaulada (moleira encurvada)

• Vômito e diarreia

Sintomas na criança maior, no adolescente e no adulto:

• Febre alta

• Dor de cabeça

• Vômitos, muitas vezes em jato

• Rigidez de nuca (dificuldade para flexionar a cabeça)

• Sonolência

• Convulsões

• Dor nas articulações

• Aversão à luz

Qual a meningite identificada no atual surto da cidade de São Paulo?

Segundo a prefeitura de São Paulo, todos os casos são de meningite meningocócica do mesmo tipo, C.

Quais as diferenças nos tipos de transmissão, de acordo com o Ministério da Saúde?

Entre as ocorrências, 99% são virais ou bacterianas.

"A meningite causada por bactérias, como a meningite pneumocócica, que tem maior incidência entre crianças pequenas, e a meningite meningocócica, que pode afetar todas as faixas etárias, podem se desenvolver de forma mais grave, causar infecção generalizada, levando o paciente a óbito rapidamente. Já a viral evolui de forma mais leve, sendo a cura espontânea e sem sequelas", afirma Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Há ainda a meningite causada por fungos e parasitas, mas é algo muito mais difícil de ocorrer.

Meningite bacteriana

Geralmente, as bactérias que causam meningite bacteriana se espalham de uma pessoa para outra por meio das vias respiratórias, por gotículas e secreções do nariz e da garganta.

Já outras bactérias podem ser transmitidas por meio dos alimentos, como é o caso da Listeria monocytogenes e da Escherichia coli.

Meningite viral

As meningites virais podem ser transmitidas de diversas maneiras, a depender do vírus causador da doença.

No caso dos enterovírus, a contaminação é fecal-oral, e os vírus podem ser adquiridos por contato próximo (tocar ou apertar as mãos) com uma pessoa infectada, ao tocar em objetos ou superfícies que contenham o vírus e depois tocar nos olhos, no nariz ou na boca antes de lavar as mãos, ou ao trocar fraldas de uma pessoa infectada, beber água ou comer alimentos crus que contenham o vírus. Já os arbovírus são transmitidos por meio da picada de mosquitos contaminados.

Meningite causada por fungos

Geralmente, os fungos são adquiridos por meio da inalação dos esporos (pequenos pedaços de fungos), que entram nos pulmões e podem chegar até as meninges.

Alguns fungos encontram-se em solos ou ambientes contaminados com excrementos de pássaros ou morcegos. Já um outro fungo, chamado candida, que também pode causar meningite, via de regra é adquirido em ambiente hospitalar.

Meningite causada por parasitas

Os parasitas que causam meningite não são transmitidos de uma pessoa para outra; normalmente, infectam animais, e não pessoas. As pessoas são infectadas pela ingestão de produtos ou alimentos contaminados que contenham a forma ou a fase infecciosa do parasita.

Quais vacinas protegem contra a meningite?

Desde julho, o PNI (Programa Nacional de Imunizações) recomenda a ampliação do público apto a receber a vacina meningocócica C (Conjugada), que envolve trabalhadores da saúde e crianças de até 10 anos. A extensão do público-alvo vai até fevereiro de 2023.

A meningocócica C faz parte do Calendário Nacional de Vacinação, sendo indicadas duas doses, aos 3 e aos 5 meses de idade, e um reforço, preferencialmente aos 12 meses.

Segundo a nova orientação do Ministério da Saúde, se a criança de até 10 anos não tiver se vacinado, deve tomar uma dose da meningocócica C.

Já os trabalhadores da saúde, mesmo com o esquema vacinal completo, podem ser imunizados com mais uma dose.

Embora a faixa etária com o maior risco de adoecimento seja a das crianças menores de 1 ano de idade, adolescentes e adultos jovens são os principais responsáveis pela manutenção da circulação da doença.

Dessa forma, o Ministério da Saúde está disponibilizando temporariamente a vacina meningocócica ACWY para a faixa etária não vacinada entre 11 e 14 anos.

O imunizante está disponível no Calendário Nacional de Vacinação para adolescentes entre 11 e 12 anos, mas, até junho de 2023, quem tem entre 13 e 14 anos também pode receber a dose.

Segundo a pasta, a ampliação tem como objetivo reduzir o número de portadores da bactéria na nasofaringe.

Em crianças menores, a meningocócica ACWY não está disponível na rede pública. Na rede privada, a vacina que inclui o tipo C é a conjugada quadrivalente ACWY, ao custo médio de R$ 360 por aplicação.

Geralmente, ela é administrada em quatro doses até 1 ano de idade, dependendo da marca da fabricante. Também é recomendado um reforço entre os 5 e os 6 anos, e outra dose aos 11 anos. A vacina pode ser aplicada em adultos.

Embora esteja atrás somente do tipo C em número de casos, em média 20%, a vacina meningocócica B está disponível somente na rede particular.

Ela custa, em média, R$ 600 e é administrada em três doses, entre 2 meses e 1 ano e meio.

A SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) também indica a imunização a grupos de alto risco, como portadores de HIV.

A pneumocócica conjugada 10-valente (VPC10) faz parte, desde 2010, do calendário de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). Protege contra pneumonia e também meningite.

São dadas duas doses de VPC10, com intervalo mínimo de 2 meses, no primeiro ano de vida da criança, além de um reforço, quando ela completa 1 ano de idade.

Na rede privada, a pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13) é mais abrangente, protegendo contra 13 sorotipos de pneumococos.

Geralmente, ela é administrada em quatro doses até 1 ano e três meses de idade, dependendo da marca do fabricante. Custa em torno de R$ 280.

A vacina conjugada contra a bactéria Haemophilus influenzae tipo b (Hib) está disponível nas redes pública e particular.

A proteção contra a meningite provocada pela Haemophilus influenzae tipo b pode ser aplicada individualmente, mas geralmente é administrada pela vacina hexavalente, que também protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e poliomielite, ou pela pentavalente, que protege contra as mesmas doenças exceto a poliomielite.

No SUS, a vacina é disponibilizada em três doses: aos 2, 4 e 6 meses de idade. Na rede particular, quatro doses são aplicadas, entre os 2 meses e 1 ano e meio de idade.

Pessoas com doenças que comprometem a imunidade ou a função do baço (órgão que tem papel fundamental na proteção contra essa bactéria), ou aquelas que tenham retirado cirurgicamente esse órgão, devem tomar a vacina. A dose individual custa em torno de R$ 150. O preço da pentavalente e da hexavalente fica em torno de R$ 250 cada uma.

Além das vacinas descritas acima, ao nascer, toda criança toma uma dose única da vacina BCG, que protege contra a meningite turberculosa.

A imunização impede que o bacilo de Koch, a bactéria responsável pela tuberculose, se instale nas meninges.

Ela é oferecida na rede pública e também na maternidade, gratuitamente. Em momentos em que a BCG está em falta, recomenda-se a aplicação ao sair do hospital; ela pode ser dada na rede pública ou na particular. O custo na rede privada é em torno de R$ 130.

Como está a vacinação na capital paulista?

Como parte do calendário vacinal de rotina na rede pública de saúde, o imunizante contra a meningite meningocócica C deve ser aplicado em bebês aos 3, 5 e 12 meses. O de meningite meningocócica ACWY atualmente é aplicado na faixa etária de 11 a 14 anos de idade, pois a vacinação foi ampliada no último dia 19 no município também para adolescentes de 13 e 14 anos, até junho de 2023, conforme definição do PNI.

"É fundamental que pais e responsáveis mantenham a vacinação de seus filhos em dia, para protegê-los das chamadas doenças imunopreveníveis, como meningite meningocócica, poliomielite, difteria, coqueluche, sarampo e caxumba, entre outras. Vacinas salvam vidas, e isso ficou ainda mais evidente na pandemia de Covid-19", afirmou o secretário municipal da Saúde, Luiz Carlos Zamarco.

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