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Como contato entre humanos e animais silvestres gerou epidemias

Expansão da população mundial e contato com ambientes silvestres estão entre motivos para surgimento de novas e graves doenças

Tecnologia e Ciência|Guilherme Padin, do R7

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Interferência humana em ambientes silvestres tem causado doenças infecciosas
Interferência humana em ambientes silvestres tem causado doenças infecciosas

O aumento populacional e o maior contato humano com áreas e animais silvestres são tidos por cientistas como razões fundamentais para a ocorrer as chamadas zoonoses, doenças infecciosas transmitidas entre animais e humanos, nas décadas recentes, como a pandemia do novo coronavírus, vírus causador da covid-19.

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Por todo o mundo, nos últimos 50 anos, a proximidade humana com animais e a interferência em seus ambientes deu início a epidemias como a da gripe suína, da gripe aviária, do vírus Nipah, do ebola e outros tipos de coronavírus – como Sars e Mers. Outro exemplo conhecido é o vírus da Aids, originário dos primatas, que também são hospedeiros da febre amarela, cuja transmissão se dá pelo mosquito Aedes aegypti.

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Em seus hospedeiros originais, em geral, esses vírus não são danosos, mas ao entrarem em contato com outros animais ou com os seres humanos podem causar consequências graves.

“[Nas últimas décadas], tivemos uma série de ocorrências de epidemias com maior importância. Isso se deve a uma expansão da população humana adentrando locais onde vivem esses animais naturalmente”, afirma Marcelo Burattini, do Departamento de Infectologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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David Quammen, divulgador científico e autor de 15 livros, escreveu “Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic” (“Spillover: infecções animais e a próxima pandemia humana”), obra de 2012 que previu uma pandemia parecida com a da covid-19 nos anos seguintes.

Quammen considera que com o aumento da população mundial – “7,7 bilhões de pessoas vivendo concentradas em cidades, juntas e próximas” –, o vírus que infectar uma pessoa nos tempos atuais “pode se tornar um dos vírus de maior sucesso no mundo, infectando humanos por todo o planeta”.

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Para Camila Sachelli, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutora em Ciências (“Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro”), “a atividade exploratória do homem tem propiciado estes ‘encontros’ indesejados”.

Sachelli explica que o crescimento populacional, especialmente a partir de 1950, implicou na expansão das áreas urbanas, feito a partir da exploração e desmatamento de áreas silvestres – segundo ela, agricultura e pecuária também causaram impacto. Assim, se impulsionou o contato com animais e as doenças desses ambientes.

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Na avaliação dos especialistas, há, portanto, responsabilidade humana na atual pandemia, assim como em outras zoonoses que assolaram o planeta nas décadas recentes.

“Todas as vezes em que o homem é acometido por uma zoonose é porque a espécie humana esteve num ambiente de transmissão da doença entre os animais. Em todos casos, sim, [há responsabilidade]. O homem de alguma maneira perturba o ciclo enzoótico dessa doença e a ocasiona em humanos”, afirma Burattini.

Veja também: ‘Temos que repensar escolhas’, diz autor de livro que previu pandemia

A respeito do novo coronavírus, Sachelli pontua seis motivos que, em sua avaliação, evidenciam erros das pessoas em como lidar com o meio ambiente e evitar zoonoses.

Segundo a bióloga, estes motivos foram “a exploração de áreas silvestres; o consumo excessivo e sem controle sanitário de carne de animais exóticos; criações de mercados onde se proporciona o contato entre animais e patógenos que não se encontrariam na natureza; retardamento da notificação mundial sobre o surto iniciado em Wuhan e sua gravidade; ampla mobilidade proporcionada por diversos meios de transportes, especialmente o aéreo – o mundo inteiro demorou demais para criar barreiras sanitárias nos aeroportos; e, por fim, a negligência às informações que pesquisadores já vinham apresentando há muito tempo”.

Há como se reverter um quadro como este?

David Quammen defende uma revisão do comportamento humano e mudanças drásticas de hábitos. De acordo com o autor, um conjunto de fatores poderia ter um impacto potente para que menos epidemias virais ocorressem no futuro, como quantos filhos teremos (ou se teremos filhos), o quanto viajamos e nos deslocamos e maior adesão ao veganismo.

“Temos que repensar todos os nossos usos de recursos, todas as escolhas que fazemos”, diz ele, que garante só viajar a trabalho e não tem filhos.

Para Marcelo Burattini, da Unifesp, em termos práticos, não há como evitar o contato humano com ambientes e animais silvestres, mas há tentativas possíveis para se amenizar o problema. “Podemos propor a adoção de melhores práticas toda vez que se expandir a ocupação humana, com tecnologia e planejamento. Ao se levar atividade humana em áreas silvestres, que seja depois de um estudo ecológico nesses locais”, sugere o infectologista.

Em relação à alimentação e redução populacional, Burattini diz que quaisquer políticas públicas neste sentido devem ser por meio da educação e com orientações à população – sem imposições. “É um tipo de atuação limitado”, afirma.

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Camila Sachelli observa que a pandemia do novo coronavírus traz à tona uma “enorme discrepância social, quando percebemos que no nosso país há muitas famílias sem condições de isolar um familiar em outro cômodo ou mesmo não têm acesso a água para lavar as mãos, pois vivem em condições de extrema precariedade”.

Para Sachelli, este momento ressalta, também, a importância de se apoiar na ciência para buscar respostas sobre o que se é desconhecido.

“Vemos que não estamos sozinhos neste planeta quando algo tão microscópico como um vírus causa um impacto gigantesco sobre a nossa sociedade. Tenho a esperança de que ao repensarmos tudo isso possamos reavaliar nossas ações de maneira ampla e reencontrarmos o equilíbrio”, afirma a doutora em ciência.

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