Mulheres ampliam participação na pesquisa, mas enfrentam barreiras na tecnologia
Mulheres ainda são minoria na graduação; professoras expõem dificuldades e dão dicas para meninas que planejam seguir a carreira
Tecnologia e Ciência|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Embora tenham avançado no acesso ao ensino superior e à pesquisa científica, as mulheres ainda encontram obstáculos para se entrosar e permanecer em cursos e carreiras de ciência e tecnologia, áreas historicamente dominadas por homens.
No Brasil, elas já representam 52% dos pesquisadores vinculados a grupos de pesquisa, segundo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com base em dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), mas seguem pouco representadas em setores estratégicos, como tecnologia da informação, e em posições de liderança.
A discrepância aparece com mais força nos cursos e profissões ligados à computação. No mercado de tecnologia da informação, apenas cerca de 19% dos profissionais são mulheres, de acordo com dados do Observatório Softex, evidenciando que o desafio não está apenas no ingresso, mas também na permanência e ascensão profissional.
Nesta quarta-feira (11), no Dia da Mulher e Menina na Ciência, o R7 reuniu histórias de cientistas pioneiras que, além de contarem suas trajetórias, dão dicas para meninas que enxergam no mundo científico e tecnológico o seu futuro.
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Referências
Para a professora e pesquisadora da UFPB (Universidade Federal da Paraíba) Josiane Cruz, a decisão de seguir carreira científica foi diretamente influenciada pelas referências que encontrou ao longo da formação, especialmente no ensino médio e na graduação.
“É essencial que as meninas de hoje tenham referências. Isso começa em casa, na escola, na vida. Elas precisam saber que têm o direito de escolha de serem o que quiserem, inclusive serem cientistas”, afirma.
Ao longo da carreira acadêmica, Josiane diz ter vivenciado situações recorrentes de desvalorização da sua voz em ambientes majoritariamente masculinos, principalmente na pós-graduação.
“Minha opinião como mulher era frequentemente considerada menos importante do que a de colegas homens, mesmo quando era tecnicamente superior”, relata. Ainda assim, ela afirma que nunca deixou de se posicionar, mesmo em contextos hostis, como forma de ocupar espaços e abrir caminhos para outras mulheres.
“Sensação de não pertencimento”
A dificuldade de se sentir parte do ambiente acadêmico também é percebida por estudantes. Clara Ferreira, de 20 anos, que cursa engenharia de software, conta que o predomínio masculino no curso gerou insegurança logo no início da graduação.
“É um curso de maioria masculina, e isso, no começo, me amedrontava. Mesmo sabendo disso antes de escolher a profissão, havia o medo de não ser ouvida ou de não conseguir criar vínculos ao longo da graduação”, diz.
Esse sentimento não é infundado. Segundo a professora Josilene Aires Moreira, que trabalha no Centro de Informática da UFPB e é coordenadora do curso de engenharia da computação, a baixa presença feminina contribui diretamente para a evasão. Atualmente, as mulheres representam apenas 17% dos estudantes do Centro de Informática, enquanto os homens correspondem a 83%.
Desde 2014, Josilene coordena o projeto Meninas na Ciência da Computação, que atua em dois eixos: a atração de alunas do ensino médio e a prevenção da evasão no ensino superior, por meio da criação de ambientes de acolhimento e fortalecimento da comunidade feminina.
“Em pesquisas com as estudantes, identificamos que as principais barreiras estão na segregação de carreiras desde a infância, com pais e educadores dizendo que ‘essa profissão não é para mulher’, além da ausência de apoio em cursos com maioria masculina”, explica.
Avanços
Apesar dos desafios, as mulheres são maioria entre bolsistas de mestrado e doutorado no Brasil — cerca de 54% e 53%, respectivamente, segundo o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
No entanto, elas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade do CNPq, consideradas as mais prestigiadas da carreira científica. O dado reforça que o avanço numérico não se traduz automaticamente em igualdade de oportunidades.
Para as especialistas, a ausência feminina em posições de destaque e decisão impacta não apenas a trajetória das pesquisadoras, mas também a diversidade e a inovação científica no país.
Dicas
Para a professora Silvia Silva da Costa Botelho, pró-reitora de Inovação e TI da FURG (Universidade Federal do Rio Grande) e pesquisadora da Unidade Embrapii Centro de Robótica e Ciência de Dados (i-TEC FURG), o maior desafio é romper a ideia de que meninas precisam “estar prontas” para ingressar na área.
Se eu pudesse dar um conselho direto, seria: você não precisa se sentir pronta para começar — você precisa começar para se sentir pertencente. Procure um primeiro espaço seguro para dar o passo: um projeto de iniciação, um grupo de estudos, uma equipe de robótica, um laboratório ou um curso rápido
Segundo Silvia, o aprendizado em tecnologia é cumulativo, e a confiança se constrói na prática.
“Cada pequeno projeto vira confiança. E mais importante: não caminhe sozinha. Muitas vezes a virada acontece quando a pessoa encontra um time, um problema real para resolver e alguém que diz ‘eu te ajudo’. Pertencimento não é pré-requisito — é consequência de participação, apoio e prática”, conclui.
*Sob supervisão de Augusto Fernandes
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