Alta oferta de trigo no mundo evita “pancada” do dólar e segura preço do pãozinho francês
Em 2014, moeda valia R$ 2,20 e chegou a R$ 4,16 em 2016. Produto seguiu inflação do período
Economia|Raphael Hakime, do R7
O setor de panificação assegura: se não fosse a alta oferta de trigo no mercado mundial, que fornece mais de 5 milhões de toneladas ao Brasil todos os anos, a valorização do dólar sobre o real teria deixado a farinha de trigo mais cara e, em consequência, o preço do seu pãozinho francês teria subido bem acima da inflação nos últimos meses (veja o raio-X das padarias brasileiras abaixo).
O diagnóstico é do presidente do Sampapão, entidade que congrega o Sindicato e Associação dos Industriais de Panificação e Confeitaria de São Paulo e o IDPC (Instituto do Desenvolvimento de Panificação e Confeitaria), Antero José Pereira.
— Mesmo com a alta do dólar, não houve repasse para o trigo porque é uma commodity [matéria-prima básica] e o mundo está abarrotado de trigo. Com isso, o preço desse trigo baixou muito porque a oferta está alta, e os moinhos estão conseguindo comprar a um preço acessível. Antes, se tivessem que repassar a alta do dólar no trigo, que passou de R$ 2,20 para R$ 4, para o pãozinho, o produto teria dobrado de preço.
Mesmo na crise, padarias mantêm empregos e pagam até R$ 5.000 de salário
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Em abril de 2014, a moeda americana chegou a ser vendida por R$ 2,19. Já em janeiro de 2016, o dólar comercial era negociado a R$ 4,16 no País por causa da instabilidade política, que se refletia na economia nacional. Nesta semana, o dólar recuperou quedas sucessivas da semana anterior e chegou a valer R$ 3,21.
Em 2016, o pão subiu 5,19% de janeiro a julho, enquanto a inflação oficial medida pelo IPCA ficou em 4,96%.
O Brasil consome, aproximadamente, 10 milhões de toneladas de trigo por ano, mas produz cerca de 5 milhões. Então, precisa de 5 milhões de toneladas de trigo comprados de outros países por ano. Além de volume, as panificadoras do País requerem alto nível de qualidade — e só o trigo importado atende perfeitamente às necessidades da indústria de pães.
O presidente do conselho deliberativo da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), Marcelo Vosnika, explica que o setor de panificação brasileiro consome a maior parte do grão comprado de outros países — especialmente Argentina, Uruguai e Paraguai (veja quadro abaixo).
— O consumo do Brasil, mais de 75%, é para panificação. O restante é para macarrão, biscoito, farinha de pacote. Esse tipo de trigo realmente não tem em excesso no Brasil, a demanda é muito grande. O Rio Grande do Sul exporta trigo, mas não dá uma qualidade desejada pela panificação e ao mesmo tempo o Brasil importa trigo para o mercado doméstico.
O presidente do sindicato explica que, nos últimos 12 meses, o pão francês subiu conforme a inflação do período — 8,74% nos últimos 12 meses encerrados em julho de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além disso, ressalta que o trigo representa parte pequena do preço final do pão.
— Claro que o pãozinho aumentou no último ano por causa da inflação. Hoje em dia, o trigo representa só 20% na fabricação do pão. O pão não é só feito de trigo, mas de energia, de água, de aluguel do estabelecimento, custo da mão de obra, custo da embalagem, enfim, todos os outros itens subiram. Então é natural que, mesmo não aumentando a farinha, o pão suba um pouquinho.
O setor de panificação brasileiro é responsável por 818 mil empregos diretos e 1,8 milhão de postos de trabalho indiretos no Brasil. Apesar da crise econômica, que atingiu praticamente todos os setores em 2015, o segmento também responde por fatia relevante da geração de riquezas do País.
No ano passado, o setor sofreu uma queda no faturamento de 2,5%, já descontada a inflação. Em 2016, essa diminuição se estabilizou, e a partir de janeiro, parou de cair. Pereira diz acreditar que, “agora no segundo semestre, a roda começou a andar novamente, ou seja, não vamos crescer, mas deveremos atingir a inflação”.
— Então, nosso crescimento vai ser zero. Eu diria que vamos igualar com a inflação, então o setor ficará sem crescimento real em 2016.
Em 2015, o faturamento do setor de panificação foi de R$ 72 bilhões. Para 2016, o Sampapão estima um crescimento de 6% ou 7%, conforme a inflação oficial, o que significa R$ 80 bilhões de faturamento em 2016.
O setor representa cerca de 2% do PIB. Só São Paulo, que representa 40% do Brasil, são 12,8 mil padarias, que respondem por 40% do faturamento total do setor no País. Isso quer dizer nada menos que R$ 24 bilhões.