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Estudar é uma realidade impensável para meninas do Norte da Nigéria, diz imigrante 

Segundo a nigeriana Angela, seu País ainda tem escolas só para meninas no Oeste e no Sul 

Educação|Mariana Queen Nwabasili, do R7

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Angela é contadora e professora no Brasil
Angela é contadora e professora no Brasil

Originária da região oeste da Nigéria, Agela Apunike, 47 anos, estudou contabilidade em seu País na Imo State University. Apesar de ter tido a oportunidade de finalizar o ensino superior, a professora de inglês e assistente financeira, que hoje mora no Brasil, conta que estudar é uma realidade impensável para as nigerianas do norte. 

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— Muitos pais de meninas que vivem no Norte da Nigéria não mandam suas filhas para a escola, porque acreditam que as mulheres só servem para procriar e cuidar de casa. Consideram a mulher como um segundo cidadão, e que quem tem que estudar e ganhar a vida é o homem, diz.

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Angela passou a infância no estado de Anambra, área onde, como no Sul do País, predominam religiões cristãs. As ideias democráticas que surgiram após a independência da Nigéria, em 1960, influenciaram as famílias dessas regiões para que garantissem às meninas e às mulheres acesso aos estudos. Mas, segundo Angela, mesmo nessas áreas, a situação nem sempre foi assim.

— Meninas das regiões cristãs tiveram problemas para estudar entre os anos de 1930 e 1960. Nessa época, as mulheres do oeste e do sul não estudavam, porque prevaleciam em todo o País valores da cultura africana no geral, que favorece os filhos homens em muitos aspectos.

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Por conta dessa realidade, a mãe de Angela não teve acesso aos estudos, mas durante a vida passou a enxergá-lo como um direito a ser garantido não só aos seus filhos, mas também às suas filhas.

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No momento em que a Nigéria virou uma república federativa, em 1964, consolidou-se o acesso às educação para meninas do sul e do oeste. Para Angela, nesse período, o “povo nigeriano entendeu a necessidade de se educar as mulheres para se educar a nação”.

— Meus pais compraram a ideia e educaram as cinco filhas deles, além dos três filhos. Pudemos estudar até onde queríamos, conta.

Língua materna

Por ser um País multiétnico, a Nigéria coloca no currículo escolar aulas das línguas das tribos predominantes nas diferentes regiões —são três as principais etnias nigerianas: igbo, ioruba e alsa, porém a população é composta por mais de 200 tribos.

Angela é da etnia igbo. Durante o ensino fundamental e o ensino médio cursados em escolas estaduais, além das línguas oficiais da Nigéria (inglês, devido à colonização britânica, e francês devido à colonização francesa das nações vizinhas), ela teve aulas para aprender a sua língua materna.

— Tínhamos aula de igbo e francês, porque, depois do inglês, o francês é considerado a nossa segunda língua oficial para a comunicação com os países vizinhos. 

Escola só para meninas

Apesar de garantirem acesso à educação de maneira universal, até hoje as regiões oeste e sul da Nigéria ainda mantêm escolas de ensino médio só para meninos e instituições onde apenas garotas podem estudar. Mixed School é o nome dado à escola que permite que o ensino seja transmitido a alunos de ambos os sexos nas mesmas turmas e classes. 

No ensino médio, cursado na década de 1980, Angela estudou em um colégio interno estadual só para meninas. Sobre a experiência, prefere mencionar apenas ter compreensão do porque recebeu uma educação separada dos garotos.

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— Essa divisão de sexo nas escolas existe porque Nigéria é um País que preza muito pela educação moral. As famílias nigerianas têm receio de que se misturem meninos e meninas na escola e que isso leve eles a namorarem ou casarem cedo e, assim, a desviarem o foco da educação.

— Os pais escolhiam em que tipo de escola as filhas deveriam estudar e até hoje é assim no País, completa.

Escolhas

Para se casar, a contadora terminou o ensino médio na Nigéria e veio morar no Brasil em 1991. Antes de embarcar para a América, Angela precisou fazer o WASSCE (West African Senior School Certificate Examination), exame aplicado a todos os países da África ocidental e que, de maneira similar ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), serve aos africanos como certificado de conclusão do ensino médio e como vestibular para o ingresso no ensino superior. 

Já no Brasil, casada com farmecêutico e também nigeriano Alexcoman Apunike, Angela teve três filhos. Em 1999, aos 30 anos de idade, ela decidiu retornar à África para educá-los e cursar contabilidade na Imo State University, também localizada na região oeste do País. Angela e os filhos voltaram para o Brasil em 2011.

— Levei os meus filhos para estudar na Nigéria, porque acho que lá o ensino médio é melhor do que o que é oferecido aqui. Tanto que eles voltaram para o Brasil e passaram no vestibular da USP na primeira tentativa, conta.

Educação nigeriana 

Atualmente na Nigéria, os estudantes passam três anos na pré-escola, seis anos no ensino fundamental e mais seis anos no ensino médio. Esta última etapa da educação básica é dividida em duas fases: o secondary junior school (ensino médio junior) e o secondary senior school (ensino médio sênior). 

— O secondary junior school é como um ensino técnico e tem três anos de duração. Após esse período, o aluno presta uma prova e ganha um certificado de conclusão dessa primeira parte dos estudos, explica Angela.

Já no secondary senior school, segundo Angela, os alunos nigerianos aprimorarm o ramo que querem seguir na universidade. As disciplinas cursadas passam a ser apenas aquelas ligadas à carreira profissional escolhida. Depois disso, todos os estudantes fazem a prova WASSCE, e, se aceitos em uma universidade, no primeiro semestre de aulas revisam os conteúdos aprendidos no final do ensino médio. 

Para Angela, a forma como a educação básica na Nigéria está estruturada garante aos jovens uma educação de excelência: "Nós, nigerianos, podemos viajar para qualquer canto do mundo e continuar os estudos, porque temos uma base educacional de muito boa qualidade. A única etapa do ensino que fica meio fraca é o ensino superior."

— Nas áreas de exatas e biológicas, muitas universidades da Nigéria não têm estrutura para aulas práticas. Devido a essa falta de infraestura a formação superior em medicina e em indústrias no meu País não é comparável à existente no Brasil. Aqui, um farmacêutico, por exemplo, tem mais laboratórios e, por consequência, mais bagagem para se desenvolver, avalia. 

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