Análise: A crise do Vaticano e a modernidade
O choque entre a tradição e o mundo contemporâneo estão desgastando o poder da Igreja Católica
Internacional|Fábio Cervone, colunista do R7

Já faz alguns anos que a imagem da Igreja Católica tem sido abalada por diferentes tipos de conflitos e escândalos. A renúncia de Bento 16 e a sucessiva escolha de Francisco foram fatos que recolocaram o catolicismo nos noticiários sem necessariamente alimentar o recente legado negativo. Esse fato em meio a tantas dificuldades permitiu a abertura de uma janela de esperança para uma possível renovação. Porém, sem uma reformulação política profunda o Vaticano dificilmente manterá seu papel de destaque na sociedade atual.
Este período conturbado vivido pela igreja expôs muitos vícios e fragilidades polêmicas que motivaram incontáveis debates. Sem rodeios é possível citar os casos de abusos sexuais, a corrupção interna, o jogo sujo de poder, a intolerância cultural entre outros problemas que mancharam a última década da história católica. Mas a raiz desses desmoralizantes entraves sistêmicos está na estrutura política e executiva dessa gigantesca organização religiosa que aparentemente ficou parada no tempo.
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Apesar dos tropeços frequentes, é visível que a sociedade contemporânea aperfeiçoou consideravelmente suas instituições e está de forma orgânica assimilando os valores democráticos e de respeito a todos em seu comportamento cotidiano. Por isso, ainda soa bastante dissonante o funcionamento burocrático, centralizador, impermeável e conservador adotado até hoje pela Igreja Católica.
Essas características de origem autoritária estão distanciando o Vaticano da sociedade que é o oxigênio e a razão dessa organização. A população mundial, sobretudo as nações ocidentais, já reconheceram os benefícios dos mecanismos de vigilância e participação civil hoje presentes nas instituições de viés público. Com isso, os fiéis católicos e outros setores aumentaram a cobrança por reformas que aproximem a igreja das demais entidades contemporâneas. Mesmo expostos aos barulhentos protestos e questionamentos internos e externos, o Vaticano se abre muito poucos aos anseios modernos.
As estatísticas e as manifestações públicas evidenciam o processo de fissão entre a realidade cultural da sociedade e a relevância da Igreja Católica na vida das pessoas. Os fiéis paulatinamente estão deixando de se identificar com a figura que representa o Vaticano. Isto acontece porque há muito tempo, mesmo após as reformas mais recentes, a postura elitista e corporativista incorporada pelos gestores dessa organização religiosa está burocraticamente engessada e se sobrepôs ao verdadeiro papel de uma instituição humana desse gênero.
Mesmo em declínio, a Igreja Católica ainda possui uma grande relevância na atualidade, mas boa parte dos instrumentos que permitem a existência desse status quo depende de seus artifícios financeiros e esquemas políticos. A fissura entre a manifestação popular e as inflexíveis engrenagens que movimentam a instituição católica tem origem exatamente no fato de que os instrumentos de poder historicamente eficazes que viabilizaram a postura arrogante e elitista dos condutores da igreja na atualidade estão resultando no seu isolamento social.
Não será um novo papa escolhido dentro desse sistema arcaico que mudará a condição estática que vive a Igreja Católica. É muito difícil que qualquer um daqueles que se realizaram socialmente e profissionalmente dentro dessa estrutura terá conhecimento, disposição e acima de tudo poder para uma modernização funcional do Vaticano.
O homem produz as instuições que consequentemente tornam-se retratos fidedignos de seus realizadores e seguidores. No caso aqui exposto, há um claro descompasso entre o que é a sociedade moderna e o funcionamento da Igreja Católica. Invariavelmente, a organização está perdendo suas funções, pois insiste em ignorar os anseios da sociedade moderna por transparência, igualdade e democracia. A crise no Vaticano é uma alegoria do choque entre o mundo 3.0 e o passado.
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