Internacional

1/2/2013 às 00h30

Cidade histórica da Síria, Aleppo vai desaparecendo entre explosões e atiradores de elite

Cidade mais rica do país conseguiu passar meses à margem da guerra, mas agora enfrenta violência diária 

Edrien Esteves, especial para o R7, em Azaz (Síria)

Prédio destruído em Aleppo: moradores ainda tentam levar a vida em meio à guerra Edrien Esteves

Depois de conhecer a cidade de Azaz, no norte da Síria, e de visitar o campo de refugiados que brotou na região, era hora de realizar a grande missão da viagem: conhecer Aleppo. Na quarta reportagem da série “Vidas roubadas na Síria”, o R7 entra em Aleppo, o centro econômico do país. A cidade passou meses sem sentir os efeitos da guerra mas, atualmente, assiste aos mais ferrenhos combates em suas ruas.

A distância entre Azaz e Aleppo é de cerca de 50 km, mas para chegar com segurança ao nosso destino, é preciso realizar um caminho alternativo.

No carro estão o jornalista, um fotógrafo italiano, um produtor sueco de origem libanesa e o chamado “fixer”, uma espécie de faz-tudo para ajudar estrangeiros, sobretudo jornalistas que querem ver a guerra de dentro.

Ainda em Azaz, é possível notar mais uma vez a dimensão da guerra: um número incontável de casas reduzidas a entulho e residências esburacadas por bombas.

Saindo da cidade, meu parceiro percorre um caminho por diversas vilas para “eliminar os riscos”.

O tempo estimado de viagem é de duas horas, passando por um uma paisagem de intensa vida rural, com pastores conduzindo ovelhas, lavradores e plantações de oliva.

No caminho, há um posto de controle do Exército Livre da Síria (ELS), formado por soldados rebeldes que tentam derrubar o presidente Bashar al Assad do poder.

Os rebeldes só permitem que as fotos sejam tomadas pelo fato de eu ser brasileiro. Muitos sírios adoram o Brasil e conhecem nossos jogadores de futebol.

No entanto, outros jornalistas recomendam que não se declare ser brasileiro, pelo fato de o Brasil ainda não ter se posicionado contra o regime de Assad.

Reportagem 1: Sírios se dividem entre viver como refugiados ou pegar em armas e ir à guerra

Reportagem 2: Após fugirem da guerra, refugiados sírios enfrentam frio e falta de alimentos em tendas

No posto de controle, enquanto empunham suas armas, os rebeldes gritam "Allahu Akbar", que significa "Deus é maior". A maioria deles são muçulmanos de origem sunita, grupo que representa 74% da população síria.

A família Assad, por outro lado, é de origem alauíta, grupo minoritário que corresponde a 10% da população e que controla os principais postos do governo, do Exército e da economia do pais.

Os rebeldes nos mostram buracos no asfalto da estrada e destroços de projéteis que, segundo eles, são resultado de ataques dos caças da Força Aérea Síria.

A viagem continua e, a cerca de 20 Km de Aleppo, há uma coluna de fumaça atrás de um morro. Nesse momento, três morteiros riscam o céu.

Ao entrar em Aleppo pelo noroeste da cidade, é possível notar conjuntos residenciais destruídos por bombardeios.

Nessa área, a menos de 500 m da zona de combate, as pessoas tentam levar a vida normalmente. Em alguns lugares a vida até parece normal, com o comércio funcionando e as pessoas andando pelas ruas.

Mas à medida que se avança por Aleppo, uma das mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo, os sinais da guerra ficam mais evidentes.

Em uma avenida do bairro Salah al Din, o comandante de um grupo de 20 rebeldes explica que o ônibus atravessado na via serve para protegê-los dos tiros dos atiradores de elite, soldados do governo que ficam no alto dos edifícios, em locais estratégicos. A tensão é grande, como mostram os olhares dos rebeldes. Alguns deles não permitem ser fotografados.

Galeria de fotos: crianças são maioria em campo de refugiados na Síria

Fotos: A batalha por Azaz: cidade Síria revela cenário de destruição após meses de guerra

O “fixer” conversa com o comandante, que nos permite acompanhá-lo pelas ruas do bairro.

Ele aponta onde os atiradores das Forças Sírias estão posicionados e o local exato da frente de batalha. Dali em diante, é guerra. O barulho de tiros de fuzil não cessa. Duas sequências de três explosões estrondosas estremecem nossos ouvidos em um período de quatro horas.

O comandante mostra um prédio residencial deixado em ruínas por um bombardeio, além de uma escola também atingida. Nessa parte de Aleppo, as fachadas dos comércios estão cravadas de balas, assim como as casas. Nas esquinas das ruas, o lixo se acumula a cada dia.

Mesmo nesse ambiente, muitos sírios estão tentando sobreviver em suas casas — mesmo sem energia, no frio, com a falta até mesmo de pão e convivendo com a morte da forma mais violenta todos os dias.

Ao andar pelas ruas de Aleppo, encontro apenas uma mulher que caminha com dificuldade para atravessar uma rua, um homem parado numa esquina — observando atentamente ao movimento rebelde — e um menino que corre para um beco entre dois edifícios. Uma família aparece na janela de um prédio que aparenta estar abandonado. Nesse cenário, duas pequenas quitandas estão abertas. A vida se mostra assustada em Aleppo.

Na Síria, pode se comprovar a máxima de que a primeira morte em uma guerra é a da “verdade". Em uma zona de conflito, há diversas versões para um mesmo acontecimento. O trabalho de um jornalista fica ainda mais difícil.

A verdade aparece, no entanto, naquilo que se vê à sua frente. E o mair exemplo disso, em uma guerra, é o drama das pessoas, o sofrimento de civis inocentes — vítimas dos dois lados da guerra. 

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