Internacional

29/1/2013 às 02h00 (Atualizado em 29/1/2013 às 13h37)

Sírios se dividem entre viver como refugiados ou pegar em armas e ir à guerra

Um total de 580 mil sírios já foram registrados como refugiados pelas Nações Unidas

Edrien Esteves, especial para o R7, em Azaz (Síria)

Voluntários distribuem comida para crianças no campo de refugiados de Azaz Edrien Esteves

O último balanço da Agência da ONU para Refugiados sobre a guerra civil na Síria, divulgado na semana passada, revela que mais de 670 mil sírios já estão registrados ou esperando o registro como refugiado. Esses sobreviventes do conflito estão em países como Líbano, Jordânia, Turquia e Iraque, além do norte da África.

A quantidade de refugiados hoje é dez vezes superior a de maio de 2012, o que indica que, a cada dia, pioram as condições de vida da população síria, que vive há quase dois anos uma guerra interna entre as forças leais ao presidente Bashar al Assad e grupos rebeldes que tentam tirá-lo do poder.

Na pequena cidade síria de Azaz, na fronteira com a Turquia, se encontra um acampamento para os refugiados que vieram de vilas do norte do país e da cidade de Aleppo. O R7 visitou o local para conhecer a situação de famílias que tiveram de abandonar suas casas para ter alguma chance de sobrevivência. 

Também visitamos Aleppo, o centro econômico do país, em cujas ruas se travam atualmente os mais ferrenhos combates. A partir de hoje, o R7 publica a série de reportagens “Vidas roubadas na Síria”, com relatos dos sírios que resistem à guerra e estão inventando novas formas de viver em meio a um conflito que já deixou mais de 60 mil mortos.

Um país dividido

A situação parece estar calma do lado turco da fronteira. Mas logo após a barreira entre os dois países, em Azaz, na Síria, é intenso o movimento de taxistas e de sírios que querem ir à Turquia comprar comida e outras necessidades, ou, então, fugir da guerra.

Nem todos conseguem passar para a cidade de Kilis, na Turquia, o que deixa o clima tenso na fronteira.

Em um período de uma hora, três carros do Exército Livre da Síria (ELS) chegam em alta velocidade com rebeldes feridos durante combates em Aleppo, que fica a 50 Km. Eles precisam esperar por ambulâncias da Turquia, que não demoram em chegar para socorrê-los.

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Cerca de meio quilômetro à frente, dentro do território sírio, o controle de fronteira está completamente tomado por rebeldes do ELS, que fazem a segurança do local com fuzis AK-47 e pistolas automáticas.

Um pouco mais adiante surge o campo de refugiados de Azaz e, logo ao lado, o Centro de Imprensa, que é administrado por jovens estudantes e profissionais liberais que desempenhavam normalmente as suas atividades antes da guerra.

Quem me recebeu no centro foi um jovem de 23 anos chamado Mahmoud, que mora em Azaz, uma pequena cidade a 10 km da fronteira.

Ele disse que cursava o segundo ano de Literatura Inglesa na Universidade de Aleppo antes de começar a guerra. Depois que as aulas foram interrompidas por causa do conflito, Mahmoud preferiu iniciar um trabalho voluntário no Centro de Imprensa, em vez de pegar em armas. Do mesmo modo, diz, está "ajudando na libertação da Síria".

Apesar de estar impedido de ir à faculdade, ele continua estudando em casa durante à noite com a ajuda da luz do celular, pois não há energia elétrica.

Na região de Azaz, somente alguns lugares possuem luz devido ao uso de geradores, mas nem sempre há combustível. 

Homem consola rebelde ferido trazido até a fronteira em busca de atendimento médico na Turquia Edrien Esteves

O ELS é composto por desertores do Exército sírio, um dos maiores e mais fortes do Oriente Médio e um dos pilares de sustentação do regime Assad. Jovens, estudantes e profissionais liberais também estão nas fileiras das forças rebeldes, que se unem pelo desejo de derrubar Assad e por serem, majoritariamente, muçulmanos de origem sunita, grupo que representa 74% da população síria.

A família Assad, por outro lado, é de origem alauíta, grupo minoritário que corresponde a 10% da população e que controla os principais postos do governo, do Exército e da economia do pais.

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O ELS conta também com sírios de origem curda, que veem na guerra uma oportunidade para se livrarem da perseguição do regime. Um deles é o engenheiro Mohamed, que comanda um grupo de 60 combatentes, muitos deles na faixa dos 22 anos.

Mohamed conta que parte dos curdos, assim como ele, querem uma Síria livre de Assad. Outros, no entanto, integram o PKK, grupo extremista que atua na Turquia e que quer conquistar território para formar seu próprio país em áreas que incluem Síria, Turquia e Iraque — o conflito sírio, portanto, é visto como oportunidade para esse objetivo.

Apesar de lutar contra Assad, Mohamed diz que os integrantes do PKK não sabem que ele atua no ELS. Se descobrissem, isso seria sua pena de morte, sacramenta.

Mohamed conta ainda que não quer saber de divisões — bate no peito e diz “sou Síria”. Para ele, os curdos terão espaço em uma Síria livre.

Ele foi um dos poucos sírios que teve condições de levar sua família, mulher e quatro filhos para a casa de parentes na Turquia. Mohamed poderia ficar seguro por lá, mas optou por ir à luta.

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