Internacional

27/2/2013 às 00h30

Tortura, mentiras e
Hollywood

Produções do cinema americano, por vezes, não são fiéis aos fatos históricos e causam confusão no público

Osama bin Laden que foi morto pelo exército americano em 2011 AP Photo

Assisti a "A Hora Mais Escura" não como ex-agente especial do FBI que passou uma década caçando, interrogando e processando altos membros da al-Qaeda, mas como alguém que gosta dos filmes de Hollywood. Enquanto filme, gostei do que vi. Mas enquanto história, aquilo é pura bobagem.

O filme começa com a frase: "Baseado em relatos em primeira pessoa de acontecimentos reais". Mas os cineastas apresentam ficção como se fosse um fato histórico quando o personagem chamado Ammar é torturado e, conforme o filme sugere, fornece informações que levam a Osama bin Laden.

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Ammar é um personagem composto que se parece muito com um terrorista real, Ammar al-Baluchi. Tanto no filme, quanto na realidade, ele era parente do primeiro tenente de bin Laden, Khalid Sheikh Mohammed. Mas a CIA afirmou diversas vezes que apenas três detentos foram torturados com a simulação de afogamento. O verdadeiro Baluchi não estava entre eles e não forneceu informações que levaram a bin Laden.

Na verdade, a tortura sempre nos afastou de bin Laden. Na verdade, depois que Mohammed foi submetido 183 vezes à simulação de afogamento, ele ainda negava a importância do mensageiro que nos levou a bin Laden. Inúmeras investigações, incluindo um recente relatório secreto de 6.300 páginas feito pelo Comitê Selecionado de Inteligência do Senado, chegaram à mesma conclusão: interrogatórios com tortura não funcionam. Mostrar a tortura como uma ferramenta eficaz pode levar a nova geração de americanos a crer que um dos maiores sucessos do atual governo se deveu à eficácia da tortura. Isso é um desserviço tanto para a história quanto para a segurança nacional.

Embora os cineastas tenham o direito de dizer o que quiserem, autoridades do governo não têm direito de fornecer informações falsas para promover os próprios interesses. Quem fornece informações oriundas de programas secretos dá a entender que não existe um livre mercado de ideias, mas um mercado controlado e sujeito à manipulação. Isso é abuso de poder.

John O. Brennan é ex-funcionário da CIA e foi nomeado pelo presidente Barack Obama para chefiar a agência. Recentemente, Brennan contou que o relatório secreto levantou "sérias dúvidas" sobre as informações que recebeu quando era vice-diretor executivo da agência. Brennan disse publicamente o que muitos de nós – que estávamos em salas de interrogatório quando o programa foi criado – vimos avisando há anos: autoridades sêniores, logo abaixo do presidente, receberam informações enganosas obtidas em consequência do programa de interrogatório com tortura.

Por exemplo, um memorando de 2005 do Departamento de Justiça de 2005 afirmava que a simulação de afogamento havia levado à captura de José Padilla, um membro da al-Qaeda nascido nos Estados Unidos. Na verdade, ele foi preso em 2002, meses antes do início da prática do afogamento artificial, quando um colega do FBI e eu conseguimos informações a respeito dele por meio de um terrorista chamado Abu Zubaydah. Como ninguém checou as informações, a mentira sobre Padilla era repetida como verdade.

Quando agentes ouviram autoridades sêniores citando informações que sabíamos que eram falsas, fomos proibidos de falar a verdade. Depois que o presidente George W. Bush fez um discurso mentiroso em 2006 – acredito que os subordinados mentiram para ele – ouvi de meu superior: "A informação ainda é secreta. Só porque o presidente está falando sobre isso, não significa que também podemos falar".

Alguns dos memorandos e dos relatórios que apontavam essas inverdades deixaram de ser secretos, mas muitos trenos foram suprimidos. O mesmo ocorre com os livros a esse respeito, incluindo o meu.

Enquanto isso, defensores da tortura vão até jornalistas inescrupulosos, autores e produtores de Hollywood, com materiais selecionados e informações falsas que se encaixam em sua narrativa.

Os criadores de "A Hora Mais Escura" se propuseram a documentar a maior caçada global de nossa geração. Mas o fizeram sem admitir que sua história era baseada em fontes dúbias.

Os cineastas levaram em conta os "relatos em primeira pessoa" de algumas autoridades atuais e antigas do governo que tinham segundas intenções, e amplificaram sua mensagem para todo o planeta – sugerindo aos espectadores americanos e de todos os regimes estrangeiros que a tortura é eficaz e ajudou a levar até bin Laden. O filme nem sugere que possa haver outra narrativa.

A finalidade de Hollywood é o entretenimento. A responsabilidade moral de esclarecer a história e de garantir que o público não seja enganado e que os erros não sejam repetidos recai sobre o congresso e o presidente. Ainda assim, o relatório do senado continua secreto e só quem tem o acesso de segurança, como Brennan, pode saber de que forma o público está entendendo.

É dever do congresso e do presidente tornarem públicos esse relatório e os outros documentos que os defensores da tortura não querem que sejam publicados.

Essa é a única forma de garantir que as futuras gerações nunca mais voltem a trilhar essa rota obscura e perigosa. Conforme disse o Sen. John McCain, o relatório do senado "tem o potencial de explicar essa história de uma vez por todas", colocando fim "a uma mancha na consciência de nosso país".

Depois que isso for feito, não vai demorar até que outro filme de Hollywood conte como os Estados Unidos realmente mataram bin Laden.

(Ali H. Soufan é ex-agente especial do FBI que interrogou prisioneiros da al-Qaeda e autor do livro "The Black Banners: The Inside Story of 9/11 and the War Against al-Qaeda".)

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