Internacional

3/6/2013 às 00h30

Vilarejo britânico protesta contra plano de
extração de gás 

A Cuadrilla Resources, empresa de energia britânica, está prestes a perfurar um poço exploratório de gás de xisto perto de Balcombe

O vilarejo Balcombe, com cerca de 1.800 moradores, não é nenhum antro de radicalismo e fica no coração do Partido Conservador Andrew Testa/International Herald Tribune

Balcombe, Inglaterra – Apesar das apostas, havia quase um espírito festivo neste rico vilarejo localizado nas colinas de West Sussex. Crianças brincavam ao redor de uma tenda na rua, e famílias espalhavam cobertores no pequeno gramado da vila.

Mas o que os reuniu em 23 de maio não foi uma feira de primavera, e sim uma profunda preocupação. A Cuadrilla Resources, empresa de energia britânica, está prestes a perfurar um poço exploratório de gás de xisto perto dali. Os moradores veem o empreendimento como um possível precursor à técnica de perfuração conhecida como fraturamento hidráulico, ou "fracking", ecologicamente controversa.

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"Não fraturem meu futuro", diziam as camisetas das crianças, que comiam cupcakes de chocolate.

Os moradores "estão passando pelo processo de luto; eles acabaram de descobrir que têm câncer", declarou Alison Stevenson, presidente do Balcombe Parish Council, um órgão governamental local. Uma pesquisa recente, conduzida pelo conselho paroquial, descobriu que mais de 80% dos 284 participantes desejavam que o conselho se opusesse ao fraturamento.

O protesto está em harmonia com a firme resistência que as empresas de petróleo e gás, bem como os governos que aprovam sua exploração, vêm enfrentando quando tentam retirar gás natural de depósitos subterrâneos de xisto e extrair outros combustíveis fósseis em áreas povoadas.

Embora a extração de gás de xisto tenha criado um boom de energia nos Estados Unidos, muitos europeus têm relutado em aceitar a tecnologia – por temores de que ela poderia contaminar as águas subterrâneas e estimular a contínua dependência de combustíveis emissores de carbono.

Balcombe, com cerca de 1.800 moradores, não é nenhum antro de radicalismo. O vilarejo fica no coração do Partido Conservador, a cerca de meia hora de trem do sul de Londres, e é representado no parlamento por Francis Maude, um ministro do gabinete.

Mas os moradores dizem que sua oposição ao fraturamento, o processo de bombear grandes quantidades de líquidos, areia e outras substâncias para libertar o gás preso no interior de rochas, não está sendo ouvida nos círculos oficiais.

"Esta é uma vila naturalmente muito conservadora e rica", afirmou Lawrence Dunne, um professor de física que mora aqui. "Mas sentimos que o governo está nos ignorando completamente."

Nesta noite, a Cuadrilla (a empresa que lidera o desenvolvimento do gás de xisto na Inglaterra) estava tentando ouvir. Numa antiga igreja conhecida como Bramble Hall, a empresa organizou uma "sessão de conversa" para moradores locais.

Diversos executivos da Cuadrilla, acompanhados por uma equipe de relações públicas, conversavam com pequenos grupos de moradores. Também compareceram ativistas ambientais de Londres e da região.

Francis Egan, presidente da Cuadrilla, classificou o evento – que atraiu mais de 200 pessoas e durou mais de quatro horas – como "realmente valioso". O encontro deu às pessoas "uma oportunidade de ouvir nosso lado e o que estamos fazendo", em vez do que eles "leem na internet", explicou ele. Ele e outros empresários europeus que defendem o desenvolvimento do gás de xisto estão com inveja da vantagem inicial obtida por seus colegas americanos. Mas eles sabem que, deste lado do Atlântico, o medo da poluição é tão enraizado no povo que políticos locais e nacionais ficam hesitantes em apoiar a perfuração.

A França proibiu o fraturamento, e é pouco provável que a Alemanha dê luz verde ao processo antes das próximas eleições. O governo britânico vê o gás de xisto como um possível substituto às reservas de energia no Mar do Norte, mas essas intenções vêm demorando para se transformar em ação. É improvável que haja qualquer fraturamento de gás de xisto na Inglaterra neste ano.

No dia do protesto, Balcombe era um microcosmo de preocupações europeias. Muitos pareciam já ter opinião formada contra a empresa de energia – um resultado, segundo alguns locais, da forte campanha realizada por oponentes do fraturamento.

Eric Vaughan, diretor de serviços de poços da Cuadrilla, viu-se bombardeado de perguntas sobre leis por Katy Dunn e Emma Cooke, duas jovens vestindo roupas pretas e meias amarelas – que chamavam a si mesmas de "as vovós tricoteiras contra o gás".

As preocupações citadas por moradores incluíram temores de que a atividade de perfuração aumente o tráfego nas estradas e prejudique o meio ambiente. Eles também suspeitam que a produção de petróleo e gás, por mais lucrativa que possa ser à Cuadrilla, traria poucos benefícios a Balcombe.

"Me preocupo com o impacto ambiental no ar e em nosso abastecimento de água", afirmou Louisa Delpy, que mora a mais de um quilômetro do local. "Tenho duas crianças pequenas."

Delpy teve uma longa conversa particular com Egan, para abordar uma lista de preocupações. Mas a conversa a deixou "com mais perguntas", disse ela. "Isso foi apenas o começo."

Nem todos eram contra o fraturamento. "Se possuímos recursos naturais, vamos usá-los", argumentou Derek Earl, construtor aposentado de torres de rede celular. Mas ele parecia fazer parte da minoria.

Nas paredes de Bramble Hall havia uma série de cartazes explicando os planos da empresa. Primeiro, a Cuadrilla pretende perfurar um poço exploratório num local chamado Lower Stumble, onde a Conoco abriu um poço em 1986 mas abandonou os esforços logo em seguida.

A Cuadrilla quer tentar de novo com métodos modernos, incluindo a perfuração horizontal e o uso de ácido clorídrico para estimular o poço. Executivos da empresa afirmaram que não pretendem "fraturar" esse poço de testes, pelo menos inicialmente.

Mas segundo Egan, que assumiu a presidência da Cuadrilla no ano passado (depois de a empresa ter selecionado o local em Balcombe), eles podem decidir mais tarde fraturar o poço – "se acharmos que isso faria diferença ao ritmo do fluxo".

Egan disse ter sido incentivado pelas expressões do governo nacional de apoio à perfuração. "Existe um reconhecimento geral de que devemos prosseguir com a fase de exploração", afirmou ele.

Mas não em Balcombe. "Vamos combater isso", garantiu Dunne, o professor de física. "Seguiremos em frente com todos os meios pacíficos e legais."

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