Estupro coletivo: delegado afastado vê elo entre jovem violentada e tráfico

Segundo Thiers, a jovem afirmou ser amiga dos traficantes do morro da Barão

Alessandro Thiers foi afastado da DRCI após polêmica no início da investigação do estupro coletivo
Alessandro Thiers foi afastado da DRCI após polêmica no início da investigação do estupro coletivo PAULO CAMPOS/ESTADÃO CONTEÚDO/ARQUIVO 27.05.2016

O delegado Alessandro Thiers, o primeiro a investigar o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio, afirmou na quarta-feira (8), que o primeiro vídeo divulgado sobre o caso, em que a jovem aparece nua, desacordada, ao lado de homens que mexem em sua genitália, não caracteriza estupro. Afastado do inquérito sob a acusação de ter constrangido a vítima ao tomar seu depoimento, ele disse que o envolvimento da jovem com o tráfico deve ser apurado pela polícia, pois ela afirmou ser amiga dos traficantes do Morro da Barão, zona oeste, e de ter participado do preparo de drogas para venda.

Thiers, de 41 anos, dirigia a Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), da qual foi afastado na terça-feira, 7. A coordenação da investigação já havia passado para a delegacia da Criança e Adolescente Vítima na semana passada.

Como o senhor avalia o resultado das investigações até aqui?

O que posso falar é que esse vídeo que foi divulgado, onde o Raphael Bello (um dos acusados presos) aparece com a língua para fora, se você conversar com qualquer especialista em Direito, da área penal, vai ouvir que não houve estupro ali, tecnicamente falando. O dolo ali não foi de satisfazer lascívia sexual. Não estou falando que eles não possam ter estuprado antes ou depois. Apenas que entendo que a análise daquele vídeo isoladamente mostra que ocorre o crime de difamação, não de estupro. O "mais de 30 engravidou" (dito por um dos homens) é adaptação do funk Mais de 20 engravidou. Ele tentou denegrir a honra da garota. Do outro vídeo (em que a jovem é violentada e reclama de dor, divulgado posteriormente) eu não tenho conhecimento.

Acha que a vítima inventou que foi estuprada?

É só vocês raciocinarem: ela já mudou de versão diversas vezes em programas de televisão. Os fatos têm de ser mais bem investigados, para ver se havia realmente 33 pessoas armadas naquela casa e quem seriam elas. Se você olhar melhor o vídeo, você acha que estava tendo conotação sexual? Como mulher, você acha que a pessoa ali teve algum tipo de satisfação sexual ou de achincalhar a garota? A intenção dele era de se autovangloriar, de ser o garanhão da favela. A imagem choca, é de uma garota desacordada, com as partes sexuais avermelhadas. É isso que está sendo investigado. A imprensa colocou como se fosse verdade absoluta. Fiz meu trabalho de forma coerente e imparcial. Agora a polícia vai chegar à verdade dos fatos.

O que se passou, de acordo com as investigações iniciais conduzidas pelo senhor?

Até onde investiguei, aparentemente não ficou comprovado efetivamente o estupro. A relação que ela teve foi consensual com o Raí de Souza (preso, que mantém essa versão). A história dela tem vários pontos em aberto. Os fatos que ela relatou são graves, ainda mais alegando que foram 33 pessoas. É uma coisa covarde. O comportamento anterior da vítima não foi usado como elementar do tipo penal. Quando a mulher fala "não", é não. Houve comoção nacional e internacional pela história. A polícia não estava duvidando, mas a gente tem de ser técnico.

No estupro, o relato da vítima não deveria ter peso especial?

Não posso ouvir a versão de uma pessoa e sair pedindo a prisão de todo mundo. Numa outra vez, ela foi estuprada, o Da Russa (Sérgio Luiz da Silva Junior, chefe do tráfico da favela) ia matar e ela falou: "Não mata". Ela confirmou que são amigos dela, que já participou da endolação (preparo de drogas). A mãe dela me falou, perguntei e ela confirmou. Tem outro questionamento que até hoje ninguém fez: por que ela não está sendo investigada por associação ao tráfico? Ela sofreu estupro? Pode ser que tenha sofrido. Mas o restante é esquecido? Não pode passar a mão na cabeça.

O senhor foi acusado de constranger e criminalizar a vítima. Nega que o tenha feito?

Todos os fatos foram gravados e, em um momento oportuno, serão apresentados. Não venham me falar que não tenho experiência pra trabalhar com criança e adolescente, porque já trabalhei na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. As perguntas feitas à adolescente foram porque a mãe comentou que ela tinha amizade com os traficantes. Não teve constrangimento nenhum. Eu era o maior interessado em achar os culpados.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.