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Coronel da PM relembra preso sem cabeça e fala em “medo de tomar tiro”

Valter Alves de Mendonça fala como foi a operação da qual reconhece ter visto seis mortos

São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

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Segundo julgamento do massacre do Carandiru acontece no Fórum Criminal da Barra Funda
Segundo julgamento do massacre do Carandiru acontece no Fórum Criminal da Barra Funda Daia Oliver

Capitão da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) na época do massacre do Carandiru, em 2 de outubro de 1992, o coronel Valter Alves de Mendonça, hoje no rol de inativos da Polícia Militar, relembrou os momentos que viveu durante a operação para debelar o motim de presos no pavilhão nove da Casa de Detenção.

O réu abriu o terceiro dia do segundo julgamento do caso, na manhã desta quarta-feira (31), no Fórum Criminal da Barra Funda.


O interrogatório foi marcado por contradições e momentos de tensão. O primeiro foi quando o coronel disse que o plano inicial, que previa que a Rota fosse a última tropa da PM a entrar no pavilhão, foi modificado momentos antes do início da operação de invasão.

— O coronel Ubiratan (Guimarães, responsável pela operação) nos reuniu para definir uma estratégia de entrada. Primeiro entraria o 2º Batalhão do Choque a frente, com escudeiros e efetivo da Rocam, uns 130 oficiais. Na sequência, entraria o 3º Batalhão do Choque, com escudeiros e caminhão. Depois vinham dois grupos pequenos do COE e do Gate, conduzidos pelo Capitão Salgado e Mascarenhas, e a tropa da Rota ficaria por último. Depois que o portão foi estourado, o coronel Ubiratan, acompanhado de dois juízes e outras autoridades, inverteu a ordem de entrada, conosco indo primeiro.


Em dois momentos, Mendonça se contradisse. Em pergunta feita pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, ele afirmou que, pela Rota, ele não tinha experiência em invasões a presídios, apenas em “cadeias distritais”.

Mais adiante, confrontado pela promotoria, o coronel destacou já ter debelado uma rebelião no Carandiru, “em 1981 ou 1982”, em uma situação que envolvia reféns e teve mortes. As primeiras equipes da Rota a entrarem no pavilhão nove encontraram alguns presos, que foram reunidos no meio do pátio, e “quatro corpos, um deles sem cabeça”, de acordo com Mendonça.


Após um preso indicar a entrada e as escadas, os policiais encontraram barricadas, fumaça e “mais dois corpos”. A tropa então subiu, “em meio a muito óleo avermelhado”, segundo palavras do coronel, quando teriam ocorrido os confrontos.

— As sete equipes comandadas pelo capitão Ronaldo (Ribeiro dos Santos) ficaram no primeiro andar (segundo pavimento). Eu subi com a minha equipe e fomos progredindo. Aos primeiros passos do segundo andar (terceiro pavimento), vi clarões e estampidos em minha direção. Alguns atingiram o meu escudo. Revidamos e gritamos para que todos entrassem nas celas. Seguimos avançando e encontramos presos gemendo de dor. Os disparos recomeçaram e alguns presos deixaram suas celas para nos agredir. Eu mesmo fui agredido com um estilete e uma porretada na perna. Fomos até o final do corredor e dominamos a situação ali.


Mendonça garante que todos os feridos, incluindo os policiais, foram socorridos. Ele deixou o pavilhão nove em seguida, foi medicado e foi orientado por um colega a não retornar, por “ordens superiores”. O coronel afirmou ainda que “duas a três armas” foram recolhidas nas celas, as quais estando com os detentos, e que elas foram disponibilizadas no batalhão.

Ao todo, 26 PMs são acusados pela morte de detentos no terceiro pavimento (2º andar) da Casa de Detenção, em 2 de outubro de 1992. Os militares respondem por homicídio doloso (com intenção de matar) qualificado (motivo torpe, meio cruel, dificultação de defesa e acobertamento de outro crime).

Dezessete testemunhas foram convocadas. Onze de acusação e seis de defesa. Do total, 12 eram aguardadas no tribunal, enquanto as outras cinco tiveram vídeos dos seus depoimentos apresentados no plenário.

Primeiro dia

O primeiro dia foi marcado pela dispensa de sete das oito testemunhas da acusação. Apenas o perito criminal Osvaldo Negrini foi interrogado. Ele disse ter visto um “mar de cadáveres” e presenciado um “rio de sangue” ao chegar na Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992. O depoimento de Negrini começou por volta das 14h10 e terminou pouco depois das 16h30.

Segundo dia

No segundo dia do júri, os jurados ouviram no plenário o ex-secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos, e o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Além deles, mais duas testemunhas protegidas prestaram depoimento.

A defesa ainda exibiu dois vídeos com depoimentos dos desembargadores Luiz San Juan França e Ivo de Almeida. França era juiz da Vara das Execuções Criminais da Capital em 1992, ano em que 111 detentos da então Casa de Detenção de São Paulo foram mortos após a entrada da Tropa de Choque da Polícia Militar para conter uma rebelião na unidade prisional. Já Almeida era corregedor dos presídios da capital na época dos fatos.

Relembre o caso

O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no Pavilhão 9. Com a confusão, a Tropa de Choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta. A ação deixou 111 mortos. Ao todo, 286 policiais militares entraram no complexo penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio.

Em abril de 2013, 26 policiais militares foram levados ao banco dos réus pela morte de 15 detentos no segundo pavimento do pavilhão nove no massacre do Carandiru. Após sete dias de julgamento, a maioria foi condenada por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Naquela ocasião, seis homens e uma mulher formaram o Conselho de Sentença.

Dos 26 policiais, 23 foram condenados a 156 anos de prisão, inicialmente, em regime fechado. Os réus receberam a pena mínima de 12 anos por cada uma das mortes dos 13 detentos. Os condenados poderão recorrer em liberdade.

Outros três PMs foram absolvidos pelo júri, que acatou o pedido feito pela acusação.

Antes deles, Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém, um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia.

Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.

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