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R7 mostra drama de depender do transporte público em São Paulo

Karina perde 4 horas por dia no trânsito e enfrenta lotação, risco de queda no ônibus e violência 

São Paulo|Ana Cláudia Barros, do R7

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Cansado, Breno adormece encostado no ombro da mãe
Cansado, Breno adormece encostado no ombro da mãe

O alarme do celular toca às 4h da manhã fria. Do lado de fora da janela, o céu ainda escuro legitima os “cinco minutinhos” a mais de sono, mas o despertador estridente, daqueles antigos, começa a gritar, como um chamamento para a realidade. É hora de deixar o aconchego das cobertas e de encarar mais um dia longo, boa parte dele gasto dentro da condução.

Moradora de Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, a auxiliar administrativa Karina Segatto, 25 anos, conhece de perto as mazelas do transporte público brasileiro. Ela utiliza ônibus e metrô para ir e voltar do trabalho, no Hospital das Clínicas, região central da capital paulista. Antes de chegar ao emprego, por volta das 7h20, precisa deixar o filho, Breno, sete anos, na escola, na avenida Paulista.


No último dia 15, o R7 acompanhou de perto a rotina de Karina, semelhante à de muitos brasileiros, especialmente, a dos habitantes de São Paulo. De acordo com o Censo 2010, de um total de 20 milhões de pessoas ocupadas que moram no Estado, 3 milhões (15%) fazem migração pendular — vivem em um município, mas trabalham em outra cidade. O percentual verificado em São Paulo está acima da média do País, que é de 11,8%, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A jovem gasta, em média, por dia, cerca de quatro horas de deslocamento — contando as caminhadas até os pontos e estações —, entre ida e volta. A reportagem encontrou a auxiliar e o filho na porta da casa onde os dois moram, às 5h. O rosto cansado denuncia a breve noite de sono. Para cortar o vento gelado, Breno se protege com o capuz da blusa de moletom. Tirar o garoto da cama não é tarefa fácil, como o próprio admite.


— Minha mãe vai me acordar e falo: "Mãe, me deixa dormir mais um pouquinho".

Com a Lua ainda à mostra, os dois caminham apressados até o ponto de ônibus. Atrasar alguns minutos pode significar viajar em pé, segundo Karina.


— Para poder pegar o ônibus mais vazio, tenho que dar uma boa caminhada. O certo seria pegar no ponto final, mas lá é muito perigoso nesta hora. Não posso me arriscar nem arriscar meu filho [...] Se eu perder o ônibus de 5h15, tenho que ir no de 5h30, que já chega cheio. Dá vontade de chorar. É um caminho muito longo para ficar a viagem toda de pé.

Naquela sexta-feira, o coletivo passou cinco minutos mais cedo. Parece pouco, mas fez diferença. Com o trânsito fluindo melhor, o trajeto até a avenida Paulista, que costuma demorar até uma hora e meia [em condições normais], pareceu mais curto.


Já às 5h27, o ônibus estava com todos os assentos ocupados e havia passageiros no corredor. Alguns ignoravam os constantes sacolejos e dormiam. O semblante sério da maioria combinava com o silêncio que dominava o ambiente, interrompido apenas pelo som do motor e do abrir das portas. As conversas eram raras.

Vencido pelo sono, Breno adormece encostado no ombro da mãe. Para ela, um dos piores percalços é “a falta de colaboração das pessoas”.

— Estar com uma criança não é o problema. O problema é quando as pessoas veem que você está com uma criança em pé e não se oferecem nem para pegar a mochila ou para dar um cantinho para que ela possa ficar segura, porque o ônibus vira muito, balança. O Breno já quase caiu várias vezes. Sem contar uma vez em que ele estava encostado na porta, que abriu por engano. A sorte que a gente estava de mãos dadas.

Para que as horas gastas dentro do ônibus e do metrô sejam aproveitadas da melhor maneira possível, a auxiliar administrativa usa o tempo de viagem para ler, ouvir música, brincar com jogos no celular, conversar com o filho e, até mesmo, comer.

— Na verdade, é o único momento que tenho para relaxar.

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Karina e o filho, assim como quem precisa usar transporte público, também estão sujeitos a outro problema: a violência. Em dezembro do ano passado, os dois presenciaram um assalto. No momento da abordagem dos criminosos ao cobrador, o menino dormia.

— Dois rapazes entraram pela porta da frente e apontaram a arma onde o cobrador coloca o dinheiro. Só olhei para o Breno dormindo. Pensei: “Se ele acordar, pode se assustar, ter alguma reação. É criança". Entrei em desespero. Foi próximo ao Natal.

Antes de ir trabalhar, Karina leva o filho à escola; eles voltam em pé no fim da tarde
Antes de ir trabalhar, Karina leva o filho à escola; eles voltam em pé no fim da tarde

Aperto 

O embarque mais cedo alterou a programação normal de Karina, que desceu do ônibus, na avenida Paulista, às 6h11. O que à primeira vista parece vantagem foi, na verdade, mais um transtorno. Como o colégio de Breno costuma abrir às 6h50, ela e o menino tiveram que aguardar na porta da escola.

Depois de deixar o filho na aula, a jovem segue para o metrô, na estação Brigadeiro, e desce na estação Clínicas. Karina chega ao trabalho às 7h23.

— Breno sai da escola às 12h45. Uso o horário do meu almoço para buscá-lo. Pego o metrô e deixo meu filho no pós-aula, uma escolinha paga na Cardeal (Arcoverde). Saio do trabalho às 4h30 e vou buscá-lo novamente.

Mãe e filho concordam que o retorno para casa é a pior parte do dia. O menino reclama.

— Na volta, a gente vai em pé.

A auxiliar completa, dizendo que ambos têm uma estratégia para diminuir o desconforto do ônibus lotado.

— Sempre tem que entrar no ônibus e correr para o cantinho mais vazio que a gente achar [...] As pessoas estão mais cansadas e não estão nem aí. Saem atropelando. Rezo para não ter contratempo e atrasar a viagem.

Com os passageiros mais estressados, as reclamações também são mais recorrentes, destaca Karina.

— Vou escutando música ou conversando com o Breno. Eu me desligo. Começam a gritar, mas só olho, se vejo que é dentro do ônibus.

A rotina extenuante cobra seu preço.

— Eu não como direito. Fico irritada. Os braços ficam machucados, porque permaneço muito tempo em pé, na mesma posição.

Breno também sente os efeitos da fadiga. A mãe conta que já foi chamada na escola, porque o menino dormiu, mais de uma vez, na classe.

— Isso aconteceu nos dias em que nós fomos de pé. Então, ele não conseguiu tirar o soninho e dormiu na aula.

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