“Temos que ocupar usando os meios necessários”, diz primeiro réu a depor no júri do Carandiru
Segundo o então capitão, ação da polícia no segundo pavimento durou entre 5 e 15 minutos
São Paulo|Ana Ignacio, do R7

Após mais de duas horas de atraso, o quinto dia — quarto de trabalhos — do julgamento de 26 PMs acusados de participação no massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, começou com o interrogatório dos réus. Por volta das 12h20, Ronaldo Ribeiro dos Santos, capitão e comandante da 2ª Companhia da Rota na época do crime, começou a ser ouvido. Hoje, Ronaldo é tenente-coronel.
De acordo com o réu, ele foi informado sobre a rebelião durante a tarde do dia 2 de outubro e foi chamado para comparecer ao Complexo Penitenciário do Carandiru. No local, foi orientado pelo coronel Ubiratan a ocupar, se houvesse necessidade, o segundo pavimento do presídio. Naquele momento, segundo ele, escudeiros tentavam uma aproximação para negociar.
—[Então] Ubiratan me disse para avançar porque havia tiros em direção a tropa. Meu objetivo era ocupar o primeiro andar, segundo pavimento. Quando se fala em ocupar temos que ocupar usando os meios necessários e, se tiver reação, temos que responder no mesmo nível.
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Ronaldo Ribeiro relatou que ao entrar no pavimento viu corpos de presos, os quais ele diz acreditar que foram vítimas dos próprios detentos. Com um revólver e uma metralhadora “a tira colo”, o PM disse ter disparado três vezes durante a ação usando o revólver em resposta “a clarões e estampidos que pareciam de armas de fogo”. A metralhadora, segundo ele, não foi utilizada.
De acordo com seu depoimento, outros policiais fizeram disparos após perceber que alguns vultos iam em direção à tropa e não obedeceram a ordem de entrar nas celas.
— Foi uma reação perante agressão.
A ocupação do pavimento, segundo Ronaldo, durou entre 5 e 15 minutos.
— Uma ação dessas é rápida.
O réu relatou ainda que não ouviu rajadas de metralhadores em outros andares e, contrariando o depoimento de sobreviventes, que não viu nenhum policial atirando dentro das celas. O policial disse que após a ação viu corpos de presos.
— Não dava para ver direito. Não sei precisar, mas não eram mais do que três corpos.
“Ordem ilegal não se cumpre”
A operação foi planejada pelo coronel Ubiratan e decidiu-se que Ronaldo entraria com parte da tropa para o lado direito do pavimento e o então tenente Aércio Dornellas, que deve ser ouvido ainda nesta tarde, seguiria para o lado esquerdo. Após passar pelo corredor com todas as celas, os policiais retornaram pelo mesmo caminho vistoriando as celas e já se depararam com outras tropas, responsáveis pela finalização da operação de rescaldo.
Ronaldo declarou que deve seguir ordens de seus superiores quando são legais.
— Ordem ilegal não se cumpre. As ordens do coronel Ubirtan foram perfeitamente legais, por isso as cumpri.
Na operação, foi decidido ainda que o tenente Dornellas seria responsável pelo socorro de feridos dentro do pavimento, inclusive dos presos, o que Ronaldo garante que ocorreu.
— Com certeza houve socorro.
Durante o interrogatório do réu, a promotoria questionou Ronaldo sobre depoimentos prestados por ele para a Justiça Militar. Anteriormente, o acusado relatou que tinha visto “oito ou dez” presos caídos e relatou que vistoriou todas as celas no pavimento. No entanto, em seu interrogatório desta sexta-feira, ele disse ter visto apenas três corpos e declarou que vistoriou somente as celas do lado direito.
Armas
Ronaldo disse que não apreendeu nenhuma arma, mas que o tenente Dornellas apresentou três armas de fogo que teriam sido apreendidas no pavimento. O réu declarou que não chegou a ver os presos armadas – tanto com armas brancas quanto com armas de fogo – mas que “tem certeza de que estavam armados”.
De acordo com seu depoimento, três policiais foram atingidos por disparos e saíram feridos da operação. Assim que saíram do presídio, o réu explicou que todas as armas utilizadas pelas tropas foram entregues e levadas à reserva de armas.
A defesa enfatizou, então, que desde o dia da ação policial as armas já estavam prontas para a realização de um confronto balístico (exame para identificação de quem atirou em quem). A advogada Ieda Ribeiro deve usar esse argumento na fase de debate para defender seus clientes alegando que não há como individualizar a ação.
Em silêncio
Para esta sexta-feira, ainda está previsto o interrogatório de Aércio Dornellas Santos, Marco Ricardo Polinato e Marcos Antônio de Medeiros. Os três foram retirados do plenário durante o depoimento de Ronaldo. Os outros 20 réus manifestaram ao juiz, um a um, que “seguindo recomendações da advogada e para evitar o cansaço dos jurados”, iriam permanecer em silêncio.
O juiz questionou todos os réus se eles tinham conhecimento da acusação que pesava sobre eles e perguntou se eram inocentes. Todos disseram que sim. Mesmo diante da manifestação de permanecer em silêncio, a promotoria perguntou aos réus se eles não queriam “aproveitar o único momento para falar com os jurados para esclarecer o envolvimento” de cada um deles no dia do massacre do Carandiru.
Após o interrogatório, ocorrerá a fase de debates e, na sequência, os jurados irão se reunir para decidir se os réus são culpados ou inocentes.













