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Seca pode intensificar novo recorde de queimadas no Pantanal em 2021

Taxa de incêndios é quase o dobro da média histórica e bioma ainda terá mais dois meses de solos mais secos e vulneráveis

Brasil|Gabriel Croquer, do R7


Chuvas estão mais fracas justamente na região Centro-sul do Brasil, onde fica o Pantanal
Chuvas estão mais fracas justamente na região Centro-sul do Brasil, onde fica o Pantanal

A crise hídrica que o Brasil vive em 2021, a pior nos últimos 91 anos, deve ajudar a potencializar uma nova série de queimadas devastadoras no Pantanal comparáveis ao desastre de 2020, alerta a coordenadora do Lasa (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Renata Libonati.

"Os valores deste ano estão muito acima da média histórica. Já são 556 mil hectares queimados no Pantanal desde o início do ano até 24 de agosto. A média histórica para o mesmo período é praticamente a metade disso: 264 mil. A situação de hoje é muito preocupante", afirmou.

A destruição em 2020 do Pantanal durante o mesmo período é consideravelmente maior do que a de agora: 1.391.475 hectares (o equivalente à área de nove cidades de São Paulo). O resultado foi a pior marca anual em toda a série histórica do bioma, que perdeu quase um terço de sua área total para incêndios.

Mas os meses de setembro e outubro, que fecham o período seco antes das chuvas de verão, são os piores em termos de queimadas. E a tendência dos últimos dias em 2021 não é positiva, alerta Libonati.

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"A última semana teve um aumento de mais de três vezes à área queimada dos últimos 30 dias. Se continuar com essa taxa, de 56 mil hectares por dia, a gente facilmente vai atingir os valores de 2020."

Os dados são coletados por meio de imagens de satélite analisados pela equipe do Lasa, que integra o Departamento de Meteorologia da UFRJ. Este acompanhamento forma o sistema ALARMES, que acompanha em tempo real o avanço do fogo para ajudar órgãos ambientais em ações de combate. 

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O número de focos de incêndio nos biomas, calculado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) por meio de sensores e metodologias diferentes dos usados pela UFRJ, confirmam o problema.

"Tivemos um aumento bastante expressivo nos últimos dez dias, principalmente na região do Pantanal do Mato Grosso do Sul. Foram 1.448 focos detectados nestes 25 dias e a média histórica é de 1.596, então, é bem possível que agosto fique acima da média", afirma o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV (Instituto Centro da Vida), Vinícius Silgueiro.

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É justamente nessa região do Brasil que as chuvas ficaram bem abaixo do esperado. Com o solo e vegetação muito mais secos, as queimadas podem se alastrar com mais facilidade e terem efeitos devastadores. 

Clima extremo

A falta de chuvas que atinge o Centro-Sul do Brasil e aumenta a conta de luz enquanto preocupa o governo Bolsonaro é intensificada pelo fenômeno do aquecimento global, que teve resultados alarmantes divulgados neste mês, conforme o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

"Não há a menor dúvida hoje que a crise [hídrica] é intensificada e a frequência de eventos climáticos extremos está cada vez mais comum por causa das mudanças climáticas", aponta o físico brasileiro Paulo Artaxo, um dos autores do relatório do IPCC. "A região central do Brasil já está se tornando mais seca e propensa a ter eventos climáticos extremos, como essa seca atual."

Ainda de acordo com o levantamento do IPCC, feito a partir de análises durante três anos com 14 mil estudos científicos e revisões pelos pares, o aquecimento pode alcançar o limite de 1,5 ºC de alta na temperatura. Os maiores responsáveis, conclui o estudo, são os seres humanos e a única forma de minimizar o aquecimento, já irreversível, é diminuir em massa as emissões de gases de efeito estufa.

Artaxo também diz que no Brasil o efeito desse aquecimento, além do aumento de ocorrências de eventos climáticos extremos, seria a conversão do bioma da Floresta Amazônicaem um dos maiores emissores de gás carbônico do mundo. Isso se daria por conta da reversão nos efeitos da vegetação causado pelo desmatamento e pelas queimadas.

Biomas mais ameaçados

Em relação ao desmatamento e às queimadas, a Amazônia é, junto com o Pantanal e a Caatinga, um dos biomas que mais preocupam os ambientalistas nos últimos anos. Desde 2018, o desmatamento na área aumentou 79% e fechou 2020 com 77.396 km² queimados, de acordo com monitoramento do Inpe.

A Caatinga é o maior destaque negativo deste ano, com aumento de 157% nos focos de incêndio e de 359% dos km² queimados na comparação de janeiro a julho deste ano ao mesmo período de 2020. Logo atrás está o Cerrado, com 33% de alta e que, em termos absolutos, é o bioma que mais possui área queimada.

Em um país que não sofre tanto com fenômenos naturais que desencadeiam queimadas, especialistas apontam a ação humana como o fator responsável pelos hectares destruídos pelo fogo. Logo, o combate ao desmatamento ilegal é imprescindível para diminuir as taxas.

Desde 2010, a área queimada de todos os biomas tem passado por altos e baixos. Depois de repentina melhora em 2018, os dois últimos anos fizeram o índice dobrar, saltando para 312.140 km², o que manteve as taxas próximas à média geral da década passada.

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